O BOI BOMBEIRO MORRE EM CHAMAS

Por Raimundo Borges

O boi está tão entranhado na vida e na cultura do brasileiro, que hoje deixou de ser folclore contado na lenda do Bum Meu Boi do Maranhão, para tornar-se o maior produto de exportação de alimento humano do agronegócio. O boi virou o ouro de chifre. Quem tem boi tem terra, quem tem terra tem dinheiro e também fonte de confusão. O boi está no centro da política ambiental do Brasil no governo de Jair Bolsonaro. Não a apenas como fornecedor de picanha ao churrasco chinês e árabe, mas como um elemento a mais no debate internacional sobre a devastação do Pantanal por fogo. A maior secura em 50 anos, fez a região pantaneira se transformar em sertão de chão rachado.

O Pantanal que inspirou músicas românticas, novela de maior sucessão da televisão Brasileira e farta literatura de todos os ramos está irreconhecível. Através da música, é possível perceber porque o Comitê Internacional de Aconselhamento das Reservas da Biosfera (IACBR) da Unesco manteve o título de Reserva da Biosfera concedido em 2000 ao Pantanal, considerado a maior área alagada por água doce do planeta. O anúncio foi feito em fevereiro deste ano, em Paris, França. A Reserva da Biosfera do Pantanal é a terceira maior do mundo, com área de 264.176 km².

Queimada na região do Pantanal

Não sem motivo, a música Pantanal, de Marcos Viana, virou um clássico da MPB e trilha sonora da novela homônima, da extinta TV Manchete, que merece ser relembrada:

“São como veias, serpentes / Os rios que trançam o coração do Brasil / Levando a água da vida / Do fundo da terra ao coração do Brasil / Gente que entende / E que fala a língua das plantas, dos bichos / Gente que sabe / O caminho das águas das terras, do céu / Velho mistério guardado no seio das matas sem fim / Tesouro perdido de nós / Distante do bem e do mal / Filho do Pantanal”.

Inicialmente, a novela Pantanal ficou engavetada na Central Globo de Produções, chegando a entrar em pré-produção no final de 1984 para o horário das 18hs, em substituição à novela Livre Para Voar, com o título de Amor Pantaneiro. Porém, a região do Pantanal estava em época de chuvas, o que inviabilizou a produção. Assim, o folhetim foi cancelado.

Em 1990, a Rede Manchete contrata o escritor Benedito Ruy Barbosa que, finalmente realiza seu sonho, obtendo estrondoso sucesso e superando a até então imbatível Rede Globo. Além disso, a Manchete contrata também um elenco de renomados atores globais, como Cláudio Marzo, Cássia Kiss, Nathália Timberg, entre outros, e a mistura com revelações da teledramaturgia brasileira, como Cristiana Oliveira e Marcos Winter.

Como em todas as novelas, o roteiro sempre muda no meio da exibição. Ítala Nandi havia pedido, ao autor, uma licença para atuar em um filme, e ele resolveu, então, matar a sua personagem, Madeleine. Já Almir Sater saiu para protagonizar Ana Raio e Zé Trovão. Adriana Esteves e Glória Pires estiveram cotadas para o papel de Juma Marruá, assim como Deborah Bloch. Porém, Benedito Ruy Barbosa, preferiu Cristiana Oliveira, que o transformou no maior sucesso de sua carreira.

Toda essa história mostra a importância do bioma pantaneiro, agora transformado em uma questão ambiental mundial, junto com a Amazônia. Afeta o governo Bolsonaro e confronta a política de preservação da natureza, comandada pelo ministro Ricardo Sales. Ele, que defendeu com ênfase a “passagem da boiada”, para derrubar regras ambientais enquanto a mídia dava atenção à pandemia do coronavírus, engrossou o coro da colega da Agricultura, Tereza Cristina. Ela puxou para o centro da discussão ambiental que devasta o Pantanal mato-grossense, o papel do “boi bombeiro”.

Por coincidência, esta semana passou a circular na internet um vídeo gravado por pecuaristas, o qual mostra dezenas de bois queimados pelos incêndios que vem assolando o centro-oeste brasileiro; prejuízo milionário. O fogo que transforma em cinzas boa parte da vegetação do Pantanal e do cerrado mato-grossense causa também o extermínio de muitos animais da fauna. Além daqueles típicos dos biomas, há ainda a mortandade de gado.

Como adora participar de polêmicas, principalmente para relativizar responsabilidades de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro fez coro à posição de Ricardo Salles e Tereza Cristina. Ele acusou os ecologistas e ongs pelo sumiço do “boi-bombeiro” da planície pantaneira, reafirmando a defesa da expansão de áreas de pastagem no Pantanal e na Amazônia. Mas Bolsonaro deveria saber que não foram os ecologistas, e sim a pecuária predatória de sulistas, desde o final da década de 70, no planalto adjacente à planície pantaneira, que expulsou da região alagada, o chamado “boi-bombeiro”.

Outra constatação óbvia ignorada pelo presidente: a pecuária sempre teve problemas para se adaptar ao clima da Amazônia. Na ditadura militar de 1964, centenas de projetos agropecuários, financiados com recursos da Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia) foram abandonados, ocasionando conflitos agrários que até hoje perduram no sul do Pará, por exemplo. Como disse o agrônomo, escritor e ambientalista José Lutzenberger, ministro do Meio Ambiente de Fernando Collor (1990-1992): “Tentar implantar pecuária na Amazônia é no mínimo uma extravagante burrice”.

Mas afinal, o que é “boi bombeiro”? A expressão é atribuída ao servidor aposentado da Embrapa Arnildo Pott, professor da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), doutor em ecologia vegetal na Universidade de Queensland, na Austrália, com mais de 40 anos pesquisando temáticas sobre o Pantanal. É uma referência à atividade que o boi exerce durante os ciclos das cheias ao comer a vegetação nativa, evitando que se transforme em material orgânico que pode provocar e dar volume aos incêndios no Pantanal. No Pantanal, o “boi bombeiro” começou a desaparecer das fazendas das planícies devido ao desmatamento de milhares de hectares de matas às margens do Rio Taquari pelos novos fazendeiros.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *