O bloqueio do aposento

Por Raimundo Borges

Assim como o presidente Michel Temer teve seu “aposento” bloqueado na semana que passou, eu também passei pelo mesmo transtorno. A diferença é que Temer já deve ter feito a “prova de vida” na Previdência, saindo da estatística suspeita do próprio governo. Ele, por esquecimento, perdeu o prazo da biometria e viu a conta esvaziada. Já a minha situação foi outra: o número da nova carteira de identidade não foi visto pelos computadores da Previdência, mãe do INSS.

Outra diferença entre meu “benefício” e o de Temer é tamanho do valor, pois em relação ao transtorno, é bom nem se falar. O presidente Temer requisitou aposentadoria aos 55 anos e recebia cerca de R$ 45 mil brutos. Mas o valor teria sido reduzido recentemente, até deixá-lo no limite do teto constitucional, de R$ 33,7 mil, regulado pelo salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Enquanto o meu “aposento”, requerido aos 60 anos, está looooonge do teto do serviço público.

Porém, o que interessa aqui é o bloqueio do meu benefício e o de Temer. Como recebia de costume, no dia 1º de cada mês, agora, em fevereiro, nada caiu na conta. Tirei o extrato e nem previsão havia para os próximos dias. Liguei no 135 grátis do atendimento do INSS e entrei numa fila eletrônica de 278. Mas a fila (tem coisa mais parecida com o INSS?) foi regredindo rapidamente, com o sistema já me adiantando quanto minutos e segundo restavam para chegar à atendente. Bem diferente do padrão das clássicas filas físicas.

O certo é que em menos de cinco minutos cheguei à moça do outro lado da linha. Disse-lhe que estava sem dinheiro na conta e queria saber o motivo. Ela, prontamente respondeu: “O senhor precisa fazer a prova de vida no banco de sua conta”. Depois o sistema me pediu que aguardasse para dar nota de 1 a 5 sobre o atendimento. Marquei 5 em todos os itens perguntados. Afinal, a moça foi gentil em tudo.

Chegando ao banco, a funcionária, também treinada no quesito “gentileza”, começou a preencher um formulário. Concomitantemente, perguntou se eu usava com frequência o cartão da conta com identificação biométrica. Diante da resposta afirmativa, ela concluiu que não precisava fazer a tal “prova de vida”. “O sistema da Previdência sabe que se o senhor usa a biometria da mão para movimentar a conta, logicamente que é uma prova de que o senhor está vivo. Morto não tem biometria”, ela brincou. A moça, então, recomendou-me que aguardasse, pois a data do crédito poderia ter sido alterada para o dia 5, conforme o terminal da minha inscrição.

No dia 5, nada. Foi à Agência do INSS, no Parque do Bom Menino. Uma multidão aguardava atendimento. Mas o sistema estava fora do ar. Recomendaram-me, procurar a agência do Instituto no bairro Alemanha. Lá entrei numa fila, peguei a senha 179. As bancadas para idosos e seus correlatos, todas ocupadas, e muita gente em pé. Eu também e já suando. Uma senhora do atendimento me reconheceu e perguntou o que eu buscava ali. Disse-lhe o problema, e ela rapidamente descobriu o motivo do bloqueio. O número da nova identidade não constava lá. O sistema brecou. Porém, a solução, não era naquela agência, mas na do Angelim, para onde mudaram a antiga da Rua de Nazaré, onde requeri o “aposento”.

Chegando local indicado, nova multidão. E novo aviso: o “sistema está fora do ar”. Voltei às 14 horas, do mesmo dia, e sem solução. Tudo parado. Um desligamento na rede da Cemar na área derrubou o sistema do INSS. Voltei na terça-feira, às 7h30. Tudo normal, mas a multidão estava ainda maior. Peguei a senha 78. Fiquei sentado até ser atendido por uma funcionária também bem treinada. Botou o novo numero da identidade.  Depois de um tempo e várias tentativas – “até que enfim”, ela disse, aliviada. E eu também respirei.  “Agora, sim deu certo”.

A servidora imprimiu o documento do serviço e me entregou. Perguntei: “E o dinheiro, quando sai? Ela respondeu: “É rápido, o senhor só precisa voltar ao banco, fazer nova prova de vida e acredito que o dinheiro sairá de imediato”. No banco, aquela moça bem treinada desmanchou a minha prova de vida biométrica anterior e abriu outra. Agora, sim, eu estava “vivo” para o INSS e esperando o dinheiro. Perguntei à moça bem treinada: “Já posso ir ao caixa?” E ela, meio sem graça, disse: “Não tem dinheiro ainda, o banco devolveu porque seu nome estava bloqueado. E não sei em quantos dias seu benefício será creditado”.

Até agora, ao redigir esse registro, estou novamente na “fila” do INSS para receber o meu “aposentado”, com sete dias de atraso e já ouvindo o rufar dos treme terra, na expectativa de não passar o Carnaval liso – ao contrário do meu colega de grana bloqueada, Michel Temer. Ele, como chefe do Brasil e do INSS, já deve ter tido o seu aposento creditado, antes que o Congresso tente aprovar a desacreditada Reforma da Previdência. Pior de tudo é que o próprio governo Temer está anunciando, em rede nacional de TV, que o cadastramento de “prova de vida” vai até 28 de fevereiro.

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