O DILEMA DA ESQUERDA E DA DIREITA NO MARANHÃO


O governador Flávio Dino é taxado de “comunista” por ser filiado ao PCdoB, mas governa longe dos dogmas que norteiam regimes como o Cubano, o chinês e o da Coreia do Norte.

Por Raimundo Borges

O Maranhão vive um dilema que não se enquadra na categoria dos mais comuns relacionados à ética e à moral, por exemplo. Mas é desafiador. É o dilema político que sobressai, vigorosamente, da crise generalizada cada vez mais profunda. O governador Flávio Dino é taxado de “comunista” por ser filiado ao PCdoB, mas governa longe dos dogmas que norteiam regimes como o cubano e o da Coreia do Norte. Muito menos o governo do Maranhão tem qualquer víeis que se possa compará-lo ao “comunismo” da China.

E aí vem a questão central da discussão: A China, hoje, é um país comunista? O mundo todo faz essa indagação e muitos estudiosos dizem que não. Para estes, depois de duas décadas de reformas econômicas, com crescimento explosivo que tornou o país a segunda (por enquanto) maior potência do mundo, o comunismo na China é apenas de fachada. Nem mesmo os integrantes do Partido Comunista acreditam na filosofia implantada no país após a revolução de 1949, liderada por Mao Tsé-tung.

Logo se percebe, sem precisar ser cientista político, que o Maranhão não tem absolutamente nada de comunismo nem de comunista no Palácio dos Leões. Flávio Dino tem um pensamento progressista, uma base sólida de conhecimentos políticos, sociais e econômicos. Mas nem que quisesse, por ideologia, poderia implantar um regime comunista no Maranhão simplesmente por sua filiação ao PCdoB, uma das 35 legendas partidárias registradas e funcionando no Brasil.

Comunista versus esquerdista

Não é difícil entender que, ser esquerdista não é a mesma coisa de ser comunista. Em entrevista ao jornal francês Le Monde Diplomatique, em novembro de 2018, logo após ser reeleito no primeiro turno, Flávio Dino analisou as perspectivas políticas para os próximos anos, as relações do Nordeste, onde a esquerda saiu vitoriosa, com o governo Bolsonaro e as dinâmicas da corrida eleitoral. “Se o programa de Paulo Guedes tivesse sido apresentado na campanha, Bolsonaro perderia a eleição”, avaliou Dino.

O jornal faz uma colocação pertinente: “Se Jair Bolsonaro se identifica com o general Pinochet e Paulo Guedes promete aplicar uma agenda econômica semelhante ao que o ditador chileno fez no país andino, o governador do Maranhão Flávio Dino, 51 anos, tem como referência o ex-presidente chileno Salvador Allende — um marxista declarado que chegou ao poder pelo voto democrático”.

Presidente Jair Bolsonaro

Hoje, Bolsonaro com apenas cinco meses no governo central e Dino com o mesmo tempo do segundo mandato à frente do governo maranhense, já é marcante a sua posição esquerdista fazendo o contraponto à postura direitista do presidente da República. Como a política tem a sua dinâmica própria, Dino sobressai cada vez mais, ocupando o espaço na esquerda, que Luiz Inácio Lula da Silva não pode fazê-lo, com mais um ano trancafiado em Curitiba.

Como as manifestações de domingo passado de apoio ao governo Bolsonaro e suas reformas foram dominadas pela classe média que apostou nele em 2018, como o “mito” capaz de estrangular a corrupção e implantar uma “política nova”, a bandeira de Flávio Dino é outra: investir em programas sociais, focados na Educação, com ferramenta para golpear as desigualdades e enfrentar a onda de violência, por um prisma bem distante do que prega o bolsonarismo, no lema retrógrado: “bandido bom é bandido morto”.

Preso sem tornozeleira

Como faltam ainda três anos e meio para a disputa presidencial de 2022 e o país tem ainda muito tempo para mudar, Flávio Dino e Bolsonaro levam seus governos de acordo com as circunstâncias de cada momento e cada episódio político. Dino é líder no Nordeste e se projeta nacionalmente como esquerdista. Afinal, essa é a tendência histórica da região que tem os piores indicadores sociais, mas, no entanto, tem ganhado destaque, pelo crescimento de sua economia nos últimos anos bem acima da média brasileira.

Ao se opor duramente contra a política bolsonarista, o “comunista” Flávio Dino consolida sua posição no segmento social que não participou das manifestações de domingo passado, mas lotou as cidades brasileiras apenas 15 dias antes. Nesta quarta, Jair Bolsonaro mais uma vez disparou declarações reclamando de ser presidente, durante cerimônia na Embratur. Em conversa com a imprensa na ocasião, ele afirmou que, aos finais de semana, está “em prisão domiciliar sem tornozeleira eletrônica” no Palácio da Alvorada.

Ciro Gomes (PDT), tem feito duras críticas ao PT e a Lula

Já no oposto, Flávio Dino vai abrindo caminho, ocupando o espaço no mesmo segmento de Lula, Fernando Haddad e do pedetista Ciro Gomes. Este, por sua vez, não perde a oportunidade de atormentar Lula e o PT, com frases cortantes, como se isso o fizesse crescer politicamente no mesmo ambiente político em que Bolsonaro faz o proselitismo de suas ideias reacionárias e difusas. Ciro e Bolsonaro, certamente, voltarão a se enfrentar na eleição presidencial de 2022, evento que pode ter Flávio Dino também no páreo – tudo dependendo obviamente das circunstâncias históricas que virão na esteira da programação governamental tanto de Bolsonaro no Brasil, quanto a dele no Maranhão.

Dois pleitos diferentes

A próxima eleição geral, de 2022, porém, terá uma característica diferente de 2018. Os partidos históricos que dominaram o Brasil desde a Constituição de 1988, foram destroçados em outubro passado. Como por exemplo, o PMDB de José Sarney e Lobão, o PSDB de FHC e Aécio Neves; e o PT de Lula e Haddad. Este perdeu espaço, mas nem tanto quanto os demais. Já Flávio Dino apoia Lula e a campanha “Lula Livre”, enquanto Ciro Gomes ataca duramente o petista, mesmo estando filiado ao PDT, o partido de maior projeção junto ao PT, e no Maranhão, é alinhado de ponta a ponta com o governo Flávio Dino.

Para o governador Flávio Dino, a esquerda perdeu as ruas para a classe média, que apoia o governo Bolsonaro, suas propostas e reformas que formam o maior burburinho do Congresso Nacional. É aquela velha história de Trancoso: “Ou o Congresso aprova as reformas ou o Brasil fecha para balanço”. O tranco é tão barulhento que dirigentes de sete partidos de oposição irão questionar a participação do presidente do STF, Dias Toffoli, em reunião no Alvorada, com o presidente Jair Bolsonaro (PSL) para defender um pacto em apoio às reformas encampadas pelo governo.

Lula segue preso na sede da Polícia Federal, em Curitiba

Só que o presidente do STF não é classe média, nem político, assim como os juízes federais, que repudiam a sua postura, questionada pelos partidos. Afinal, ao referendar o pacto pelas reformas, o chefe do Supremo deixa espaço para perguntas intrigantes: Como o chefe da corte suprema deve conduzir julgamento de ações que questionarem parte ou o todo das reformas pactuadas com o Planalto e o Congresso? Bolsonaro disse a Rodrigo Maia que tem o poder e a caneta para consertar, por decreto, eventuais alterações em sua reforma pelo Congresso, escrachado domingo passado nas ruas, junto com o STF, nas manifestações dos grupos bolsonaristas.

Foi naquela manifestação que Flávio Dino prognosticou que a esquerda perdeu terreno para a classe média direitista. E perdeu mesmo. É esse segmento social que divide hoje o Brasil entre pobres, que apoiam Lula e seus programas sociais, e os remediados e ricos que torcem o nariz até para quem vive na rua da amargura. O irônico dessa divisão pela escala de renda é que milhões de brasileiros que se acham “classe média”, na realidade não estão onde pensam estar na pirâmide social. E aí cresce o ódio ao petismo e a veneração a Bolsonaro, cujos programas pegam a pobreza no contrapé.

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