OUTRAS FITAS: DESCOLONIZAÇÃO, NECROPOLÍTICA E O FUTURO DO MUNDO COM ACHILLE MBEMBE

(Seguindo com as traduções d’A Fita, publico agora uma entrevista longa porém extremamente necessária com Achille Mbembe, um dos maiores pensadores contemporâneos sobre política, o mundo que urge por se descolonizar e, em geral, sobre a merda em que nos metemos. Realizada na Noruega, essa entrevista foi publicada em inglês [do qual ela foi traduzida] em setembro deste ano pela revista New Frame – clique aqui se quiser ler a versão original. Quem se interessar e quiser saber mais sobre Mbembe, pode ler esse ensaio sobre a “guerra ao movimento” na Serrote, ou ir atrás dos livros dele: a n-1 publicou “Necropolitica” e “Crítica da Razão Negra” e a Vozes tem uma edição fresquinha de “Sair da Grande Noite“. Quem me recomendou a entrevista foi o camarada Tiago Soares, que inclusive está com um livro pronto sobre neoliberalismo que acho que todos são obrigados a ler – siga ele no Twitter e ouça o episódio dele n’A Fita. A Taísa não teve tempo de revisar, então se vocês quiserem apontar qualquer defeito, entrem em contato direto comigo ou mandem um email para afitapodcast@gmail.com. Divirtam-se! [Mentira, o papo é meio deprê])

O pensador Achille Mbembe visitou a Noruega pela primeira vez pela ocasião do Holberg Debate, organizado anualmente pelo Secretariado do Holberg Prize na Universidade de Bergen em 1º de dezembro de 2018, onde ele proferiu uma apresentação. Mbembe agora realiza uma série de três palestras com o tema “Corpos Enquanto Fronteiras” na Casa de Literatura de Oslo nos dias 13 e 14 de setembro de 2019. A entrevista abaixou foi realizada em Bergen, na Noruega, no dia 30 de novembro de 2018 por Torbjørn Tumyr Nilsen para o jornal norueguês Klassekampen.

Nielsen: Em abril de 2015 a estátua de Rhodes foi derrubada na Universidade de Cidade do Cabo, na África do Sul. Como você interpreta esse evento?

Mbembe: Para aqueles que não sabem do que estamos falando, Cecil John Rhodes era um corsário. Ele era um personagem implacável no expansionismo mercantil que caracterizou o colonialismo do século 19 na parte sul da África. Através de alianças políticas, brutalidade crua e conveniência, ele tomou para si um grande pedaço da riqueza mineral da África do Sul, em particular os diamantes de Kimberley e o ouro de Witwatersrand. Ele cedeu uma parte das terras que tomou em Cidade do Cabo para a universidade, que, em troca, erigiu uma estátua em sua honra nos degraus de um dos seus principais prédios.

Rhodes prefigurou a extração e privatização de riquezas obtidas violentamente que o neoliberalismo hoje realiza com um refinamento não visto na história da humanidade. Ele foi o precursor de um tipo de sistema econômico predatório e de política plutocrática que está em pleno funcionamento na maior parte do mundo hoje, cujos resultados são o estupro da biosfera e a destruição em escala massiva das condições básicas de vida na Terra.

Eu interpreto a derrubada de sua estátua como uma vitória pequena e simbólica na longa e prolongada luta por justiça universal.

Então há uma genealogia entre Rhodes e a ordem neoliberal que vemos hoje?

Existe um explícito parentesco entre a escravidão moderna, a predação colonial e as formas contemporâneas de apropriação e extração de recursos. Em cada uma dessas instâncias há uma negação constituitiva do fato de que nós humanos co-evoluímos com a biosfera, dependemos dela, somos definidos por e através dela, e devemos uns aos outros uma obrigação de responsabilidade e cuidado.

Uma diferença importante é a escala tecnológica que levou à emergência do capitalismo computacional dos nossos tempos. Não estamos mais na era da máquina, mas na era do algoritmo. Essa escalada tecnológica, por sua vez, ameaça tornar todos nós em artefatos – o que eu chamei em outro momento de “tornar-se-o-negro-do-mundo” – e em tornar redundante uma grande parte do poder muscular do qual o capitalismo dependeu por muito tempo. O que se segue é que hoje, apesar de seu principal alvo seguir sendo o corpo humano e as matérias da terra, a dominação e a exploração estão se tornando cada vez mais abstratas e reticulares. Como repositório dos nossos desejos e emoções, sonhos, medos e fantasias, nossa mente e nossa vida psíquica se transformaram em matéria-prima sobre a qual o capitalismo digital busca capturar e transformar em mercadoria.

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