VERBALIDADE E BAIXARIAS INSALUBRES

Por Raimundo Borges*

Entre 1985 quando o último general do regime militar de 1964, João Batista de Oliveira Figueiredo, se despediu do Palácio do Planalto, e 2019, com a chegada primeiro militar na democracia, o capitão da reserva do Exército, Jair Messias Bolsonaro, o Brasil passou por uma profunda mudança política, econômica e social. Foram 34 anos, com uma constituição novinha em folha, trazendo no seu bojo a democracia mais avançada da América Latina, nove presidentes da República (três com reeleição) e apenas um não eleito pelo voto popular – o maranhense José Sarney, em 1985.

O Brasil viveu o período democracia mais alongada desde a República. Porém, tem um passivo de dois impeachments presidenciais (Collor e Dilma), vários planos econômicos e duas crises que abalaram ou destruíram as conquistas do povo brasileiro. Atualmente, o país passar por um período de adaptação aos rumos dados pelo presidente Jair Bolsonaro, com suas políticas de desmonte do que os antecessores do PSDB e do PT deixaram como legado. São quatro meses de embates – os mais imprevisíveis, dentre eles inéditos confrontos e bate-boca, num nível de baixaria jamais visto.

No governo do general Figueiredo, as frases que se tornaram celebres foram ditas por ele mesmo, tais como: “Durante muito tempo o gaúcho foi gigolô de vaca”, sobre as peculiaridades do Rio Grande do Sul. Ou: “Prefiro cheiro de cavalo ao cheiro de povo.” E mais ainda: “Se ganhasse salário mínimo, eu dava um tiro no coco”. Hoje o debate entre generais e um autoproclamado filósofo extrapola os mais rudimentares linguajares de torcida de futebol ou de bebedores de botequim da esquina.

“A quem me chama de desocupado não posso nem responder que desocupado é o cu dele, já que não para de cagar o dia inteiro”, atacou o “ideólogo”, Olavo de Carvalho, como o chama, o apresentador William Bonner. Resposta do general Paulo Chagas: “O ânus é o órgão excretor, se faz sua função o dia inteiro, não é desocupado. Desocupado é o ânus do Olavo q foi substituído pela boca”.

É nesse ambiente verbalmente insalubre que o Brasil, com o governo militarizado, procura o rumo para esmagar a crise que está chegando ao 5º ano. O presidente Bolsonaro avaliza, no twitter, a postura do tal ‘guru’: “Olavo, rapidamente tornou-se um ícone verdadeiro fã para muitos”. Classificou de “desentendimento” o arranca-rabo de Olavo com os generais que trabalham no entorno Bolsonaro, no governo. Bem que ele poderia recorrer ao acadêmico José Sarney para que eles prendam um pouco de “liturgia do poder”.

Desde que o governo Bolsonaro assumiu o Planalto, em janeiro, o escritor, guru do presidente, desfere críticas azedas a militares, especialmente ao vice-presidente general Hamilton Mourão, e ao ministro da Secretaria de Governo da Presidência da República, o general Santos Cruz. Na segunda-feira (6), o general Eduardo Villas Bôas, ex-ministro do Exército e membro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) onde assessora o general Augusto Heleno, publicou no Twitter um duro texto sobre Ovalo, dizendo que o escritor tem um “vazio existencial” e “derrama seus ataques aos militares e às FFAA demonstrando total falta de princípios básicos de educação, de respeito e de um mínimo de humildade e modéstia”.

Em sua coluna ontem, na Folha de São Paulo, a jornalista Mônica Bergamo revela a crise militar instalada em Brasília, diante das agressões de Olavo de Carvalho aos generais. “Os termos usados por ele, chamado também de ‘guru’ dos Bolsonaro, para se referir ao general Eduardo Villas Bôas, na terça (7), no Twitter, fizeram a temperatura entre os militares subir novamente”.

O escritor afirmou, um dia antes, ao receber críticas de Villas Bôas, que ele é ‘um doente preso a uma cadeira de rodas’. “Mesmo, assim, depois disso, Olavo foi elogiado publicamente pelo presidente Bolsonaro e por um dos filhos dele, Eduardo”, diz a jornalista. “O texto foi considerado ainda mais ofensivo, em alguns círculos militares do Palácio do Planalto, do que os ataques de Carvalho ao general Santos Cruz, da secretaria de governo —a quem o guru chamou de ‘merda’ e ‘bosta’.

No gabinete da Vice-Presidência, ocupada pelo general Hamilton Mourão, a ordem era nada comentar para não elevar a crise a níveis imprevisíveis, dado o inconformismo dos militares com o apoio de Bolsonaro ao guru. No segundo escalão militar, que lota os gabinetes de ministros, a indignação era a mesma. Em mensagens de WhatsApp, coronéis se referiam às atitudes de Olavo de Carvalho, como ‘favelagem'”.

Anteontem, Olavo voltou a fustigar o vice Mourão, que preferiu ponderar: “ataques são totalmente sem nexo”. E amenizou: “Se nós ignorarmos será muito melhor para todo mundo”. Em sua trincheira na cidade de Nova Iorque, protegido pela distância cibernética, escritor não cansa de disparar mísseis contra o miliares do governo: “Os generais, para voltar a merecer o respeito popular, só têm de fazer o seguinte: arrepender-se, pedir desculpas e passar a obedecer. O Santos Cruz (general), politicamente analfabeto, não sabe nem mesmo a distinção entre governo e Estado. Quem governa é o presidente sim, Santos Cruz!”

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