As oligarquias alimentam a pobreza endêmica no Maranhão

Por Raimundo Borges

Mudar o Maranhão democraticamente pela via eleitoral não é tarefa fácil. Se fosse, o estado estaria em outro patamar de desenvolvimento. A trava do desenvolvimento são oligarquias estaduais e municipais que dominam, décadas, após décadas, a política e os meios de produção de riqueza. Assim, o único estado do Nordeste com mais de 60% do território encravado no mapa da Amazônia Legal, com um dos portos mais importantes do país, imenso potencial turístico e industrial não consegue encontrar o caminho de um mínimo de equilíbrio entre a riqueza em mãos de pouquíssimos e a miséria dominando a grande maioria da população.

O Maranhão parece ser um problema social sem solução. As pessoas, protagonistas das  transformações sociais – e não os governantes – são deliberadamente atadas às carências e politicamente controladas pelo voto de cabresto. Trata-se de uma engrenagem de dominação, herdada da colonização europeia, mãe das mazelas secularizadas por oligarquias políticas em âmbito estadual e municipal. Elas estão presentes e fortes em dezenas de cidades, transformadas em currais eleitorais, controlados a ferro, fogo e sangue por famílias e grupos que se revezam no poder.

O “Novo Maranhão” de José Sarney (anos 60), cantado em prosas, versos e até em toadas de boi, tipo “Governo como esse eu nunca vi, construiu a caixa d’água e a Avenida Quenedi”, teve a culminância com a derrubada da Oligarquia Vitorinista. E, logo em seguida, o amanhecer de outra: a sarneísta. Hoje, já chegando a um quinto do século 21, essa oligarquia permanece viva, latente e tentando retomar o poder em 2018. Já se passaram 52 anos e o “Novo Maranhão” só renovou, de fato, apenas para as mesmas classes da dominação vitorinista, boa parte formada de carcamanos libaneses, portugueses e latifundiários, netos da colonização e do sistema escravocrata.

Tanto litoral e tão pouco pescado

Foto: Raimundo Borges

Com tantos recursos naturais em uma costa litorânea de 640 km e único estado da região que tem parte do território coberto por nesgas da floresta Amazônica, o Maranhão não consegue produzir pescado, ao menos para o seu consumo. Com a segunda maior costa litorânea brasileira e 332 mil km² de área territorial, o Maranhão está longe de ter um parque industrial de qualquer natureza, produção pesqueira que gere empregos e distribua riqueza. Muito menos tem produção mineral a altura das reservas que possui, ou uma agricultura nativa que lhe dê destaque regional.

Quem consegue gerar riqueza no agronegócio são os gaúchos, que abocanharam as terras baratas do sul maranhense e as transformaram no maior polo de produção de soja do meio norte. Mas tudo para exportação. Criou-se, assim, um paradoxo. Enquanto os gaúchos do Maranhão fornecem soja para alimentar animais e gente nos Estados Unidos e na Europa, os gaúchos do Rio Grande do Sul também abastecem os mercados do Maranhão com arroz, que por aqui, não é cultivado em volume suficiente para o consumo local.

Por outro lado, a produção de pescado vem de barcos interestaduais até de Santa Catarina. Os milhões de ribeirinhos maranhenses, pescadores artesanais, sobrevivem ao Deus dará, no ‘seguro defeso’. Na contramão do agronegócio, a agricultura dos maranhenses continua no sistema de subsistência. Está há séculos de atraso. Falta terra legalizada, tecnologia e crédito. O meio rural só veio trocar a lamparina por lâmpada elétrica há menos de 10 anos, no “Luz Para Todos”.  Mesmo assim, ainda falta chega a 30 mil moradias, segundo dados da Companhia Energética do Maranhão (Cemar). O “Novo Maranhão”, de fato, nunca chegou ao campo para os maranhenses o conhecerem.

Analfabetismo político

A oligarquia Sarney não gosta dessa denominação, mas a sociologia não encontra outra identificação para tamanho período de domínio político familiar e grupal. Tanto a família dominadora quanto seus apadrinhados vivem dia e noite a reclamar do governo Flávio Dino, chamado de comunista, como se a filiação no PCdoB o tornasse uma espécie devoradora de patrimônio e fonte de desgoverno. E o que é pior, de tanto bater nessa tecla, os analfabetos políticos e ingênuos acabam absorvendo o anticomunismo. Mas os Sarney, mesmo com 50 anos de mandonismo nunca se conformaram em perder o Palácio dos Leões. Foi preciso, Em 2009, derrubar o pedetista Jackson Lago, legitimamente eleito, na metade do mandato, para Roseana Sarney retornar.

O que mais incomoda os sarneístas, que inegavelmente se acham donos do Maranhão é, eventualmente, alguém tentar fazer algo que ameace seu domínio. Foi assim com os governos Nunes Freire, João Castelo, Epitácio Cafeteira na prefeitura de São Luís, José Reinaldo, Jackson Lago e agora, na vez, é Flávio Dino. A prática é a de sempre: triturar a imagem do governante, usando sua gigantesca máquina de comunicação: TV, jornal, mídias eletrônicas e pesquisas eleitorais, feitas sob medida para desmoralizar adversários como incapazes e endeusar os agrupados no sarneísmo.

Máquina de triturar adversários

Quando o governo projeto atacar a miséria secularmente intocável, a máquina de triturar políticos entra em ação. Com a metade da população na pobreza absoluta, onde o vazio intestinal fala mais alto que a consciência cidadã, fica fácil distorcer a realidade. Mostrar que casa de palha é “cultura”, que o som da chuva nas cobertas de babaçu é um acalanto musical e que meninos usarem o mato como banheiro da escola é tradição. Tudo isso faz parte da dominação política.

A riqueza do Maranhão não chega a 1% de sua população de 7 milhões de habitantes. Metade deles sobrevive pendurada no Bolsa Família. A classe média é formada de funcionários públicos, esmagadoramente originários da mesma classe dominante. Na política, as oligarquias municipais dominam os empregos que pagam mais. No Judiciário, há uma intercalação entre juízes e seus familiares, com a advocacia e o Ministério Público. Pobres quando envergam uma toga são as raríssimas exceções. Heróis saídos da escola pública de baixa qualidade a arrebentarem a porta de entrada da classe alheia.

Para o Maranhão virar o jogo, só mudando a mentalidade. Levar o ensino de qualidade às legiões de excluídos. Mas isso custa caro e dura tempo. Precisa unir governo, trabalho (pessoas), capital, máquinas, terra, tecnologia e educação de qualidade. É que o capital permanece nas mãos de poucos, a tecnologia também e o empreendedorismo capengando entre o dinheiro público e a dominação política das massas que vivem das rebarbas.

As tecnologias mudaram-se do Maranhão

Não foi sem motivo que o parque industrial têxtil maranhense quebrou e nunca mais surgiram novas tentativas. A tecnologia do meado do século 20 e do 21 mudou de lugar e de mãos. O Maranhão hoje produz alimento que não come (soja), carne que para o oriente médio e despacha minério bruto para a China, e depois o compra como produtos dos colonizadores industriais. Os projetos de refinaria de petróleo e siderúrgicos nunca saem do papel, causando prejuízos e frustrando expectativas.

Até o começo desta década, o jumento ainda era o principal meio de transporte de carga no meio rural. Hoje, o animal milenar vive abandonado. Simultaneamente, no Sul do Maranhão, a produção de soja aos milhões de toneladas passou a transformar a região. No entanto, só enriquece uma meia dúzia de gaúchos que dominam as tecnologias de produção. No norte do Estado, porém, predomina a renda do Bolsa Família, dos aposentados de um salário mínimo e de funcionários públicos, consumidores 70% dos orçamentos de cada município.

O Maranhão tem 30 municípios de população em pobreza absoluta, cujos índices nunca envergonharam a oligarquia. Essa condição “amarra” o estado no tronco da irrelevância política e social. Enquanto isso meia dúzia se protege na vida nababesca do dinheiro que deveria chegar à grande massa. E quando o governador Flávio Dino estabeleceu metas para atacar esse flagelo social pela raiz, com programas tipo o “Mais IDH” e “Escola Digna”, por exemplo, virou alvo dos ataques dos adversários, que se comprazam, por exemplo, diante da paisagem de casas de taipa cobertas de palha de babaçu. Trata-se de um paradigma a ser derrotado – o que o grupo Sarney tem horror de acontecer de novo em 2018. Este será o maior desafio do “comunista”: mostrar que atacar a miséria é um caminho sem volta, mesmo sob implacável tiroteio.

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