Sarney e Flávio Dino terão o embate do século em 2018

Por Raimundo Borges

O maranhense filho de Pinheiro, José Sarney é uma figura única no Brasil na cumulação de poder. Terá, em outubro, o mais dramático embate de sua carreira política no Maranhão. A eleição de Roseana contra Flávio Dino é tão decisiva quanto foi para Sarney chegar, em 1985, à Presidência da República pelo caminho travesso da história. Foi a única vez em que o presidente da República adoece poucas horas antes da posse, é internado, operado e acabando morrendo, sem chance de assumir. Tancredo Neves seria a esperança do Brasil, eleito numa engenharia política, também única na história, em que colocou como vice-presidente, o até então adversário José Sarney, apoiador do regime militar desde sua instalação em 1964.

Apesar na conjuntura política difícil, na qual era possível ser ouvir ainda o barulho da “ordem unida” nos quartéis, comandados pelo último general do regime já desmilinguido, José Sarney, em situação emergencial, foi sacramentado presidente, num ato até então imponderável. Daí então, o que era um político tupiniquim, senador do Maranhão, estado de inexpressividade política no contexto republicano, vestiu o jaquetão do poder, que extrapolou para todo o Brasil e para o mundo.

Passado mais de meio século, Sarney continua dando as cartas no Maranhão, em Brasília e no Amapá. Mesmo com o peso dos 88 anos em abril próximo, Sarney não arredou o pé da política. Quer porque quer retornar ao comando do Maranhão, achando que é possível, na revanche, derrotar o comunista que já faz história no Brasil.

Pelas urnas quebrou a espinha dorsal do grupo sarneísta em 2014. Portanto, não é novidade para o Maranhão e o Brasil que Sarney só tem uma chance de manter o sarneismo oligárquico, derrotando Flávio Dino, ou vê o seu sistema virá cinzas como ele fez com o vitorinismo há 53 anos. Não se outro motivo, Sarney continua mostrando força em Brasíoia. O episódio do veto ao deputado Pedro Fernandes, um ex-aliado, para o Ministério do Trabalho, realçou a prática que muitos acreditavam não estar mais em uso.

O embate do século

O que parecia improvável vai acontecer em 2018. A eleição de governador do Maranhão será histórica e única no Brasil. O embate principal se dará sob o comando de José Sarney, contra o seu mais forte adversário: Flávio Dino (49 anos). É o embate maior e mais importante dos últimos 53 anos no Maranhão, cujo desfecho terá relação direta com a conjuntural nacional, cujo presidente é do partido de Sarney, contra o ‘comunista’, primeiro eleito pelo PCdoB, no comando do Estado. Ele faz a política de largo alcance social, focada na pobreza, educação de qualidade, infraestrutura, agricultura e na indústria.

Sarney e seu grupo estão numa sinuca de bico. Quer eleger a filha governadora; o filho Zequinha, senador; o aliado de todos momentos, Edison Lobão para a segunda vaga no Senado e o outro, João Alberto, vice-governador, além do neto Adriano, deputado estadual. Porém, é a primeira vez que Roseana é candidata pela oposição. Zequinha Sarney também não sabe o que é fazer oposição a governo, porque toda sua trajetória foi governista. Lobão nem se fala. É lealdade plena a Sarney e ao poder federal.

Desde 1994, quando disputou a primeira eleição de governador, Roseana Sarney só perdeu em 2006 para Jackson Lago, que a derrotar apenas com o PDT, PPS o nanico PAN na coligação. Já a  ex-governadora montou uma coligação com onze dos principais partido (PFL, PMDB, PTB, PP, PSC, PL, PV). No segundo turno, não teve jeito, Jackson saiu de São Luís e Imperatriz, maiores colégios eleitorais com uma votação expressiva, batendo a adversária em quase todas as regiões.

A derrubada de Jackson

Confirmada a vitória de Jackson Lago, a coligação de Roseana Sarney ingressou na Justiça Eleitoral com uma ação de impugnação de mandato eletivo para cassar o governador por abuso de poder político e econômico, ocorrido durante o segundo turno. Conforme entendeu o Tribunal Superior Eleitoral, as acusações procediam, a chapa vencedora foi cassada e Roseana Sarney tomou posse em seu terceiro mandato como governadora a 17 de abril de 2009 tendo João Alberto de Souza ao seu lado. O mote da acusação foi a assinatura de 156 convênios do Estado no valor de R4 280 milhões com municípios.

Roseana, ainda conseguiu se reeleger em 2010, levando consigo os dois senadores – João Alberto e Edison Lobão – enquanto a oposição, dividida entre Jackson Lago, já doente, e Flávio Dino, engoliu poeira. Foi uma eleição marcada por insegurança jurídica. A lei da ficha limpa acabara de entrar em vigor e tanto Jackson tinha sido cassado um ano antes, quanto Roseana havia sido condenada por propaganda antecipada, ao comparar suas realizações, com as de José Reinaldo, no governo. Apesar disso, eles tiveram o registro liberado pelo TRE do Maranhão. Em Brasília José Sarney estava no exercício do terceiro mandato na presidência do Senado. Depois foi eleito mais uma vez.

Em outubro próximo, Flávio Dino, governador, e Roseana Sarney como oposição, terão o segundo confronto de urna. Desde 2014, quando renunciou o mandato a poucos dias de terminá-lo, passando o comando do Estado ao presidente da Assembleia Legislativa, Arnaldo Melo (PMDB), a filha de Sarney está distante da refrega política. Porém, atuou nos bastidores, na votação do impeachment de Dilma Rousseff, marcando posição contra a de Flávio Dino, que apoiou a petista e hoje defende a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

A disputa por Lula

Na iminência de Lula vir a ser impedido de concorrer à eleição presidencial, tanto José Sarney quanto Roseana, que tiveram forte poder nos governos petistas, gora estão, apenas na expectativa do que vai acontecer. Para os Sarney, só interessaria a candidatura de Lula, se Roseana conseguisse, de novo, ter o PT em sua coligação e o líder petista no palanque. Porém, pela lealdade de Flávio Dino à Lula e Dilma, é impensável, hoje, vê o PT – com Lula ou sem Lula na eleição – fora da coligação do PCdoB.

Além do Maranhão, Sarney está no Amapá, nas Academias brasileira e na maranhense de Letras, onde seu poder na área literária é incomparável. Envergar o fardão de cada uma sem o aval de Sarney é um caminho tortuoso para qualquer intelectual. Portanto, mesmo fora dos mandatos eletivos, mesmo assim o poder não desgruda de Sarney. Se for candidato a mais um mandato no Amapá, segundo avaliação local, ele tem chances reais de ser eleito. Sobre isso, Sarney desconversa, por dois motivos: a idade (88 anos) e o tempo que precisa para cuidar de dona Marly, com quem casou no longínquo 1952, com 22 anos.

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