A HISTÓRIA DOS ÍNDIOS VENEZUELANOS WARAO, QUE SE REFUGIAM EM SÃO LUÍS

 

Por Raimundo Borges

Nos últimos meses as avenidas de São Luís, principalmente cruzamentos de trânsito são pontuais a presença de venezuelanos, portando cartazes de isopor – muitos deles em mãos de mulheres e crianças – com pedido de ajuda e de alimento. É uma cena chocante para a população ludovicense, pouco acostumada com refugiados em seu meio, como ocorre em outras cidades. Segundo reportagem de O Imparcial (13/08), assinada pela jornalista Patrícia Cunha, os refugiados que chegaram a São Luís, eram 55 em maio e hoje são somam 155, quase todos indígenas da etnia warao.

Embora exista uma rede de proteção na capital maranhense, mas até os integrantes das organizações sociais e instituições públicas parecem pouco preparadas para lidar com a complexidade do movimento migratório de refugiados que se tornou um drama mundial, de várias procedências. Os refugiados viraram um problema político internacional. No Brasil a maior corrente dessas populações em busca de sobrevivência, é procedente da Venezuela, país que vive em crise política e econômica sem precedente em sua história recente.

Índios Warao da aldeia Curiara, no Delta Orinoco (Foto: Divulgação)

Os warao, não falam só o espanhol, mas, principalmente, um dialeto regional, da etnia indígena que habita o nordeste da Venezuela e norte das guianas ocidentais. Suas alternativas de escritas comuns são Warao, Waroa, Guarauno, Guarao e ou Warrau. O termo Warao traduz como “povo do barco”, após a conexão íntima ao longo da vida dos Warao com à água. A maioria da população é de aproximadamente 20 mil habitantes e localiza-se na região do delta do Orinoco na Venezuela, com números menores nas vizinhas guianas e Suriname. A língua falada é aglutinante, chamada também de Warao.

Força-tarefa humanitária

Segundo a reportagem de Patrícia Cunha, nos próximos dias acontecerá uma ação contínua envolvendo a Defensoria Pública do Estado do Maranhão e a da União, Tribunal de Justiça, Conselho Municipal da Criança e do Adolescente, Conselho Tutelares, Pastoral da Criança, Universidade Federal do Maranhão, governo do Estado e o Município de São Luís. A força-tarefa irá fazer abordagem, dar orientação sobre as nossas leis relativas às crianças, saber como e onde estão alojados e como eles se posicionam na cidade que recorreram para viver. Trata-se de uma iniciativa louvável, porém complexa.  Uma parte está num sítio em Vassoural, da Igreja Assembleia de Deus dos Últimos Dias, outra no bairro Parque Atenas.

Desde 2016, as primeiras levas de índios Warao, um dos povos mais antigos do Delta do Orinoco, na Venezuela, começaram a fugir da crise política e econômica do país, presidido por Nicolás Maduro. Inicialmente, foram buscar refúgio em cidades de Roraima, na fronteira do extremo norte do Brasil, onde chegavam com fome, sede e necessitados de atendimento médico.

Muitos foram deportados

Diferente dos imigrantes venezuelanos não indígenas e de outras nacionalidades, como os haitianos e sírios, que conseguem refúgio no Brasil, os Warao passaram a ser deportados pela Polícia Federal. De 2014 a 2016, foram 223 indígenas obrigados a voltar para Venezuela. As deportações se intensificaram nas cidades de Boa Vista e Pacaraima. Em 2017, 166 índios foram retirados das ruas ou de casas abandonadas, onde estavam abrigados, sem demonstrar resistência à força policial.

Índios Warao | Foto: Divulgação

Em 2018, depois que venezuelanos foram atacados por brasileiros na cidade fronteiriça de Pacaraima, dezenas de índios warao, que viviam no abrigo público, saíram do local e voltaram para a Venezuela. Seguiram de ônibus para a região de Tucupita, onde vive a maioria dos nativos Warao.

Das pessoas que têm procurado ajudar os warao em São Luís, ninguém consegue travar um diálogo com eles. Mas as mulheres de roupas coloridas e suas crianças no colo ou acompanhando na mendicância nos cruzamentos de trânsito, aparentemente têm sido atendidas. Algumas pessoas saem distribuindo sacolas com roupa e alimento – bandecos – para os refugiados.

Eles vivem o drama do crescente fluxo migratório da população venezuelana para o Brasil, fugindo da situação caótica do país vizinho, com miséria, escassez de alimentos e remédios, inflação de muitos dígitos, insegurança absoluta. Entretanto, na imigração venezuelana há um grupo étnico peculiar: os indígenas warao, possuem grandes habilidades de artesanato. Essa etnia habita há séculos o delta do Rio Orinoco, no estado Delta Amacuro e regiões adjacentes dos estados Bolívar e Sucre, naquele país.

Povos das canoas

Os warão (povos das canoas) têm relação integral com a água é íntima. São, tradicionalmente, pescadores e coletores. Há cerca de 70 anos vêm sendo convertidos em horticultores, e vivem em comunidades de palafitas localizadas nas zonas ribeirinhas fluviais e marítimas, além de pântanos e bosques inundáveis da região de origem. Estas casas são construídas geralmente no chão mais alto para evitar as inundações anuais. Às vezes, um grupo de casas é construído sobre uma única plataforma de grandes árvores.

Os Warao tiveram seus primeiros contatos com os europeus quando, logo depois de Cristóvão Colombo ter alcançado o delta do Rio Orinoco, Alonso de Ojeda decidiu navegar contra a corrente rio adentro. Lá, no delta, Ojeda viu as cabanas dos Waraos distintamente empoladas, equilibradas sobre as águas, tendo comparado a arquitetura semelhante em Sinamaica, de longe para o oeste, com a cidade de Veneza e seus famosos canais abaixo dos edifícios. É este povo que perambula pelas ruas de São Luís, como refugiados de uma crise que talvez esteja longe do fim e da compreensão deles próprios.

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