Morte de Humberto Coutinho abre uma lacuna e mexe na política maranhense

Por Raimundo Borges

Repercute fortemente no meio político a morte do deputado Humberto Coutinho, 71 anos, de câncer de intestino, em Caxias, onde passou os últimos meses lutando pela vida. O corpo foi sepultado, hoje, perante lideranças políticas, empresariais e a população caxiense. Ele estava licenciado da presidência da Assembleia Legislativa do Maranhão, cargo para o qual foi reeleito, por aclamação, em 2016, em pleito antecipado. O vice-presidente da Alema, deputado Othelino Neto assume automaticamente o comando do Legislativo, com base na resolução aprovada em novembro do ano passado, pelo plenário, sem necessidade de um novo pleito.

Conforme o texto da resolução legislativa, de autoria do deputado Roberto Costa, do PMDB, os titulares dos demais cargos da mesa diretora ascenderão automaticamente uma posição, deixando de fora apenas a função de 4º vice-presidente, que será ocupado mediante eleição no plenário. Com a morte de Humberto Coutinho, assume, em definitivo o mandato de deputado, o suplente da coligação “Todos pelo Maranhão”, Rafael Leitoa, também do PDT.

O presidente Othelino Neto decretou luto oficial por três dias no Poder Legislativo. Segundo ele, “o Maranhão perde um de seus grandes líderes”. E acrescenta que Humberto Coutinho “era um homem de poucas palavras e, ao mesmo tempo, um conciliador que teve a coragem cívica de ser um dos grandes pilares de momentos relevantes da nossa política recente. Foi fundamental na marcante eleição de governador do saudoso Jackson Lago (PDT) e também  avalista desse movimento histórico da construção de um Maranhão de todos nós, sob a liderança de seu aliado e estimado amigo Flávio Dino”.

Coutinho foi militante do PFL, sendo eleito em 1988, vereador de Caxias, dando início a uma carreira, que chegou até ao Palácio dos Leões, onde assumiu a cadeira de governador, durante quatro dias, em novembro de 2016, na ausência de Flávio Dino e do vice, Carlos Brandão. Ainda pelo PFL, Coutinho foi eleito deputado estadual, em 1990, antes de passar para o PSDB e depois, o PDT, por onde se elegeu e reelegeu prefeito de Caxias. Em 2012, elegeu o sobrinho Leonardo Coutinho, que, porém, perdeu a reeleição em 2016, para os adversários, unidos – Fábio Gentil (prefeito) e Paulo Marinho Júnior (vice).

Como prefeito de Caxias, Coutinho teve forte influência na vitória de Jackson Lago em 2006, para governador, contra Roseana Sarney, junto com o então governador José Reinaldo. Os dois foram, também, peças determinantes da saída do então juiz federal Flávio Dino, da magistratura, para ingressar na política, pelo PCdoB. Dino foi eleito deputado federal, tendo Caxias e região, como suas principais bases eleitorais no interior maranhense.

A luta pela vida

Em 2014, quando disputou o atual mandato de deputado estadual, ele já vinha lutando contra o câncer de intestino, um dos mais agressivos.  Foi uma batalha incansável pela vida, que chegou a surpreender até os médicos que cuidaram dele em São Paulo, Teresina e São Luís. A cada agravamento da situação, era seguida de uma reação, na cujo revés qual ele sempre demonstrava enfrentar com força, ao lado da Cleide Coutinho, também médica.

O “Grandão”, como era apelidado, chegou a passar longos meses, em 2016, colostomizado, mas sem deixar de exercer suas funções na Alema e resolver, no diálogo, as divergências no plenário, entre os governistas e oposicionistas. Nenhum parlamentar ousou desafiá-lo ou dizer algo visto como desrespeito. Ele manteve postura retilínea com os demais poderes e sempre tinha a esposa Cleide Coutinho ao seu lado.

O nome do deputado chegou a ser cogitado como pré-candidato a senador na eleição deste ano, na chapa de Flávio Dino. Porém, ele mesmo se encarregou de desfazer os boatos. Seria candidato a novo mandato estadual, pois nunca alimentou a ideia de morar em Brasília e se afastar de sua cidade. Não alimentava a ideia do vai-e-vem de avião, entre a capital federal e o Maranhão.

Em março de 2015, logo depois de empossado, Coutinho se licenciou da Alema para se submeter a mais uma cirurgia em São Paulo. De lá para cá, em outras oportunidades, ele passou o comando do legislativo ao vice, Othelino Neto. Em novembro passado, familiares do deputado pedetista emitiram nota, dirigida aos “amigos, à população de Caxias e do Maranhão, que o Dr. Humberto Coutinho encontrava-se em Caxias para dar continuidade ao tratamento de um quadro infeccioso e, por determinação da equipe médica”. As visitas ficaram, portanto, restritas aos familiares. O quadro ficou alternando entre melhora e piora, até a morte. O sepultamento foi nesta manhã, perante comoção social popular, em Caxias. Os diretores da Alema também prestaram a última homenagem a Coutinho.

Guerra perdida

Ele perdeu a guerra de quatro anos contra um agressivo câncer no intestino, contra o qual usou de todos os recursos médicos disponíveis. Sua partida, aos 71 anos, se deu no melhor momento da carreira política – chegou a ser apontado como pré-candidato a senador com chances de eleição. A morte abre, portanto, um enorme vazio no universo da política maranhense e na sua família, da qual dividia a liderança com a esposa, a médica e ex-deputada estadual, Cleide Coutinho, que a conheceu ainda na faculdade, em Salvador.

Empresário de peso

Humberto Coutinho fez sucesso na carreira política e também na empresarial. Atuou a área de saúde e comercial, com a inauguração, em 2016, de um shopping em Caxias. Na Educação, foi sócio fundador da Faculdade de Ciência e Tecnologia do Maranhão (Facema), cujo grupo Educa, expandiu sua ação para os segmentos da Educação Básica, Infantil, Ensino Fundamental e Médio, assim como implantou pós-graduação lato sensu, na cidade de Caxias. Coutinho era vice-presidente de Relações Institucionais do grupo.

Também mantém a empresa Casa de Saúde e Maternidade de Caxias Ltda, que é administrada por Ivanise Coutinho Araújo, irmão de Humberto. O hospital é mantido pela Fundação Humberto Coutinho. O ex-presidente da Alema, junto com a esposa, Cleide, era um dos políticos mais ricos do interior maranhense. Como criador de boi de corte, ela estava entre os maiores do Estado, com fazendas na região dos cocais.

Luto oficial e homenagens

O governador Flávio Dino decretou luto oficial de sete dias em reconhecimento e respeito pela figura que Humberto Coutinho representou para o Maranhão. Disse que ele presidiu a Alema com liderança, dignidade, equilíbrio e acima de tudo respeito pelo debate democrático no plenário da Casa. “Humberto foi exemplo de luta e superação para todos os maranhenses. Mesmo nos momentos de maior sofrimento pessoal, demonstrou compromisso com os interesses do Estado ao conduzir o Legislativo estadual”, diz a nota do Palácio dos Leões.

Por sua vez, o prefeito de Caxias, Fábio Gentil, decretou luto oficial por sete dias pela morte do “ilustre conterrâneo” Humberto Coutinho.  

or sua vez, o presidente do Tribunal de Justiça do Maranhão, desembargador José Joaquim Figueiredo dos Anjos, em nome dos demais membros da Corte, divulgou nota externando “profundo pesar pela perda do presidente da Assembleia Legislava”, ao mesmo em que se solidariza com a família do deputado, desejando conforto e serenidade em momento tão difícil de imensurável perda. “Toda a classe judiciária do Maranhão presta condolências e expressa os mais sinceros pêsames”, afirma José Joaquim.

Também, em nota, a ex-governadora Roseana Sarney (MDB), lamentou a morte de Humberto Coutinho. “O Maranhão perde uma liderança política e um homem que lutou fortemente durante os últimos anos pelo restabelecimento de sua saúde. Ao longo de minha trajetória política, eu e Humberto Coutinho mantivemos uma relação de muito respeito, buscando o melhor para o Maranhão e para a região dos Cocais, onde ele manteve sua base, tendo sido eleito prefeito de Caxias e também Deputado Estadual”.

Pelo Twitter, o prefeito de São Luís, Edivaldo Júnior, que em 2016 trocou o PTC pelo PDT, lamentou a morte: Coutinho “deixa um grande legado de trabalho, como médico e notável líder político e pela luta em prol dos interesses do Maranhão”.

Bastante comovido com a notícia, o vereador Astro de Ogum, presidente da Câmara de Vereadores de São Luís, emitiu nota oficial, destacando a importância da liderança política de Coutinho para o Maranhão. Lembrou ainda a sua formação profissional, “um médico a serviço da sociedade, exercendo a medicina, pelo INSS de Caxias, na Casa de Saúde de Maternidade de Caxias, hospital que criou, junto com sua esposa, Cleide Coutinho”.

Prefeitos lamentam

O prefeito de Paço do Lumiar (MA), Domingos Dutra, e a secretária municipal de Administração, Núbia Dutra, lamentaram a morte de Humberto Coutinho. Dutra lembrou ter sido eleito deputado estadual em 1990, no mesmo pleito de Coutinho, quando sua mulher Núbia e a médica Cleide tornaram-se amigas no Grupo de Esposas de Deputados (Gedema). E acrescenta: “Acompanhei de perto a luta do amigo Humberto pela vida. Fomos colegas na Assembleia Legislativa, onde travamos bons debates, eu pela oposição e Humberto pelo governo”.

A Federação dos Municípios do Maranhão (Famem) e a Prefeitura de São Luís divulgaram notas manifestando profundo pesar pelo falecimento do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Humberto Coutinho.

Para o presidente da Famem, Cleomar Tema, seu amigo Humberto Coutinho “deixa um grande legado para as gerações futuras do nosso Estado. Foi um autêntico líder, um homem leal aos seus ideais, cumpridor de suas palavras e que, por todos os seus predicados, era extremamente respeitado, tanto pelos amigos como pelos adversários”.

Academia de Letras

Os intelectuais também se manifestaram na “princesa do Sertão”. Academia Caxiense de Letras, em nota, diz que seus membros “encontram-se  consternados com o falecimento de Dr. Humberto Ivar Araújo Coutinho, um dos mais importantes e ilustres caxienses nos cenários políticos municipal e estadual. A Casa de Coelho Neto ao rogar a Deus, que ilumine e receba seu espírito no Reino dos Céus, solidariza-se com a família e amigos neste momento de pesar e dor”.

Já a Associação dos Amigos da Velha Guarda Caxiense também se incorporou às manifestações de pesar pela morte de Humberto, cuja trajetória política foi marcada “pelo respeito ao próximo, à Caxias, ao Maranhão e amor e dedicação à família”. O PSL também emitiu nota de pesar pelo desaparecimento do líder caxiense.

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