Papo de bebum na Jotabeesse

Por Raimundo Borges

Joesley Batista e Rodrigo Saud e Geddel Vieira, finalmente, presos. Os dois primeiros, desmoralizados mais do que já estavam antes da gravação do “papo de bebum”. O último estava em prisão domiciliar, por prosaica falta de tornozeleira eletrônica na Bahia. Agora, eles vestindo o mesmo uniforme, podem até dizer que a terra é redonda, que leite é branco, água molha e fogo queima que ninguém lhes dará ouvido. E não é sem motivo. O Brasil está mergulhado na pior crise institucional, política e econômica, adubada pela onda do “disse-me-disse” que invadiu a República, tão combalida e sovada pela avalanche de corrupção e de delações premiadas a torto e a direito.

Nas delações muita coisa é questionada por inconsistência, e outras tanto são levadas a sério como verdade absoluta. Os delatores mentem o quanto a imaginação lhes permite. A acusam quem é criminoso e quem pode ser inocente. O Brasil virou o país das condicionantes e das ambiguidades. Verdades e mentiras saídas das falas “colaborativas” da Lava Jato são passadas de forma propositada à população, pelo poder das mídias, como verdades inarredáveis.

A direita com seus black blocs engomadinhos, atuando doidamente nas redes sociais, não está nem aí para o estrago que provoca, nas coisas e nas mentes, induzindo o ódio e afastando pessoas da política e das discussões sobre o essencial no país. Os mais afoitos aproveitam para plantar a ideia de que a democracia representativa é a mãe de leite da corrupção e que a solução para o Brasil é tudo que não dependa da vontade do povo nas urnas: a ditadura.

Como não é fácil provar corrupção simplesmente por falação de bacanas delatores, tendo horror ao mofo das penitenciárias, alguns passaram a gravar suas conversas com os corrompidos e até mesmo entre os próprios corruptores, como Jesley Batista e seu braço direito Rodrigo Saud, lição aprendida de Sérgio Machado, que gravou seus “padrinhos”, dentre os quais, José Sarney. Batista e Saud debocharam dos comparsas políticos, de ministros do STF e do procurador-geral Rodrigo Janot, achando que a impunidade de milionários ainda é tão intocável como os ditames da Bíblia.  Na hora do arrocho, porém, as gravações vazadas no roto sistema de investigações da Lava Jato, viraram, pela palavra deles, “conversa de bêbados”!

É o cinismo moendo a ética, a hipocrisia à franqueza, a mentira camuflada de verdade e a verdade desmoralizada pela bandidagem que faz a história do Brasil ser contada como a lorota do jabuti atrepado em árvore, “que só pode estar ali se for por enchente ou mão de gente”. A mentira que é tida como anã, por ter “pernas curtas”, ganhou estatura de galalau.

A “propina” que os hermanos argentinos chamam a nossa gorjeta (pequena doação em dinheiro oferecida a quem servem bem – garçom, por exemplo), no Brasil virou a principal ferramenta que faz mover a corrupção endêmica. Ela realça tão bem na política como a gravata de luxo dos mandatários. Não é à toa que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já contabiliza 35 partidos e uma lista de espera de outros 32, cada qual com nomes estranhos, para representar algo que nem precisa de representante. São as tais legendas de aluguel que esfarela a política brasileira, fragilizando a democracia, servindo apenas de fertilizante da corrupção e das negociatas por votos, explicitadas em Brasília.

Geddel Vieira, o homem do “bunker” onde escondeu a fabulosa soma de R$ 51 milhões em dinheiro vivo num apartamento em Salvador, era atuante ativista nas manifestações de “coxinhas” contra a corrupção, em 2015. Sua frase clássica já ganhou fama nas redes sociais e na história: “Chega, ninguém aguenta mais tanto roubo. Isso deixou de ser corrupção: é roubo”. Está preso ainda sem revelar a história das malas, sacolas e caixas dos R$ 51 milhões, surrupiados do erário.

A soma dos valores que entremeiam a montanha de processos sobre corrupção no Brasil até agora é incalculável e não será fácil, nem para historiadores do futuro juntar tantos números verdadeiros, separados dos exagerados.      

O mais incrível: nenhum “movimento” de esquerda ou de direita, como os tais “Vem prá Rua” e “Brasil Livre” acham qualquer motivo para entupir as ruas em protestos. Sequer algum pensou em espalhar pelas redes sociais algo como “chega de tantas malas! Isso é roubo”! É como se só o PT e seus crimes de corrupção merecessem movimento de protesto na Paulista. Os demais partidos podem roubar. Afinal, são da elite que paga mais imposto. No Brasil, roubar dinheiro público também carrega a mancha da descriminalização. Até agora, nenhum tucano foi “engaiolado”. Só os originais das florestas. E não é por falta de código criminal.

As “propinas” que são “trocadinhos” além da fronteira Argentina, do lado de cá só aparecem em valores astronômicos de milhões e bilhões. Tudo compartilhado por os gigantes grupos empresariais, que movem a economia e a política na defesa de seus interesses, sempre de costas para os 207 milhões de brasileiros, cuja maioria esmagadora vive no flagelo generalizado. Crescem o desemprego, a violência campeia em terreno fofo e os programas sociais desaparecem ou depauperam.

Aliás, até nos recursos públicos destinados a prestação de serviços sociais, tornaram-se canais de escoamento da roubalheira. Enquanto isso, o Ministério Público Federal trava uma luta inédita contra ministros do STF, e juízes de primeiro grau fazem jurisprudência que o Supremo Tribunal cumpre sem titubear. A ordem se inverte, os poderes se digladiam e se misturam simbioticamente. O Brasil tenta se agigantar no atoleiro e seguir em frente, mesmo mancando perante o mundo. Em 2018 as urnas serão balizadoras dessa tragédia.

Em editorial no domingo passado (O custo Janot), o Estado de S. Paulo culpa o procurador-geral de “atrapalhar a vida de todos os brasileiros, ao comprometer o processo de recuperação da economia e ter impedido a aprovação da reforma da previdência”. Já a jornalista do mesmo Estadão, Vera Magalhães, diz que Janor se constitui o maior ataque aos fundamentos da Lava Jato e fornece munição àqueles que tentam enfraquecê-la.

Estranho em tudo isso é que, com a ordem de prisão de Joesley Batista e Ricardo Saud, assinada sábado (9) pelo ministro Fachin, só na segunda (11) a PF fez a operação “Bocca dela Verità” em suas moradias e escritórios, em busca de provas. Tempo mais do que suficiente para “providências”, de quem afirmou que na “escola de Janot ele foi professor”. E Janot, mesmo sem origem tribal, anunciou que “enquanto houver bambu, lá vai flecha”. Ele já arruma as gavetas da PGR para deixar o cargo na próxima semana, da forma como nunca imaginou durante sua longa temporada à frente do MPF, enquanto despacha flechas sem a certeza de atingir o alvo, como se fossem “flechadas de bêbado”.

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