Quem diria: Bumba-meu-boi em mandarim

Por Raimundo Borges

Era só o que faltava. Depois de séculos de segregação, tripudio, proibição, perseguição policial e de sagrada resistência, a cultural das manifestações folclóricas do bum-meu-boi do Maranhão estão em outro patamar social. Uma autêntica volta por cima no direito de manifestação. Viraram cultura de massa. A massa que assiste e participa do troar das matracas, do rufar dos pandeirões, do ecoar das toadas e do rebolado das belas “índias” nos arraiais.

Foto: O Imparcial

De tão forte, as manifestações atraíram para cá até a televisão chinesa, que acabou tornando a transmissão mais engraçada, pelo idioma mandarim. Uma façanha planetária que só a da suada cultura do povo é capaz de fazer. De impressionar o outro lado do mundo, graças a globalização dos teres e fazeres da natureza humanas, com suas evoluções culturais, tecnológicas e científicas.

Para chegar ao nível impressionante da explosiva cultura levada aos arraiais juninos, foi preciso resistir a indiferença e a descriminalização das classes de “cima” ou “nobres”, se livrar do preconceito, mostrando a graça, garra, beleza e sabedoria nativa da alma do povo. Assim como o Carnaval foi coisa de pobre, a umbanda e terecô, coisa de negro africano, o bumba-meu-boi também passou pelos mesmos desprezos daqueles que davam as costas e reprimia as “coisas de pobres”.

Uma lenda fantástica

O bumba-meu-boi saiu da ingênua lenda rural, do desejo da cabocla Catirina, em comer a língua do boi mais bonito da fazenda cuidada pelo vaqueiro, seu marido, Francisco. De tão repetida, virou cultura miscigenada a ganhar o mundo como um gênero implacavelmente maranhense. A poesia das todas dos terreiros e arraiais já compete com a poesia da academia, da literatura, graças a musicalidade raiz e o simbolismo que carrega. A dança sensual acompanha a evolução, quebra as indiferenças, o desamor e o desapego. Já chega aos palcos dos teatros e dos shows espetaculares.

Como tudo isso aconteceu? Não é fácil explicar. Precisou séculos de dedicação de pessoas, como Lauretino, do “famoso Boi do Larentino”, de Zé Alberto, Chiador, Humberto, ‘seu’ Lauro, dona Zelinda, Zé Pereira Godão e inúmeros “amos” anônimos espalhados por todos os cantos e recantos das cidades e, principalmente, das zonas rurais. Dos pescadores aos engraxates, dos pedreiros aos feirantes, dos artesões às mulheres dedicadas ao desenvolvimento do artesanato e das danças, o folclore virou cultura maranhense de elevada força social.

Patrimônio do Brasil

O bumba-meu-boi é patrimônio cultural do Brasil. Ganhou até um dia dedicado à sua importância, por lei federal – 30 de junho. Ganhou também importância entre poderosos de pele branca e parda. Rompeu as divisas do Maranhão, para ser do Brasil e até do mundo, como o é o patrimônio histórico-arquitetônico de São Luís. É a capital do estado, geograficamente, de transição entre o Norte e Nordeste, onde negros, índios e brancos em proporções semelhantes reuniram as mais variadas e numerosas manifestações folclóricas no canto e na dança.

Nesse sentindo, ainda que o bumba-meu-boi esteja relacionado à dança e musicalidade, chama a atenção um fato curioso: os brincantes não dançam, mas brincam em torno da figura do boi, sendo que brincar se torna uma atividade popular e de devoção a São João.

Para o antropólogo argentino Néstor García Canclini, o popular é nessa história, o excluído: “Aqueles que não têm patrimônio ou não conseguem que seja reconhecido e conversado; os artesões que não chegam a ser artistas, a individualizar-se, sem participar de mercados de bens simbólicos “legítimos”. Os espectadores dos meios massivos que ficam de fora das universidades e dos museus, “incapazes” de ler e olhar a alta cultura porque desconhecem a história dos saberes e estilo”.

Proibida no século IXX

A tradição do bumba-meu-boi surgiu no século XVIII e ainda hoje envolve a população de São Luís que, durante as festividades, ocupa todas as partes da cidade, da periferia e das zonas rurais, e hoje chegam aos shoppings. O Bumba-meu-boi é uma festa democrática, de resistência, envolvendo pessoas de todas as idades e extratos sociais. Por ser uma festa de origem negra, ela sofreu perseguição política e policial, chegando a ser proibida de 1861 a 1868.

O enredo do Bumba-meu-boi conta a história de Pai Francisco, um escravo que, para saciar o desejo de sua esposa grávida por uma língua de boi, mata o gado de estimação do senhor da fazenda. Percebendo a morte do boi, o senhor convoca pajés e curandeiras para ressuscitar o animal. O boi volta à vida e a comunidade festeja. Eis aí a essência do auto da brincadeira, já muito desprezada nos arraiais de hoje em dia, onde o espetáculo artístico conta mais do que a origem folclórica.

Essa história é um retrato das relações sociais e econômicas vigentes no período colonial. O nordeste brasileiro vivia da monocultura e da criação de gado, apoiando-se em um regime de escravidão. Agora, quem vê a festança, que terminou neste fim de semana em São Luís, não tem ideia de como o bumba-meu-boi alcançou o píncaro da glorificação nos dias atuais, onde as classes sociais que a renegavam no passado, invadem seus “cordões” como se fosse dança originária de abastados.

Imagine como foi o deslumbramento da equipe da Televisão Central da China (CCTV), que veio a São Luís produzir um documentário, diretamente dos arraiais juninos, com difusão nacional para o país de maior população do planeta. O repórter Andrew Peng achou “tudo maravilhoso e diferente” de tudo que já viu. Os vídeos estão na internet: www.tv.cctv.com/index

 

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