Entrevista: Raimundo Borges | “A informação é como um alimento para a alma do leitor”

Por George Raposo

Um dos grandes trunfos do jornal O Imparcial, mais especificamente na editoria de política, é a Coluna Bastidores. Escrita pelo jornalista Raimundo Borges desde meados da década de 1980, a coluna revela detalhes da política maranhense e nacional com uma análise pertinente e de forma ágil, leve e objetiva.

Dentro da história do jornalismo político do Maranhão e também na história do jornal O Imparcial, o jornalista Raimundo Borges é considerado um dos grandes nomes, e esteve presente em 47 dos 92 anos do jornal. Em sua trajetória, começou como repórter fotográfico, passando pelas editorias de geral, como repórter, até se tornar editor de política. Após esta primeira fase, foi elevado a secretário de Redação e, por fim, diretor de Redação, cargo que ocupa há 17 anos.

Para a comemoração do aniversário de 92 anos, Borges conta a história política de O Imparcial e ressalta a importância da informação para os leitores.

Jornalista Raimundo Borges. Foto: Arquivo Pessoal

A criação do jornal O Imparcial tem um viés político. Como se deu esse surgimento?
O Imparcial surgiu no Maranhão para fazer uma contraposição a dois segmentos jornalísticos que existiam na época dominados por políticos do Maranhão. Os políticos se digladiavam e cada qual tinha o seu jornal que, na época, não tinha outro meio de comunicação de massa. E esse era o instrumento da luta política.

Nessa época não tinha Lei de Imprensa, não se obedecia parâmetro de ética, todo mundo dizia o que bem entendia e assim a luta política era travada nas páginas dos jornais. E O Imparcial entrou neste meio para dar o equilíbrio, por isso a palavra ‘o imparcial’ dá sentido de equilíbrio para a informação. E para mostrar ao leitor que havia, no meio desta trincheira, um espaço para essa informação mais equilibrada. E aí surgiu O Imparcial em 1926.

Qual a importância política de O Imparcial?
Não se pode desprezar essa história de quase um século. As transformações foram acontecendo, os jornais eram tipográficos, depois linográficos, e o jornal sempre se adaptando às realidades, com um jornalismo dinâmico, equilibrado e bem apurado. Embora fosse sistema de texto bem diferente, na época, a fotografia não tinha uma visão de fotojornalismo de hoje, era mais ilustrativa do que a imagem da realidade que ele deveria expressar.

O rádio se tornou um veículo fortíssimo e houve uma corrida paralela entre a mídia de rádio e a mídia expressa. A televisão surgiu na década de 1950, mas ela não competiu com o impresso de começo, só depois que ela entrou com força até a década de 1990, com o surgimento da internet, que foi o que revolucionou.

Como foi o surgimento da Coluna Bastidores?
A Coluna surgiu no comecinho da década de 1980, quando a ditadura já estava esmorecendo diante da reação social, dos sindicatos, já se fazia greve. Em 1980, foi quando houve a grande greve em São Bernardo, pelo Lula, exatamente no 1º de maio. E o jornal se adaptando a essa realidade.

Eu comecei a escrever nesta época com aeleição geral de governador em 1982, depois da ditadura, e eu já cobria a eleição e comecei também paralelamente ao noticiário, que eu escrevia uma coluna de análise política.

Uma análise leve, rápida e objetiva de notas, com um texto analítico mais profundo na cabeça da coluna, que seria uma espécie de lide na linguagem jornalística. Depois viriam outras notas condensadíssimas como até hoje, o sistema não mudou. O modelo não mudou e apenas a dinâmica de dizer as coisas que vai mudando, sem adjetivação, direto ao ponto, com o menor espaço para dizer o maior número de informação. Essa é a regra da cartilha da Coluna Bastidores.

Como o senhor vê a repercussão da Coluna no meio da política?
O que o jornalista faz para consolidar uma posição é mais ou menos como o que qualquer outro profissional faz. Primeiro tem que ter critérios rígidos de atitude, ética e profissionalismo e você deve se fundamentar nestas questões. Pra quem faz comunicação, é ainda mais importante, pois ele escreve para centenas de pessoas que leem diariamente o que você escreve, é uma coisa muito mais abrangente, por isso a gente tem que se adaptar e acompanhar as novidades, pois a gente escreve para a mesma pessoa pouco acima do analfabetismo até quem tem o maior nível de grau universitário.

Tem que se fazer entender e acreditar. Pois atrás da notícia tem que se ter a questão da credibilidade, pois o que é mais terrível para um jornalista é não ter a credibilidade.

Como você vê a informação?
A informação é um alimento que um jornalista concede à alma do eleitor. Portanto, sempre me preocupei em não fornecer alimento estragado para quem me lê.

Como você vê a força do leitor para as mudanças?
O leitor é muito exigente naquilo que ele lê no jornal. Por exemplo, a Coluna Bastidores sempre foi na página três e teve uma ocasião em que houve uma mudança no projeto gráfico e ela foi removida do espaço direito da página para a mesma página no lado esquerdo, na parte anterior.

Por surpresa, vieram três desembargadores do Tribunal de Justiça pedir ao presidente da empresa que viesse voltar a coluna para seu espaço tradicional. Porque quando você abre o jornal no segmento da página, a primeira coisa que você viria era a Coluna, que eles gostavam de ler.

Eu me surpreendi com esta manifestação e a gente teve que atender, pois o leitor é quem manda. O nosso patrão não é quem paga diretamente o salário na Tesouraria, mas o nosso patrão é quem nos lê, nos prestigia e nos faz tornar um veículo forte.

Como o Senhor vê a importância do impresso nas próximas eleições?
Hoje, como em outras eleições passadas, vão utilizar a mídia como instrumento de luta política. Mas a diferença desta eleição ocorre porque aumentaram o número de mídias eletrônicas. Eu não teria nenhum dado científico para dizer qual a mídia mais importante, não sei se a televisão está acima ou abaixo das redes sociais, mas acredito que ela esteja até abaixo. Porque há uma abrangência maior nas redes sociais, principalmente pelo aumento no uso do telefone celular.

Fonte: O Imparcial

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