O tchau da Ford

Por Raimundo Borges

A história do Brasil vai registrar esse momento gravíssimo do fechamento das montadoras da Ford no Brasil neste início de 2021, com cinco mil postos de trabalho. A situação é gravíssima porque a crise da pandemia do coronavírus ainda persiste tão forte quanto no seu auge no Brasil e no mundo. Coincide também com pagamento da última cota do auxílio emergencial do governo federal. É ainda o momento em que o Banco do Brasil, que completou 213 anos em outubro passado, anuncia plano de demissão voluntária para mais de cinco mil funcionários e o fechamento de 361 agências.

A “Economia em V” do ministro Paulo Guedes já não combina com o seu discurso entusiástico e ufanista, no qual vem tentando animar os brasileiros. Também não combina com a mensagem do twitter, postada por Bolsonaro em novembro de 2019, comemorando o fato de três grandes empresas, incluindo a Honda, ter anunciado a troca da Argentina para se instalar no Brasil, mais confiável para o investidor. Como não era verdade, ele apagaria a postagem, mas não a provocação de ranço ideológico contra e desafeto sul-americano Alberto Fernández, que se preparava para assumir a Casa Rosada.

A fábrica da Ford no Ipiranga foi a primeira do Brasil, aberta em 1919: adeus após 102 anos.
A fábrica da Ford no Ipiranga foi a primeira do Brasil, aberta em 1919: adeus após 102 anos. Foto: Ford / Divulgação

Pouco mais de um ano depois, o Planalto teve que amargar um anúncio verdadeiro e simbólico, mas no sentido contrário: a montadora norte-americana Ford anunciou que vai deixar de fabricar veículos no Brasil. A mais antiga fábrica de automóveis a se instalar no país, em 1919, vai concentrar a produção justamente no Uruguai e, principalmente, na Argentina. Justificou a decisão citando a crise da covid-19, a desvalorização do real e a reestruturação global da companhia.

A Ford deixou também para os historiadores o projeto mirabolante da Fordlândia (14,5 mil km²), em Aveiro, estado do Pará, às margens do Rio Tapajós. Foi instalado em 1927 e encerrado em 1945, no fim da Grande Guerra. A intenção da gigante multinacional era tornar a Fordlândia o polo fornecedor de látex para os pneus de seus carros, já dependentes da borracha produzida na Malásia, na época colônia britânica. A Ford tinha contrato de isenção total de impostos com o governo do Pará, para exportação de borracha, látex, pele, couro, petróleo, sementes, madeira e outros bens minerais.

O encerramento total e definitivo das atividades industriais da Ford no Brasil não foi de todo uma surpresa. As fábricas de Camaçari (BA) e Taubaté (SP) já eram. A pequena instalação da Troller, em Horizonte (CE), permanecerá apenas até o 4º trimestre de 2021. A estas alturas, os compradores das marca Ford devem estar sentindo calafrios. Uma situação bem longe dos tempos em que os caipiras nordestinos gostavam se vangloriar com a marca americana: “O carro é o Fó (Ford), a muié é a fogoió”.

NOTA DA UGT SOBRE O FECHAMENTO DA FORD NO BRASIL

Uma mistura de ignorância e obscurantismo colocou o nosso País como “pária” mundial. A Ford não teve dúvidas: percebeu o nosso contexto – como temos pouco peso político e econômico e um grande custo Brasil -, veio aqui e fechou todas as suas fábricas. Vai criar empregos em outros países e deixou três “puxadinhos” para ver o que acontece – um na Bahia, outro em Tatuí (SP) e a sede regional na capital paulista.

Pelo menos 5 mil pessoas vão perder o emprego. Mas o desastre econômico é muito maior. A centenária empresa – que nos últimos cinco anos pegou R﹩ 7,5 bilhões em subsídios, segundo o governo – vai prejudicar o comércio, em geral, e os usuários de seus produtos.

O governo foi pego de surpresa porque quis. Em 2019, a Ford fechou a sua grande montadora de São Bernardo. Não custava nada ter feito o acompanhamento da vida econômica da empresa. Mas o que vale para o atual governo é a eleição de 2022, e a coisa foi deixada de lado. Agora veio a conta.

Os estados atingidos – São Paulo, Bahia e Ceará – não terão força para fazer nada. A tragédia social no Brasil vai aumentar, com mais desemprego e o crescimento da informalidade. O caos social virá com o fim do auxílio emergencial, já valendo a partir deste mês.

Ricardo Patah

Presidente nacional da UGT

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