Meus 17 mil dias em O Imparcial

Por Raimundo Borges

No dia 1º de setembro de 1970 subi, pela primeira vez, às escadarias em espiral do sobradão 46 da Rua Afonso Pena, centro de São Luís. Portava no bolso a carteira profissional, do tipo “marronzinha”, já acertado com Adirson Vasconcelos que estava ingressando na empresa Pacotilha Ltda, como repórter-fotográfico. Na mão, uma câmera Yashica Mat, com filme Fuji, 120mm, de 12 poses; na cabeça ideias borbulhantes sobre com começar a aventura profissional, pelo lado mais objetivo, revelador, estético e, acima de tudo, impactante, do jornalismo, em páginas preto e branco.

Foi um dia deslumbrante. E de sol escaldante. E eu naquele sobradão tricentenário, que se projeta ainda imponente, espaçoso, com escadarias em madeira de lei, do chão ao mirante, trabalhada à mão. Único em São Luís. Foi realmente um começo indescritível. Sair num fusca da reportagem, como funcionário do jornal mais importante do Maranhão, pertencente aos Diários Associados, na época, maior conglomerado de comunicação da América Latina. Era o máximo, para quem, seis anos antes saiu da roça em Jaguarana, aos 16 anos, sem nunca ter sentado num banco escolar, e já estar no 1º ano do científico.

E a maior alegria veio no dia seguinte (2/9), ao vê minhas fotos estampadas na capa de O Imparcial, graças à técnica e perícia do clicheirista Moacir Bueno. Ele “transportava” a fotografia em papel para a chapa de alumínio, sensibilizada por processo químico, revelada com ácido muriático. Na redação, os jornalistas produziam em suas máquinas Remington, o noticiário, com direito a visita diária de censores da Polícia Federal, que deixavam no mural da Redação, ligeiros comunicados de notícias proibidas pelo regime militar.

De lá para cá já se foram 17.155 dias. Quase o mesmo tanto de edições, descontados as segundas-feiras, quando O Imparcial não circulava. O Brasil mudou, desde o Plano Nacional de Integração (PIN), editado pelo general Médici, até o Mobral e tantos outros planos e programas, como o Cruzado em 1985.

Por O Imparcial passaram vários diretores, chefes de setores, mudaram-se processos industriais, tecnológicos – da composição a chumbo à digitalização de tudo. Pedro Freire era revisor, e como eu, sonhador. Galgamos posições até chegarmos à direção da Pacotilha S/A, resistindo às mais terríveis intemperes políticas e econômicas, sem, porém, esmorecer. Era a crença no talento da equipe e na coragem de fazer um jornalismo cuidadoso, tecnicamente avançado e informativamente completo.

O PIN do general Médici tinha o objetivo de cunho geopolítico, conforme o decreto-lei 1106, de 16 de julho de 1970, em pleno reboliço da Copa do México, com a conquista do Tri. Com o PIN, Médici propunha utilizar mão de obra nordestina, liberada pelas grandes secas de 1969 e 1970, e, ao mesmo tempo, fazer propaganda da ditadura, na sua faze mais cruel e determinante.

O objetivo seria ocupar os vazios demográficos amazônicos, sob os lemas de “integrar para não entregar” e “terra sem homens para homens sem terras”. Hoje, a Amazônia virou um símbolo, um pulmão do mundo ameaçado, um bem da humanidade que, mesmo “rendada” de devastação e exploração descontrolada, o governo Michel Temer tentar entregar o que sobra à desmedida ambição de americanos e demais capitalistas sem limites.

Hoje, com 91 anos, O Imparcial continua sustentando a missão de ser a referência diferencial que o fez existir. Da prancha de impressão plana ao processo computadorizado de gravação de chapas (computer to plate – CTP). Da composição tipográfica à digitalização total. Da fotografia de filme em preto e branco às câmeras compactas de alta performance, movidas a softwares com incríveis funções. Do texto manual datilografado à plataforma integrada e instantânea de jornal impresso, online e TV. Tudo isso evoluindo dia após dia, com gente que faz da tecnologia uma aliada, em favor da notícia.

Foi nesse ambiente de transformação permanente que me fiz profissional, jornalista, cidadão e chefe de uma família numerosa, de sete filhos e 10 netos. Foi em O Imparcial que conheci  Elda de Freitas, que mais tarde veio a ganhar Borges na certidão. Era estagiária de jornalismo, profissão que abraçou com responsabilidade e talento. Já se foram 32 anos de vivência, salutares experiências, alegrias e o cotidiano profissional. Afinal, o jornalismo que encurta as distâncias no mundo cada dia mais diminuto, também engrandece e aproxima as pessoas que o exercem e as que usufruem os seus resultados, tornando-se melhores.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *