CARLOS GASPAR: UM INTELECTUAL E EMPRESÁRIO NA ERA DIGITAL, AMANTE DE JORNAIS E LIVROS

 

Por Raimundo Borges

Em um mundo dominado por sistemas digitalizados, redes sociais e aplicativos guiando multidões mundo afora, onde a máquina de escrever virou peça de museu e o papel escrito já não tem o mesmo fascínio para a juventude, o empresário e escritor Carlos Gaspar (78) prefere conciliar o seu amor pelos jornais impressos, papéis e livros, com a dominação tecnológica cada vez mais avassaladora.

Ele não abre mão, no trabalho intelectual de escritor, pesquisador e empresário, do cheiro das tinas de papel.  Como membro da Academia Maranhense de Letras, Carlos Gaspar leva a vida, mergulhado em estantes de livros – muitos livros –, jornais e papeis de todos os matizes de leitura.

“É uma paixão irresistível, um fascínio que vem de infância. Convivo com o papel como a tinta com as letras. Sou um homem papeleiro”, brinca Carlos Gaspar, autor de vários livros e com três em fase de conclusão.

Para alimentar o prazer de colecionar e manusear papel escrito, Gaspar gasta tempo, dinheiro e energia colecionando jornais atuais e antigos.  Sua biblioteca de cinco mil volumes é vizinha de um mini-museu sobre a história do pai Armando Gaspar, que veio ainda criança de Portugal para o Brasil, e de toda a família. É nesse ambiente em que se misturam hobby, lembranças e sentimentos, que o escritor passa a maior parte de seu tempo – 8º andar de um dos prédios mais caros do Renascença II, com o charmoso nome de Michelangelo.

O também empresário Antônio Gaspar resume o que acha do irmão mais velho: “Ter o Carlos como irmão é um privilégio. Ele é solidário, como poucos, amigo e companheiro, conciliador e nosso líder. É o mais velho, o mais sensato, tolerante, conciliador e conselheiro. É uma unanimidade na família. É empreendedor nato. Revolucionou a industrialização do babaçu; da refenda de carros no Maranhão, além de ter demarcado seu espaço no mundo da literatura, talvez inspirado no professor, historiador e pesquisador Mário Meirelles”.

Entre livros e papéis, Carlos Gaspar vive como uma criança a descobrir em cada página escrita, os valores da história da humanidade, do Brasil, de Portugal e do Maranhão. Ele os admira e manuseia como se faz com uma peça rara de arte. É como quem monta um mosaico, cujas peças são parte do passado e o resumo de sua visão literárias, familiar e empresarial.

Gaspar leva a vida com simplicidade e retinas definidas, como fazer caminhada de manhã cedo, visitar a empresa revendedora da marca Caoa/Chery e trabalhar no escritório. “Reduzir meus negócios e minhas obrigações pessoais. Já trabalhei muito e agora tenho que aproveitar o tempo para mim. Trabalho a manhã toda e a tarde fico livre para escrever minhas coisas, conversar com amigos, fazer algumas compras no supermercado e celebrar a vida em família”.

Para quem já teve onze empresas, hoje ele se desfez de quase todas, restando apenas uma imobiliária, uma factory e a revenda de carros.  Na velhice, não pretende deixar muitos negócios que venham atrapalhar a vida da filha única, Maria do Perpétuo Socorro. “Penso em deixar ela bem, em condições de tocar a vida sem problemas”, antecipa ele.

Gaspar foi casado por 50 anos, e depois que a esposa Paula morreu, ele cuida da filha, da casa e dos negócios, sem muitas atribulações.

Viaja bastante para Portugal – uma 30 vezes – e deu quase uma volta ao mundo, da Ásia, Europa a América do Sul. Meu pai era português e desde 1967, portanto, 50 anos, que vou lá, visitar parentes e conversar com amigos.

“O que devo fazer hoje é me preparar para morrer. Afinal, o homem é um ser finito”.

Dr. Carlos, o senhor é um homem rico. Como está pensando em cuidar, na velhice, do seu patrimônio (?) que possui – que é grande?

Não sou rico e meu patrimônio é o suficiente para viver tranquilamente. Sou um privilegiado abençoado, por isso agradeço a Deus pelo que sou. Nunca fui de extravagância, de mostrar grandeza, nem vivi em riqueza. Não sou de ostentar nada. “O que devo fazer hoje é me preparar para morrer. Afinal, o homem é um ser finito”.

Como é sua vida literária. Como o senhor trabalha essa parte,que se tornou uma das suas paixões?

Leio bastante, pesquiso, escrevo também muito e faça um artigo semanal para O Imparcial. Agora mesmo estou escrevendo um novo livro. Aliás, tem dois na fila. Mas estou dedicado a um estudo biográfico, analítico sobre a vida de Fran Paxeco. Já fiz de Antônio Lobo, agora é a vez de Fran Paxeco. Um português idealista que veio para o Brasil e teve uma vida de relevância. Foi fundador da Faculdade de Direito, da Academia Maranhense de Letras e das faculdades de Farmácia e de Odontologia.

O que significa essa obsessão sua por colecionar livros e jornais?

Tenho mais de cinco mil livros, embora não tenha lido todos, mas servem às minhas leituras e pesquisas. Coleciono O Imparcial, O Estado do Maranhão, Jornal Pequeno e um, pouco de A Pacotilha, porque quero homenagear a imprensa e a história, que está registrada para sempre em suas páginas. É uma prestação de serviço à juventude e à cultura.

Nesta era eletrônica, em que as tecnologias digitais fazem parte do dia a dia das pessoas, como senhor se situa encontra, colecionando livros e jornais de papel?   

Sempre fui fascinado por jornal, livros e papel velho. Já pensou a vida sem papel? O computador está mudando o mundo, mas não tirando o papel de nossas vidas. Portanto os jornais, livros e revistas fazem parte de minha vida, parece mentira, mas é verdade. Eles compõem a história do meu tempo, do tempo de todos nós. De minha juventude e da minha atividade no comércio desde os 10 anos de idade. A história de meu pai também está guardada em papel. Para mim, o jornal não perdeu a importância. Até ganhou mais relevância, pelo conteúdo de informações, pelo poder de educar as massas. Por isso, enquanto vivo for, não deixarei der ter a leitura de jornal como ferramenta de informação e de conhecimento.

Como o senhor define o jornal impresso nesta sociedade dominada pelas tecnologias digitais?

O jornal não perdeu seu valor como documento vivo, como fragmentos da história do cotidiano, como algo que nos torna seres capazes de interpretar e analisar o presente e o passado de forma completa e atualizada.

O senhor já conseguiu ler um livro todo na internet?

Não. O hábito de leitura que preservo, marcando páginas, trechos, frases e até palavras, tenho mais facilidade do que no computador. (Ele possui três notebooks de 27 polegadas, que usa no escritório, em casa e na revenda de carros).

Quais são os livros que o senhor está programando para lançar?

Um sobre Fran Paxeco – figura brilhante na literatura, no empreendedorismo e na visão de futuro como poucos. Era republicanista, ativista político; foi preso em Portugal no tempo da monarquia, veio para o Brasil onde fez muita coisa. Outro livro é de memória. A primeira parte foi “O Sobrado Amarelo” e agora estou organizando “A Morada-inteira Verde”. Quando papai veio de Viana para São Luís, comprou uma morada inteira, na Rua de Santo Antônio. Onde passei toda a minha juventude, com meus irmãos. Lá meu pai e minha mãe viveram e morreram.

Como o senhor resume sua trajetória de empresário. Como começou e onde está hoje?

Em 1949 eu tinha nove anos. Meu pai me levou para trabalhar com ele no comércio. Era o ensinamento que abria caminho para seguir os passos dele. Quando tinha 15 anos, meu pai disse: “Agora você vai estudar contabilidade à noite e trabalhar durante o dia”. Formei-me em técnico em contabilidade no Centro Caixeiral. Depois fiz o curso de História, simultaneamente com o curso de Direito. Formei-me nos dois cursos em 1963 e casei em 1964. Já era empresário, com a firma A.O Gaspar &Cia.

Fabricava óleo de coco babaçu?

Era um armazém geral, inclusive de miudezas foi um dos maiores que teve aqui. Comprava babaçu do interior e vendia no mercado nacional. Depois comprei fábrica de óleo, do pai do atual vice-governador (Carlos Brandão). Orleans Brandão era empresário e ministro do Tribunal de Contas do Estado. Mais tarde comprei a revenda da Volkswagen. Deixei a firma e com meu pai e os irmãos e saí fazendo negócios por minha conta. Cheguei a ter onze empresas em vários ramos. No entanto, com minha mulher ainda viva resolvemos ir reduzindo os negócios.

No seu escritório, que são várias salas, o senhor escolheu uma só para guardar as coisas, documentos, fotos e tudo da família. Como o senhor define a família?

A família é o que existe de mais importante na vida da gente, né? Hoje somos 12 irmãos dos 13 (faleceu o mais velho). A família é o aconchego, a solidariedade, é a harmonia e o apoio. Principalmente quando se vai chegando para a velhice. Este ano faço 80 anos e espero que todos nós estejamos reunidos, como sempre estivemos. Afinal, viver esse momento privilegiado é uma bênção. A irmã mais velha tem 81 e o mais novo 63 anos, todos bem de saúde e de vida.

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