JORNAIS SÃO A ÚLTIMA BARREIRA DE CONTENÇÃO CONTRA A DESINFORMAÇÃO DAS REDES SOCIAIS

Entrevista exclusiva com Marcelo Rech, presidente da Associação Nacional de Jornais

Por Raimundo Borges

Em visita à Redação de O Imparcial, o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ), Marcelo Rech concedeu entrevista exclusiva, na qual abordou a importância dos jornais impressos nesses tempos carregados de crise e de mídias digitais. Como líder do setor mais importante das comunicações no Brasil, ele diz acreditar que a nossa atividade jornalística, de jornal, não está ameaçada de morte. “O jornal é uma combinação de plataformas que se lê no impresso, no celular, no tablet, no computador… Sem eles, os governos, as sociedades e os empresários vão ficar reféns de pistoleiros digitais”.

Ao visitar vários jornais, Rech se fazia acompanhar do diretor executivo da ANJ, Ricardo Pedreira. Sobre o papel da entidade no meio jornalístico, o presidente afirmou que o papel primeiro da ANJ é valorizar muito o meio jornal, seja ele impresso ou digital. O impresso a gente valoriza especialmente o jornal como produto em transformação para garantir o púbico leitor. No final da entrevista, Rech contesta a postura inicial do presidente Jair Bolsonaro de ser seletivo com alguns jornais, mas pondera que ultimamente, ele tem conversado bastante com os jornalistas em café da manhã, fato que considera positivo.

Raimundo Borges (E), diretor de Redação de O Imparcial, com Marcelo Rech (C), presidente da ANJ, e o diretor executivo, Ricardo Pedreira (D)

O Imparcial – Qual é o futuro do jornal impresso neste mundo dominado pelas tecnologias digitais?

Marcelo Rech – Eu acho que quem vai decidir isso vai ser o público. Vai ser um cidadão quando entender que é mais conveniente o prazer de ter esse contato com o papel, esse envolvimento, essa relação, que é uma relação física e até uma relação sensorial de toque, de cheiro, em fim, essa relação de familiaridade com o jornal impresso. Acho, por isso, que vai ter muito tempo ainda para o jornal impresso.

Onde está o risco de jornal impresso desaparecer?

O risco está se as pessoas por alguma razão, por custo, ou porque o jornal talvez esteja muito distante da realidade delas, digamos assim mudar o rumo da linha editorial, ou de uma percepção que as pessoas possam não dar mais valor aquele produto da forma que elas estavam acostumadas. Mas acredito que a nossa atividade jornalística, de jornal, é uma combinação de plataformas de lê no impresso, no celular, no tablet, no computador… e nós vamos fornecer jornal, no formato que for, para as pessoas, naquilo que elas entenderem que é a melhor forma de consumir jornal.

Qual o papel da Associação Nacional de Jornais nesse contexto de mídia impressa e mídia digital?

Nosso papel primeiro é valorizar muito o meio jornal, seja ele impresso ou digital. O impresso a gente valoriza especialmente o fato de, quem lê impresso só lê jornal. A única coisa que a pessoa faz quando está lendo jornal, é lê jornal. Isso é uma característica do meio impresso. O leitor não se distrai com outra coisa, pois tem um engajamento, um envolvimento maior com impresso do que quando assiste à televisão. Quando ouve radio, o sujeito está fazendo várias coisas ao mesmo tempo, ou mesmo quando está no celular que é muito fácil mudar, trocar digamos de conteúdo. Então, o jornal permite um engajamento não só com conteúdo jornalístico, mas com conteúdo publicitário também. Uma coisa importante ressaltar é a defesa do impresso por ser uma plataforma absolutamente engajadora, envolvente para quem gera a noticia e para quem a recebe, e, também para os anunciantes.

Por que você tá fazendo esse percurso pelo Brasil visitando as redações dos jornais?

Objetivo é principalmente valorizar a imprensa regional. Acho que não existe substituto no mundo para os meios de comunicação regionais, de qualidade, feitos por jornalistas profissionais, formados por conceitos e códigos de princípios, de valores éticos, comuns e universais para todos os jornalistas. A imprensa regional cumpre um papel muito além de informar a comunidade. Ela é, digamos o centro que reflete a identidade cultural, que reflete os anseios, as reivindicações. Ninguém vai dar atenção às questões regionais se não for a imprensa regional, porque os outros veículos e as redes sociais têm outras visões e outros interesses. Então é importantíssimo que o público, os leitores, a sociedade, os anunciantes, os líderes empresariais, os líderes políticos apoiem firmemente e objetivamente a imprensa regional. Se ela um dia ela ficar tão fraca, ou pior ainda, se um dia a imprensa, os veículos começarem a desaparecer, surgirá um deserto de notícias. E nesse deserto de notícias onde não vai ter mais jornal, não vai ter rádio, não vai ter televisão feita por profissionais, os governos, as sociedades e os empresários vão ficar reféns de pistoleiros digitais. De pessoas que vivem de inventar informações falsas para ter ganhos econômicos e políticos. Então, hoje, a última barreira de contenção contra a desinformação são os jornais, não só os impressos em particular, mais de todos os veículos de comunicação.

As fake News, por exemplo, ancoradas nas redes sociais, o grande estuário de comunicação mentirosa, afetam a vida dos jornais impressos e do jornalismo em geral?

Elas afetam no sentido que as pessoas estão se voltando para os jornais como porto seguro contra a desinformação. Porém, como todo mundo recebe notícias pelo celular, pelo WhatsZapp e não sabe se aquilo é verdade ou mentira – e geralmente muita coisa é mentira e invenção –, as pessoas estão começando a voltar à imprensa tradicional. E até pensando duas vezes antes de compartilhar uma notícia que recebeu no celular. E de outra parte olhando à mídia profissional para constatar se aquilo é verdade. É como eu sempre digo: ‘nós não vimemos do erro, vivemos do acerto’. Portanto, é a imprensa profissional que faz do acerto, o seu modo de vida. Ela busca a verdade.

Aliás, a busca da verdade foi e continua sendo o grande ponto forte dos jornais impressos, como a Associação Nacional dos Jornais vê a preservação desse jornalismo de credibilidade metido no meio do furacão chamado média digital, onde o céu é o limite?  

Sem dúvida o jornal impresso ele é uma referência. O que essa mídia publica tem um peso muito grande. Primeiro porque o jornal filtra por critérios editoriais, perante essa onda na qual  todo mundo pode dizer e publicar o que bem entender na internet. Só que, no jornal, o assunto tem início, meio e fim e tem espaço limitado. O que sai é uma seleção feita por profissionais, baseados em critérios técnicos de interesses de seu público. É uma seletividade que não se consome na internet, porque nela se escrevem loucuras, absurdos. Já o jornal tem seus critérios profissionais, técnicos e legais na produção do que divulga. É nessa seleção que as pessoas leitoras devem separar o joio do trigo.

Como fazer para o leitor – o jovem principalmente – voltar a ter prazer de ler no papel como acontecia com as gerações passadas?

Eu acho que esse é um desafio enorme. Mas também acho que nós precisamos estar produzindo conteúdo para o jovem. Não apenas conteúdo editorial, mais também eventos relacionados ao jornal; atividades relacionadas ao meio jornal, que possam despertar mais interesse dos jovens pela marca dos jornais. Eu vejo que os jovens assim como os adultos também estão preocupados com a desinformação. Também se preocupam em não passar informação errada porque ninguém gosta de fazer papel de trouxa, de ser enganado. Então, o jovem está ficando atento a isso: não cair nas armadilhas das desinformações. E qual é o antídoto? É o jornalismo de qualidade. E ande tem jornalismo de qualidade? Nos jornais. Eles são o grande antídoto da desinformação. E quando alguém distribui algo que é verdadeiro, como um artigo lido no jornal A, ou no jornal B, mostrando que tal coisa não é assim como saiu na internet, o status dessa pessoa no seu grupo de trabalho, na sua escola, ou na sua sala de aula aumenta porque ela conhece mais que os outros.

O fato de o presidente Jair Bolsonaro usar tanto as redes sociais como meios de se comunicar com o público, sendo ele chefe da Nação, não pode influenciar, de forma negativa, na audiência e na preferência dos jornais como meio de comunicação?

Eu acho que todo mundo tem o direito de usar a forma que achar mais conveniente de comunicação. Isto é absolutamente normal. Porém, particularmente entendo que o uso do twitter e outras fontes digitais é uma péssima maneira de se comunicar. Isso é como o velho release eletrônico, aquele material que todo mundo sabe não é enviado para as redações, mas é publicado pelo twitter. Talvez seja para evitar questionamento, responder perguntas de jornalistas que podem ou não ser incômodas. E evitar esclarecimentos adicionais.

Ele tem sido um presidente até seletiva com alguns jornais na questão de entrevistas, para quem deve falar para quem não deve. Isso é novo, não é?

Isso é uma distorção.  Existe uma questão que é constitucional. O poder público, o ente público deve ter impessoalidade no trato da coisa pública. Impessoalidade é não ter  preferência, ou prestar favores ou desfavores a quem quer que seja. Isto vale para presidente, para os governadores e prefeitos. A impessoalidade na coisa pública é um princípio elementar da vida republicana, não pode estabelecer preferências ou perseguições a quem quer que seja pela razão que for. Então eu acho lamentável que haja discriminação eventual. Agora, em contra partida eu vejo (o presidente Bolsonaro) com bons os olhos, pois ele tem feito algumas manifestações defendendo a liberdade de imprensa. Tem feito manifestações falando positivamente do jornalismo. Parece que está mudando um pouco. Ele tem feito esforço de receber já na terceira vez. Eu acho que com grupos diferentes de veículos de comunicação, em café da manhã no Palácio do Planalto. Isso acho muito positivo. Espero que o presidente aprofunde especialmente os contatos com profissionais de diferentes veículos e mídias, até por ser ele o funcionário público numero um do país. É dar exemplo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *