Em Roma, Segovia receberá mais de R$ 50 mil

Demitido do cargo de diretor-geral da Polícia Federal, o delegado Fernando Segovia não perde por esperar. Ganha. Foi premiado por Michel Temer com o posto de adido da PF na embaixada do Brasil em Roma. Durante três anos, sua renda mensal bruta será de pouco mais de R$ 56 mil. O valor líquido ultrapassará os R$ 51 mil. A cifra equivale a uma vez e meia o salário do presidente da República e dos ministros de Estado, limitado a R$ 33,7 mil, o teto remunetário do serviço público.

Deve-se a distorção a uma rentável peculiaridade: em missão no exterior, os servidores da PF ficam em situação análoga à dos diplomatas e adidos militares. Recebem contracheques vitaminados por verbas apelidadas de “indenizatórias”. Elas tonificam a remuneração, mas não são consideradas parte do salário. Além de isentas do Imposto de Renda, estão fora do alcance do chamado “abate-teto”, uma regra que deveria engolir um pedaço dos vencimentos sempre que eles subissem no telhado.

O decreto presidencial que brindou Segovia com a poltrona de adido da PF em Roma foi publicado no Diário Oficial desta quinta-feira (2). Ele substituirá o colega Valdson José Rabelo. Os dois estão no mesmo nível da carreira. São delegados da “classe especial”. Graças a essa uniformidade funcional, a remuneração de Segovia no novo posto será equivalente à do antecessor, informou a assessoria da PF.

blog foi ao Portal da Transparência para obter as últimas remunerações dos delegados. Há uma defesagem de três meses na divulgação. Os dados mais recentes referem-se aos contracheques de outubro e novembro de 2017. No caso de Valdson, o adido cujo salário será herdado por Segovia, as cifras estão anotadas em dólar. As conversões feitas neste post levam em conta a cotação da moeda americana nesta quinta-feira: R$ 3,255.

Em outubro, a remuneração bruta de Valdson Rabelo foi de R$ 33,9 mil. O salário líquido foi de 29,1 mil. A esse valor foram acrescidas as ”verbas indenizatórias”: R$ 22,3 mil. E Valdson embolsou R$ 51,4 mil. Essa será a remuneração de Segovia depois que ele assumir suas novas atribuições na capital italiana. O portal do governo não especifica que tipo de indenização é bancada pelas verbas ditas ”indenizatórias”.

No mês de novembro, o extraordinário ganhou ares de inacreditável. Além do salário habitual, Valdson Rabelo recebeu do Tesouro Nacional uma “gratificação natalina” de R$ 26,5 mil. Com isso, feitos todos os descontos, o delegado amealhou R$ 53,8 mil líquidos. Que, somados aos R$ 22,3 mil de “verbas indenizatórias”, resultaram numa remuneração de R$ 76,1 mil —ou mais de duas vezes o teto salarial do serviço público.

A imagem abaixo, extraída do Portal da Transparência, contém os dados referentes aos vencimentos de Valdson. Os campos brancos e amarelados trazem as cifras em dólar. Os azuis anotam os valores já convertidos para o real.

Alçado ao comando da PF em novembro do ano passado, Fernando Queiroz Segovia Oliveira durou 99 dias no cargo. Chegou com o aval do núcleo lavatista do PMDB. Deveria conduzir a Operação Abafa a Jato até o final do governo Temer. Mas esqueceu de maneirar. O cartão de visitas de Segovia foi a avaliação de que “uma única mala [com propina de R$ 500 mil] talvez não desse toda a materialidade criminosa de que a gente necessitaria” para caracterizar um ato de corrupção.

A coroa de flores do delegado foi a entrevista na qual disse não haver indício de corrupção no inquérito dos portos, estrelado por Temer. Sua pá de cal foi a ameaça de retaliar o delegado que preside o inquérito, por ter encaminhado perguntas incômodas para o presidente. Seu epitáfio foi a articulação que comandou para tentar sobreviver à nomeação de Raul Jungmann para a nova pasta da Segurança Pública, que absorveu a Polícia Federal.

Segovia fez da própria língua um pavio para o seu processo de autocombustão. Contudo, medido pelo novo contracheque, tornou-se um caso clássico de queda para cima. Em termos salariais, ficará mais bem posto em cena do que todos os protagonistas de sua derrocada. Ganhará mais do que o ministro do STF Luís Roberto Barroso, que ordenou o seu silêncio. Mais do que a procuradora-geral Raquel Dodge, que pediu o seu escalpo. Mais do que o ministro Raul Jungmann, que lhe mostrou a porta de saída. Mais do que Rogério Galloro, que assumiu o seu lugar na chefia da PF. Mais do que Temer, que premiou sua lealdade com um supersalário.

Em outubro de 2017, Segovia recebeu seu último contracheque antes de virar diretor-geral da PF. Naquela ocasião, sua remuneração bruta era de R$ 28,2 mil. Recebia salário líquido de R$ 17,7 mil —quase três vezes menos do que os vencimentos que passará a embolsar em Roma. A ascensão ao comando da PF rendera a Segovia uma gratificação que o elevara à elite do serviço público.

Em novembro, já acomodado na poltrona de diretor-geral, o apadrinhado do núcleo bandalho do PMDB passou a receber pelo teto: R$ 34,7 mil brutos. Com os descontos, R$ 33,8 mil. A exemplo do adido Valdson Rabelo, que se despede do posto, Segovia também recebeu “gratificação natalina”. Coisa de R$ 33,7 mil. No seu caso, porém, os abatimentos rebaixaram o teto do contracheque para as proximidades do limite legal. Vão reproduzidas abaixo as imagens extraídas do Portal da Transparência.

No final de 2018, Segovia já estará molhando a camisa em novo endereço: o imponente Palazzo Pamphili, sede da embaixada brasileira em Roma. Fica em plena Piazza Navona. Oferece vista para a Fontana di Trevi. Nesse cenário cinematográfico, se Papai Noel tiver que aparecer para o delegado que convulsionou a PF não se atreverá a surgir de outra forma que não seja a de um contracheque de R$ 76,1 mil, com a mesma “gratificação natalina” recebida pelo antecessor. E restará demonstrado que, sob Temer, toda lealdade é recompensada,

Fonte: Uol Notícias

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *