A estranha queda do avião que conduzia o arcebispo de São Luís: sabotagem ou mero acidente?

Jacqueline Heluy*

Eram tempos conturbados no Brasil e, também, no Maranhão. Década de 70, anos de turbulência política. A abertura só veio ocorrer no ano seguinte, em 1979, com a entrada em vigor da lei da anistia, que coincidiu com a greve dos estudantes, em São Luís.

Dia 9 de outubro de 1978. Lembro bem daquela tarde, eu deitada em uma rede no quarto dos meus pais, lendo o romance O Tronco do Ipê, de José de Alencar. Minha mãe na cama ao lado, parecia preocupada.

De repente, papai chega em casa e entra no quarto. Todo sujo de lama, uma bolsa nas costas, calças arregaçadas até o joelho. Antes que mamãe perguntasse qualquer coisa, ele foi logo dizendo: “o avião caiu no município de Mirinzal”.

Mamãe, espantada com a revelação e com toda a calma que lhe é peculiar nos momentos de tensão, emendou logo uma pergunta: “e vocês estão todos vivos?”.

Foi apenas este o contexto que a minha memória conseguiu guardar sobre a tarde de 9 de outubro de 1978. E, durante todos esses anos, sempre que ouvia alguém dizer “não conheço ninguém que tenha sobrevivido a uma queda de avião”, eu afirmava: “eu conheço, meu pai sobreviveu”.

Pois só agora, quase 40 anos depois, pude conhecer, com mais riqueza de detalhes, toda a história da estranha queda do monomotor PT-ATS, conduzido pelo piloto Ivan Sousa, que caiu no município de Mirinzal, em outubro de 1978.

A bordo, cinco passageiros: o então arcebispo de São Luís, dom João José da Mota e Albuquerque; padre Victor Assselin, que, à época, era coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT); a freira Luciana de Foggia; o juiz da Comarca de Codó, José Ribamar Goulart Heluy (meu pai), e o jornalista Raimundo Borges, do jornal O Imparcial.

A reportagem da época levanta suspeita de que o acidente não foi ocasional, embora nunca haver sido divulgado, oficialmente, o laudo pericial da Comissão da Aeronáutica, revelando presença de areia e folhas no tanque de combustível da aeronave.

Tudo leva a crer que alguém sabotou e causou a queda do avião, na tentativa de matar o arcebispo de São Luís, Dom Mota, e todos que estavam a bordo.

Que motivos alguém teria para derrubar um avião a fim de matar religiosos, um magistrado, um jornalista e o piloto?.

Edição do jornal O Imparcial do dia 10 de outubro de 1978, com texto e fotos do jornalista Raimundo Borges. Os bastidores da queda do monomotor

A reportagem revela que a comitiva que estava no avião regressava de uma missa realizada na noite anterior, 8 de outubro de 1978, na cidade de Turiaçu (MA), que contou com a presença de religiosos e sindicalistas da região, em solidariedade aos lavradores que estavam sendo ameaçados por fazendeiros.

A estranha queda do monomotor PT- ATS, 15 minutos após a decolagem,  quando o avião sobrevoava um campo alagado no município de Mirinzal, nunca foi devidamente esclarecida. Todos sobreviveram e o assunto morreu.

Os fatos revelados na reportagem do jornalista Raimundo Borges, único passageiro que ainda está vivo para contar toda essa história com detalhes, estão preservados na memória histórica de O Imparcial e, agora, em um quadro na sala de estar de nossa casa.

Mas, como eu já disse antes, eram tempos difíceis, muito difíceis…

* Autora do site eteceteraetal.com

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