A campanha eleitoral no embalo da guerra suja digital

Por Raimundo Borges

O Maranhão está em estado de guerra declarada. Os três candidatos a governador – Flávio Dino (PCdoB), Roberto Rocha (PSDB) e Roseana Sarney (PMDB) – estão metidos até o pescoço na pré-campanha de 2018, cujo momento tem ampla repercussão nas redes sociais. O senador Roberto Rocha tem mostrado que não entrou na disputa do governo para brinca. É atacado e rebate duramente tanto a seu concorrente governador quanto a quem mais se apresentar. Dino, por sua vez, não perde tempo em atribuir aos governos anteriores de Roseana a maior parte das mazelas que encontrou. O Twitter é seu porrete.

Em resposta, os políticos ligados à Roseana – que sejam deputados estaduais ou federais – não deixam por menos. O tiroteio é direito e implacável. As mídias ligadas ao grupo Sarney, a partir da TV Mirante, rádios e seu jornal O Estado do Maranhão têm como pauta preferencial, há três semanas consecutivas, o caso dos desvios de R$ 18 milhões, que a Polícia Federal e o Ministério Público Federal disseram ter encontrado em investigações de empresas prestadoras de serviços à Secretaria de Saúde do Estado. É a Operação Pegadores.

O senador Roberto Rocha, ao saber que Carlos Lupi, presidente nacional do PDT disse, semana passada, ter pedido a Flávio Dino para não apoiá-lo em 2014 como candidato ao Senado, ficou indignado e escreveu em seu perfil no Twitter uma baixaria, para um senador da República. Disse que não sabe o motivo de tanta malquerença de Carlos Lupi e Weverton Rocha – logo ele que tanto “torceu pela felicidade do casal”.

O senador, agora tucano e inimigo do “comunista”, se diz perseguido por Weverton e Lupi. Daí a sua reação.  Seja como for, a guerra suja está a pleno vapor, tendo como alvo a disputa em 2018, cujo ano ainda nem começou. Faz lembrar outras sujeiras feitas contra João Castelo em 1982, em montagem com uma mulher sentada no colo, como se fosse uma prostituta. Mas a foto, na realidade, era da esposa dele, dona Gardênia, na fazenda do casal em Codó. Fizeram a montagem, tirando o rosto da esposa e colocando de uma desconhecida. O impresso foi distribuído aos milhares pelo Maranhão afora.

Quem, também, não se lembra do escândalo fabricado por Sarney sobre a suposta “morte do Reis Pacheco”. Para acusar Epitácio Cafeteira, candidato a governador contra Roseana Sarney. Foi preciso Juarez Medeiros investigar o caso e descobrir no Pará o “morto”, vivinho da silva. Mas o estrago já estava feito. Em 1994, o Caso Reis Pacheco, metalúrgico que teria sido assassinado a mando de Epitácio Cafeteira, obteve ampla repercussão na campanha, que ele perdeu para Roseana Sarney.

Agora, a campanha promete render escândalos, principalmente com o uso das redes sociais, com alto poder detonador. Elas substituem as campanhas no modelo clássico dos comícios e outras manifestações políticas. Pelo mundo afora, as mídias eletrônicas estão falando grosso mudando cenários políticos. Tanto a política verdadeira quanto de sujeira na política são matéria-prima moldada em qualquer parte num simples clicar no celular. As alternativas são inúmeras e nenhum candidato perde a chance de aproveitá-las em benefício próprio ou para danificar a imagem de adversários.

O marketing digital evoluiu de forma exponencial, mas nem todas as campanhas eleitorais atribuíram a essa ferramenta poderosa sua devida importância. “É preciso investir muito mais em pessoas, porque a rede social não funciona sozinha, e o capital intelectual custa caro. Os candidatos ainda reservam uma fatia muito tímida de seus recursos ao marketing digital”. Porém quem as sabe usar, também sabe como obter resultados.

Em muitas ocasiões, os políticos até que aproveitam as ferramentas positivas e de alto nível das mídias digitais, mas o eleitor, infelizmente, tem uma preferência ainda pelas baixarias circulantes – e desregradamente. Elas capitalizam mais facilmente o interesse do eleitor internauta. Nas eleições 2014, os candidatos que investiram em videoselfs – vídeos curtos feitos pelo próprio internauta – e hangouts – momentos de interação, de bate papo em tempo real – bombaram na internet. O WhatsApp foi apontado como o catalizador da arrancada de Aécio no fim do primeiro turno contra Dilma.

Marcelo Safadi,  especialista em marketing digital e diretor de criação na empresa Articum Comunicação e Marketing, deu entrevista exclusiva ao jornal A Redação, em que avalia as eleições 2014, a evolução do uso das redes sociais, a baixaria na internet em busca por votos e perspectivas para o pleito de 2016. Vale a pena conferir abaixo:

O WhatsApp é a grande revelação destas eleições?
Essa ferramenta era muito incipiente nas eleições de 2012 e agora se revelou muito eficiente como mídia de chegada. O poder de propagação do WhatsApp na reta final da campanha é muito grande. No Twitter e no Facebook, você fala com amigos e familiares, enquanto no WhatsApp tem mais durabilidade e imenso poder de propagação. Ainda que já houvesse uma expectativa, acho que a performance do WhatsApp superou o que se esperava. O usuário desta rede social adere facilmente ao conteúdo de humor, ao conteúdo crítico e a documentações. Foi a grande vedete destas eleições.

Por que há tanta baixaria nas redes sociais durante as eleições 2014?
As redes sociais são a tradução do mundo real. A sociedade brasileira está muito recrudescida. Vivemos um momento de mais dialética, já fomos mais plurais. O Brasil está menos plural e o que se vê é um debate maniqueísta, do bem contra o mal. Ninguém quer discutir o Brasil que queremos, mas quem você quer que ganhe a eleição. É um debate encurtado. Estamos enfrentando uma campanha muito ruim. No Facebook e no Twitter, houve um desarranjo, com falta de pudor e falta de ética. As pessoas ultrapassaram todos os limites. Ainda que as campanhas de Dilma e de Aécio tenham apresentado um conteúdo muito bem elaborado, esse material foi muito pouco aproveitado pelos usuários de redes sociais. Só a baixaria faz sucesso.

A facilidade do anonimato no WhatsApp incentiva a difusão de ofensas?
São tipos diferentes de baixaria. Eu diria que, no âmbito nacional, há três diferentes tipos de movimentos. Há um movimento do PT, com uma forte organização, de comportamento vertical. O comando produz o conteúdo e a base distribui sem o menor senso crítico. Tem da campanha do Aécio, em que não existe essa verticalidade, já que o militante do PSDB  não é obediente. Só houve engajamento quando acertaram a mão na comunicação. E tem o eleitor da terceira via, que se identificou com Marina e seguia o discurso de que tudo o que está aí não presta. Acabou se achando também no Eduardo Jorge e na Luciana Genro. E, dirigido a este três grupos há uma imensidão de materiais apócrifos. Constrói-se uma mentira em poucos passos. Pelo WhatsApp, um milhão de pessoas distribui uma mentira que se torna verdade.

O Aécio conseguiu engrenar sua comunicação na reta final do primeiro turno?
O eleitor do candidato tucano é plural, por isso mais difícil de atingir. Somente no final da campanha do primeiro turno é que se conseguiu, via WhatsApp, atingir esse público. O material era produzido, mas não despertava interesse e não era reproduzido. Mas quando acertou a mão, a campanha conseguiu fazer esse conteúdo chegar ao eleitor e, do WhatsApp foi parar no Facebook.

E qual é a qualidade desse conteúdo?
Prevalece um debate que não acrescenta muita coisa, um debate de versões e de mentiras. Mas essa é algo que acontece nas redes sociais. Assim como as manifestações de junho de 2013 levaram às ruas pessoas que não sabiam porque protestavam, nessas eleições tem muita gente defendendo um candidato sem saber porque. Hoje, o eleitor sabe muito mais porque não quer o outro, do que porque quer o seu. É uma campanha ao contrário. Não vence o melhor, mas perde o pior.

É na tentativa de responder aos ataques das mídias digitais que os candidatos têm produzido debates e propagandas de TV tão ruins?
É difícil diz o que vem primeiro. Se os candidatos promoveram uma campanha de baixo nível e isso se reflete nas redes sociais ou se, já que é a baixaria que reverberou, eles deciriam apostar nesse caminho. Talvez a sociedade não tenha compreendido as redes sociais como meio de audição. É preciso ouvir o que as pessoas estão dizendo.

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