O RESGATE DA ESSÊNCIA POLÍTICA

*Por Osmar Gomes dos Santos

Muito se tem discutido sobre o atual cenário político brasileiro. Dos mais ávidos e letrados estudiosos aos ditos leigos – que compartilham dos debates nas rodas de conversa esquinas afora –, cada um tem uma opinião formada quando se trata de apontar novos rumos para a nação. Essa efervescência de ideias é importante para a consolidação da democracia em nosso país.

No Brasil, política tem sido sinônimo de algo ruim, desprezível, e que precisa ser extirpado da sociedade. Ledo engano! Não se pode retirar do seio social aquilo que é uma das marcas mais indeléveis do ser humano: o ser político. A política, na sua boa essência, é fruto das práticas sociais na vida em comunidade. O homem é, fundamentalmente, um animal político, na melhor acepção aristotélica.

Há mais de dois milênios, ainda na Grécia Antiga, Aristóteles aqueceu os debates sobre a conduta humana na vida em sociedade e a importância da política na promoção do bem estar social. Seus estudos serviram de base para pensadores que se debruçaram a pensar o formato de sociedade ideal, de tal forma que caberia a todos, e não apenas aos ditos sábios, a condução da mesma por caminhos retos, balizados pela ética e moral que deve nortear as relações humanas.

É nisso que consiste a linha de raciocínio desenvolvida neste texto. A participação política não está reservada aos sábios, intelectuais, letrados, mas intrínseca a todo cidadão capaz de analisar, discutir e, acima de tudo, participar do jogo democrático que é a política. Esse formato condiz com o que Aristóteles chamou de vocação essencial da cidade, regida por leis comuns a todos e não por um setor dela.

As práticas sociais em nosso país vão nesse sentido e têm dado provas do avanço de nossa juvenil democracia. A liberdade de expressão e de manifestação do pensamento, inclusive amparadas nos modernos meios de comunicação, mostram-se práticas consolidadas que permitem manifestações de posições sobre os mais variados temas difundidos na esfera pública, com destaque para o debate político.

Contra ou a favor, hoje os cidadãos têm garantido seu espaço de produção de discurso em defesa de seus ideais. No jogo político, a única postura que não cabe – no meu particular entendimento – é a da omissão, da inércia diante dos acontecimentos que impactam na vida de toda sociedade e de forma singular a cada um de nós.

Apesar dos últimos escândalos no seio político brasileiro, em todas as esferas de poder, é salutar a renovação pela qual a mesma vem passando. A cada novo pleito eleitoral, pela via do sufrágio universal, temos a oportunidade de conhecer novos atores políticos que assumem o desafio de participar ativamente da política. A sedimentação completa desse fenômeno ainda pode demorar um pouco, mas certamente seus efeitos iniciais já começam a ser sentidos.

Importante que se diga que este espaço não esta reservado aos intelectuais, detentores de bens ou linha hereditária. O espaço político, o mesmo no qual o jogo da política se processa, está aberto à participação de todos, indistintamente. A participação democrática garante equilíbrio social e a concretização de um modelo de política a qual Aristóteles conceituou como a ciência da felicidade humana, resultado das práticas sociais comuns aos cidadãos que por sua vez estariam na busca da felicidade.

Nessa busca pelo bem comum, o país vive um momento em que passa a limpo a sua história. É hora de renovar, de acreditar, de passar da crítica à ação na luta por um país mais justo. Seja para escolha dos representantes, seja para colocar-se como representante, ou simplesmente agir para mudar a realidade da nação, é preciso sair da zona de conforto.

Cada cidadão precisa deixar de ser espectador, mero coadjuvante, para se tornar protagonista da mudança que almeja. A política não mudará! Ela é e continuará sendo o meio para alcançarmos uma sociedade mais justa e igualitária. O que precisa mudar é a nossa postura diante do quadro ora instalado.

*Juiz de Direito da Comarca da Ilha de São Luís
Membro das academias Ludovicense de Letras, Maranhense de Letras Jurídicas e Matinhense de Ciências Artes e Letras

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