Nem vaca conhece bezerro

Por Raimundo Borges

Se o Brasil fosse uma fazenda poderia estar próximo de ocorrer o estouro da boiada. A atual balbúrdia generalizada tornaria o ambiente insalubre e insuportável para o rebanho. Vaca não conheceria bezerro, touro não conheceria vaca e bezerros ficariam desmamados. Na República Federativa do Brasil a conjuntura econômica e política toldou completamente o meio tripartite de convivência independente, mas harmoniosa, dos Poderes, preconizada no Artigo 2º da Constituição Federal.

Mas cadê a harmonia? Ela virou pó no chafurdo republicano, mesmo sendo-a assunto de fundamental importância para o país. Na carta magana, os poderes são separados, mesmo sem um convencimento pleno no pensamento político, social e econômico. Pensadores têm se debruçado sobre a polêmica da separação dos poderes que, em meio à crise do presente, fez com que a regra constitucional virasse um quebra-cabeça entre pensadores, jurisconsultos, legisladores e historiadores.

O caboclo maranhense, que não é pensador, mas pensa alto, a sabedoria; não é historiador, mas é contador de estórias; não é jurisconsultos, mas dá conselhos;  e sem ser economista, sabe, porém, viver com um salário mínimo, sem se endividar. E sabe, também, decorado, até o nome de cada ministro do Supremo Tribunal Federal. Já pensou um Zé Mané da roça, bebendo uma boa pinga e discutindo política, pronunciando Luiz Fux, Lewandowski e Janot? Dá muito mais trabalho do que chamar Gilmar Mendes, o ministro mais odiado, mais controverso, mais querido de certos e incertos políticos, e mais poderoso do Brasil.

No chafurdado Brasil de hoje, os ministros da suprema corte são tão conhecidos do distinto público talvez até mais do que o vizinho da mesma rua. Nunca antes se falou tanto deles, os ministros. Já entre deputados e senadores, os que se tornaram mais “populares” são aqueles denunciados, delatados, presos, cassados e investigados na Lava Jato. O grau de conhecimento do público é proporcionalmente igual aos crimes praticados e o grau da corrupção que eles praticaram. Dos “bons” ninguém fala. É uma autêntica pirâmide invertida. O poder do povo que vota, lamentavelmente, virou uma cuia emborcada.

Obviamente que, nesse ambiente de incerteza política, mata-se a segurança jurídica, pilar do Estado Democrático de Direito, que faz conexão direta com os direitos fundamentais do cidadão. Essa insegurança jurídica desarruma o resto e faz sangrar a democracia. Quando o eleitor conhece mais os ministros do Supremo Tribunal Federal, nomeados sem voto e que viraram mais políticos do que os próprios parlamentares e governantes, tudo está errado. A polia que faz girar o eixo dos poderes perdeu a força cinética e não mais produz energia que o Brasil precisa para desatolar.

Assim, o mesmo Zé Mané que não pronuncia corretamente Lewandowski, viu sua conta do Bolsa Família zerada no banco e os remédios da farmácia popular sumirem das prateleiras, em razão do corte de gastos do governo. Ele, o cidadão pobre, tem motivos de sobra para se indignar ao assistir na TV, o esbanjamento de R$ 2,5 bilhões em poucos dias, só de emendas parlamentares, para garantir votos e manter o presidente Michel Temer no cargo. Num dia só, ele chamou dezenas de deputados – um de cada vez – para cortejar o voto no varejo. É o jogo pesado e caro para interromper na Câmara, o pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, contra o mandato presidencial.

Michel Temer não quer ser surpreendido como foi o ditador populista e tirano, Caio Júlio César, com a traição dos 60 senadores, que tramaram a sua morte, com 26 punhaladas e o puseram fim à República Romana.  Liderados por Caio Casso e Marco Bruto, os senadores “brutalizaram”, César – daí a expressão “brutalizar”. Mesmo na agonia, César ainda esboçou a última reação, tão mundialmente famosa, em forma da frase dramática: “Até tu Bruto, meu filho?” Conforme interpretação criativa do gênio William Shakespeare, séculos depois.

É tudo que Michel Temer não quer nem sonhar. Nem com o fim da República Brasileira, muito menos o de seu mandato, o que seria uma tragédia verde amarela, com dois presidentes derrubados em menos de dois anos.

Por essas é outras é que a defesa de Michel Temer pede aos deputados que não autorizem o STF a processar Temer. O advogado Antônio Cláudio Mariz diz que o procurador-geral, Rodrigo Janot, chegou “às raias da absoluta irresponsabilidade”. Chamou a denúncia de “manca, anêmica, chocha e capenga e inconsistente e classificou de “normal” o encontro de Temer com o empresário Joesley Batista, no Palácio do Jaburu, na noite de 7 de março, sem agendamento oficial e sem pauta. Tudo indica que não era sobre a qualidade da carne da Friboi.

Reproduzo artigo publicado em O Imparcial, edição de sábado, dia 8 de 07, em que analisa, sarcasticamente a situação do Brasil neste fim de semana.

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