Comunidade libanesa celebra amanhã 140 anos em São Luís

Por Raimundo Borges

Maluf, Heluy, Rachid, Dualibe, Braide, Murad, Haddad, Jereissati, Kassab, Simon, Amin, Buzar, Jatene… Há 140 anos esses sobrenomes árabes de origem libanesas se misturam aos Silva, Pereira, Oliveira, Mundico, Chico, Joaquuim, Sebastiana e Maria em diferentes recantos do Maranhão. São os “carcamanos” que migraram para o Brasil. E também, a partir de 1880 desembarcaram no Maranhão, depois de percorrer 9.360 milhas marítimas. Eles só não se confundem com os maranhenses, pelo porte físico, a cor da pele, o rosto marcante com sobrancelhas proeminentes e cabelos lisos.

Libanês Salim Nicolau Maluf com esposa Saddy Duailibe e filhos vieram para o Brasil em 1897, se fixando no Maranhão.

Assim como no Brasil, os libaneses fizeram história na política, na economia do Maranhão, principalmente como mascates, depois “invadiram” as áreas do Direito e da Medicina. De tanta importância, eles ganharam uma ampla bibliografia, inúmeros estudos acadêmicos sociológicos e históricos. Ganharam até o Dia da Comunidade Libanesa do Maranhão, que ocorre neste dia 22 de novembro, celebrado com missa, pelo padre Heitor Moraes, transmitida às 10h30 (Pascomaparecidavs).
No Maranhão, os descendentes de libaneses estão presentes em todos os ramos de atividades, sempre com forte influência onde atuam. Eles estão em São Luís, Caxias, Codó, Santa Inês e na Baixada. Nesta década, no Brasil, a comunidade libanesa chegou de uma só vez, com dois representantes, à Presidência da República. Foi na eleição em 2014, com a petista Dilma Rousseff, tendo Michel Temer (MDB) como vice. No entanto, ele acabou ajudando a derrubá-la do posto e assumir o cargo mais importante do Brasil.

Cerimônia de casamento de famílias libanesas, em 1935, em São Luís – Maranhão

Quatro governadores

Segundo o jornalista, historiador e ex-presidente da Academia Maranhense de Letras (AML), Benedito Buzar (carcamano) em artigo publicado em seu blog, “nada menos do que quatro descendentes árabes ocuparam o cargo de governador do Estado: Alfredo Duailibe, Antônio Dino, José Murad e Ribamar Fiquene”. E acrescenta: “Se computarmos os eleitos para a Câmara Federal e Assembleia Legislativa, bem como os que alcançaram os postos mais altos do Poder Judiciário, veremos, em toda plenitude, a marcante expressividade libanesa na estrutura institucional do Maranhão”.

Há outras fontes em que concordam com o escrito de Buzar. As primeiras levas árabes chegaram ao país por volta de 1.880 e eram formadas principalmente por cristãos, que fugiam da pobreza e de conflitos religiosos. No Brasil, passaram a ser conhecidos como “turcos”, pois à época a Síria e o Líbano integravam o Império Turco-Otomano. O pesquisador da Universidade Saint-Esprit de Kaslik, no Líbano, o brasileiro Roberto Khatlab diz que muitos decidiram migrar após uma visita do imperador Dom Pedro 2º à região. Segundo Khatlab, o monarca falava e escrevia em árabe, o que impressionou o público.

Diferentemente de imigrantes japoneses ou europeus, que viajavam ao Brasil já contratados para trabalhar em fazendas de café e produção de frutas e hortaliças, sírios e libaneses custeavam suas viagens e chegavam por conta própria.

Os mascates

Ao chegarem ao Maranhão e a outros estados, muitos árabes resolveram se dedicar ao comércio e viraram mascates. O que parecia um obstáculo se revelou uma vantagem em relação aos demais imigrantes, conta Oswaldo Truzzi, professor da Universidade Federal de São Carlos e autor de “Patrícios: sírios e libaneses em São Paulo”. Como pequenos agricultores em seu país, os libaneses não encontraram espaço nos latifúndios do Brasil e resolveram se dedicar ao comércio, aproveitando a experiência que tinham na venda de seus produtos. Como vendedores fixos ou itinerantes, lhes permitiam ganhos maiores que o trabalho na lavoura.

Oswaldo Truzzi, professor da Universidade Federal de São Carlos e autor de “Patrícios: sírios e libaneses em São Paulo”

 

Conforme ascendiam socialmente, sírios e libaneses investiam na educação dos filhos. “Eles perceberam que o Brasil é uma terra de doutores, então queriam que os filhos também fossem doutores”, diz Truzzi. Ele garante ainda, em entrevista à BBC Brasil, que não existe ideologia comum entre os políticos da comunidade. “Eles sempre entenderam que na política, como nos negócios, cada um faz seu jogo e trilha seu percurso.”

Na música também

Filhos e netos de árabes se destacam em outras áreas da vida pública brasileira, como o médico Adib Jatene, os músicos Almir Sater e João Boscoli, os escritores Raduan Nassar e Milton Hatoum, a filósofa Marilena Chauí, o geógrafo Aziz Ab’Saber e o dicionarista Antônio Houaiss.

Já o jornalista Benedito Buzar fala que a primeira leva os árabes no Brasil foi estimulada por convite de D. Pedro II, um sábio que falava ao menos oito idiomas. Objetivo do imperador seria substituir a mão de obra escrava, após a “abolição” proclamada pela princesa Isabel, sob orientação do pai, para substitui-lo no seria o terceiro reinado do Brasil.

Buzar se ressentiu da pouca informação sobre os árabes no Maranhão. Ele diz que fonte, assim mesmo duvidosa, vem do professor e médico Olavo Correia Lima. No opúsculo de sua autoria, “Sírios e Libaneses no Maranhão”, publicado em 1986, afirma que José Zequetervi, Miguel Mettre Heluy e José Nicolau Heluy foram os primeiros árabes a chegar a São Luís, fato ocorrido em 1886 e “hóspedes dos frades no Convento do Carmo”. Sobre o que vieram aqui fazer nada foi revelado.

No entanto, o jornal a “Pacotilha”, de 08 de janeiro de 1900, traz texto de um leitor que assina como Al Arab, criticando a presença dos “sírios” no comércio da cidade de São Luís. Ele exige que os poderes públicos deem fim na participação dessa etnia no comércio local. O autor da crítica considera que outros comerciantes locais não podiam concorrer com os “sírios”, que obtinham suas mercadorias “sem pagamento de impostos a que estão sujeitas”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *