No Senado, todos parecem estar sob o “efeito orloff”

Por Raimundo Borges

Você, caro leitor, lembra-se do famoso anúncio que marcou a criativa publicidade brasileira dos anos 80? Mostrava um sujeito bem vestido e penteado que olha para o espelho antes de sair de casa, à noite, e se vê com cara de ressaca, olheiras enormes, um trapo. E vinha, em seguida, pergunta à imagem quem é, e ela responde: “Eu sou você, amanhã”. A propaganda era de uma marca de vodka, a Orloff, que pretendia convencer as pessoas que, se a tomassem hoje, evitavam aquela triste figura… amanhã.

A peça ficou tão famosa, que cunhou o chamado “Efeito Orloff”, aplicado às mais variadas situações em que a história parece repetir-se. Pois é. Hoje, o presidente Temer, todo enrolado em denúncias da Procuradoria Geral da República, já tramitando na Câmara dos Deputados, nunca imaginou em 2016, que estaria atualmente vivendo agora a cara de ressaca que desfigurou Dilma Rousseff antes de cair na armadilha montada por ele, com a ajuda do Senador Aécio Neves, então presidente nacional do PSDB, do Ministério Público, do STF e das mídias corporativas.

Aécio está, pela segunda vez, afastado do Senado, proibido de sair de casa à noite – uma tortura para quem sempre curtiu as baladas cariocas – e com parte do PSDB pedindo sua prisão. Enquanto isso, o “efeito orloff” contaminou o Congresso. Aécio está nas mãos de colegas, metade da composição da Casa também enrolada em ações criminais no STF. Por sua vez, o presidente Michel Temer aparece na pesquisa do Ibope/CNI com míseros 3% de aprovação dos 2007 milhões de brasileiros.

Em circunstâncias tão dramáticas está o senador mineiro, que chegou ao segundo turno da disputa presidencial em 2014 e disse não ter pedido para Dilma Rousseff, “mas para uma organização criminosa”. Em tão pouco tempo, a situação se inverteu e ele vai depender de um bocado de senadores enrolados até o gogó na Lava Jato. Inclusive o presidente da Comissão de Constituição e Justiça, senador Edison Lobão (PMDB) e do presidente do Senado, Eunício Oliveira, todos contaminados pelo “Efeito Orloff”.

Eles podem salvar Aécio, mas o objetivo é fortalecer seus mecanismos de defesa no Congresso, antes que venham conviver amanhã com a mesma cara de ressaca, sem tomar uma gota de vodca “batizada”. Afinal, os parlamentares olham para o passado recente e lembram do Caso Delcídio do Amaral em 2015. O então como líder do governo Dilma no Senado foi preso, por ordem do Supremo Tribunal Federal, acusado de tentar prejudicar as investigações contra ele no âmbito da Lava Jato.

Em maio daquele ano, com 13 votos favoráveis, uma abstenção, uma ausência e nenhum voto contrário, o Conselho de Ética e Decoro Parlamentar, presidido pelo senador João Alberto, do PMDB maranhense, aprovou a recomendação do Senado para cassação de mandato de Delcídio do Amaral.

Mas naquele ano, o Brasil não era o de hoje. Delcídio era do PT e liderava o governo petista de Dilma Rousseff, cassada pelo impeachment em 2016. Hoje, João Alberto continua no Conselho de Ética e está escalado para acertar a vida de Aécio Neves, com seu colega da CCJ, Edison Lobão, além dos demais membros da Casa.

Naquela operação que prendeu Delcídio, também engaiolou o banqueiro André Esteves, dono do BTG Pactual, e Diogo Ferreira, chefe de gabinete do senador, e o advogado Edson Siqueira Ribeiro Filho, que defendia o ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró, preso na Lava Jato desde o ano passado.

Ivo Cassol (PP-RO), condenado a quatro anos de prisão, Renan Calheiros (PMDB-AL), alvo de 17 investigações no Supremo Tribunal Federal (STF), Valdir Raupp (PMDB-RO), 12 acusações, Romero Jucá (PMDB-RR), 9. Os mesmos 9 de Aécio Neves (PSDB-MG). A lista é extensa, alcança mais da metade do Senado, parlamentares de quase todos os partidos e estados. Pelo menos 31 estão enredados na Lava Jato.

Mais do que os argumentos de ordem legal invocados, o receio de ser Aécio amanhã pesa na decisão dos parlamentares de derrubar a decisão do Supremo. Afinal são 40 senadores que precisam se acertar com a Justiça e não será em outro colegiado, senão no STF, por terem foro privilegiado.

O plano do presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-AL), para salvar Aécio Neves da decisão do STF conta com a participação dos parlamentares Edison Lobão (PMDB) e João Alberto (PMDB). A estratégia é revogar a determinação do STF que afastou o tucano do Congresso e o impediu de sair de casa no período da noite.

“Se a Constituição foi ferida pela decisão e cabe ao Senado tomar a decisão, baseado na Constituição, obviamente que o Senado vai tomar as providências”. Por outro lado, de Washington, onde fez palestra sobre o impacto político da corrupção na América Latina, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lavou as mãos em relação ao caso Aécio Neves.

“O Supremo também tem problemas, mas tem a decisão final no Brasil. “O Supremo Tribunal, como guardião da Constituição, tem a decisão final. Ele decide e é isso”, disse FHC na palestra, sem citar o nome do senador. Para o ex-presidente, os brasileiros hoje depositam nos juízes do Supremo e não nas lideranças militares suas expectativas de solução da crise.

“No passado, confrontados com uma crise como a atual, os brasileiros estariam especulando sobre a atuação dos generais de quatro estrelas. Hoje, a maiorias de nós não sabe nem seus nomes, enquanto os nomes dos 11 juízes do STF são nomes familiares”, concluiu.

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