Toda trajetória política de Cafeteira e os períodos de “tapas e beijos” com Sarney

Por Raimundo Borges

Aos 93 anos, depois de quase 10 lutando contra a doença que o colocou em cadeira de rodas durante mais da metade do último mandato de senador (2006/20014), morreu em Brasília, uma das figuras mais populares da política maranhense, Epitácio Cafeteira Afonso Pereira. Nos últimos anos ele vinha lutando para viver, tendo ficando longe da vida política e social, contrariando toda a sua trajetória de vida, que começou como prefeito de São Luís, em 1965 e terminou como senador em 2014. O corpo está sendo velado será na Assembléia Legislativa e será enterrado no Cemitério do Gavião.

Epitácio Afonso Pereira nasceu em João Pessoa (PB) em 27 de junho de 1924, filho de José Justino Pereira e de Eudóxia Afonso Pereira. Mais tarde, incorporou oficialmente a seu nome o apelido de infância de “Cafeteira”, ganho na escola, depois de ter sido perguntado pelo professor qual o nome da planta que produz café. Ele levantou o braço, apressadamente, falou: “Cafeteira!” Pronto, foi o suficiente para provocar gargalhadas na sala e ganhar o apelido que acabou incorporando ao nome político.

Foi eleito prefeito de São Luís, em 1965, já na ditadura militar, depois de ter participado da eleição de deputado federal e ficado como suplente. Ao assumir por licença do titular, Cafeteira cuidou de propor uma emenda constitucional, dando  autonomia política a São Luís e outras capitais. Os prefeitos eram nomeados pelo governador. A proposta foi aprovada e ele já terminou a interinidade na Câmara como candidato a prefeito sob o lema “Prometeu e Cumpriu”, que virou marca de sua gestão na capital.

Primeiro prefeito de São Luís

Cafeteira tornou-se o primeiro prefeito eleito da história de são Luís e uma figura de forte apelo popular. No cargo, resistiu a tentativa de intervenção na prefeitura pelo então governador José Sarney, via Câmara de Vereadores. Na administração, adotou o modelo conservador, ao proibir máscara no carnaval e retirar das ruas de São Luís o bonde, que inicialmente fazia a linha entre Anil e Centro e depois ficou restrito até o bairro Filipinho. Construiu postos de saúde e o Estádio “Nhizinho Santos. “Não tinha como fazer um estádio do tamanho do “Castelão”, o dinheiro era curto, mas fiz o Nhozinho”, ironizava.  

Técnico em contabilidade, formado pela Escola Técnica de Comércio de Maceió (AL) em 1960, Cafeteira foi funcionário do Banco do Brasil, onde exerceu os cargos de subchefe de seção e de serviço, contador e inspetor, função pela qual foi aposentado, com o BB comandado pelo amigo Camilo Calazans, já como governador do Maranhão.

Em 1962 foi filiado à União Democrática Nacional (UDN), quando conquistou a suplência de deputado federal, no agrupament0 político, Oposições Coligadas, constituída por UDN, Partido Democrata Cristão (PDC), Partido Trabalhista Nacional (PTN) e Partido Republicano (PR). Como suplente, assumiu o mandato três vezes em 1963, em março de 1964 e em fevereiro/março de 1965, quando aprovou a PEC, dando autonomia às capitais.

Foi o único prefeito eleito da capital até 1965. Com a extinção dos partidos políticos pelo Ato Institucional nº 2 (27/10/1965) e a instauração do bipartidarismo, Cafeteira filiou-se ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB), partido de oposição ao regime militar instaurado no país após a vitória do movimento de 31 de março de 1964. Em 1966, a maioria dos vereadores moveu campanha para afastá-lo do cargo, devido à falta de prestação de contas do exercício anterior.

Resistência à intervenção

A proposta tinha o apoio total do governador José Sarney, que teria assinado o ato intervencionista, mas engavetado posteriormente. Na Câmara, o então vereador Luiz Rocha, líder da maioria (Arena), fazia o movimento da intervenção. Entretanto, Cafeteira passou a residir no próprio gabinete na prefeitura, onde passou mais de 90 dias, morando no Palácio La Ravardière, na companhia de uma pistola e segurança. Esses problemas acabaram provocando o seu rompimento político, no ano seguinte, com o então governador do estado José Sarney e tornando-se inimigo de fogo de Luiz Rocha que, se recusou a deixar a apoiar a candidatura dele em 1986. Em represália, Cafeteira recusou a receber a faixa das mãos de Rocha.

Piadas sobre Sarney

Em novembro de 1970 candidatou-se ao Senado pelo MDB maranhense, sendo derrotado pelos arenistas José Sarney e Alexandre Costa. Na oportunidade, confirmado o resultado das urnas, publicou carta aberta ao povo maranhense na qual se dizia descrente da política e anunciava estar deixando a vida pública, devido às supostas fraudes no processo eleitoral que teriam causado a derrota. Com este resultado, porém, tornou-se a figura mais expressiva da oposição no estado, quando criava tiradas hilárias e piadas azedas com a figura de Sarney, levando o público ao delírio nos comícios.

Diante disso, no pleito de novembro de 1974 foi o único deputado federal eleito pelo Maranhão na legenda do MDB, com 39.589 votos, assumindo o mandato em fevereiro do ano seguinte. Na Câmara, foi suplente da Comissão de Fiscalização Financeira e Tomada de Contas e integrou as comissões de Finanças, da Amazônia e da Bacia do São Francisco, além de ter sido vice-líder do MDB em 1977, em pleno período de os anos de chumbo da ditadura.

Reeleito em novembro de 1978, mais uma vez como o emedebista mais votado no Maranhão, iniciou novo período legislativo em fevereiro do ano seguinte. Foi eleito segundo-secretário da Câmara dos Deputados, cargo que ocuparia até 1981. Em outubro de 1979 apresentou no Congresso um projeto de emenda constitucional restabelecendo a completa autonomia do Poder Legislativo, retirada pelo regime militar, que só não foi aprovada porque faltaram três votos para a maioria absoluta. Com o fim do bipartidarismo em novembro de 1979, Cafeteira filiou-se ao PMDB, sucessor do MDB.

Nas eleições de novembro desse ano elegeu-se pela terceira vez consecutiva à Câmara dos Deputados, tomando posse em fevereiro de 1983. Passou a integrar, como titular, as comissões de Redação e de Segurança Nacional e, como suplente, as comissões de Fiscalização Financeira e Tomada de Contas e de Serviço Público. Em julho tornou-se presidente do diretório regional do PMDB no Maranhão, em substituição ao ex-deputado Renato Archer. Na oportunidade, aceitou se lançar candidato ao governo do estado.

Com a emenda das diretas

No final do ano, o deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) apresentou na Câmara um projeto de emenda constitucional restabelecendo eleições diretas para a presidência da República. Encampado pelas oposições, esse projeto proporcionou o desencadeamento da campanha nacional pelas diretas. Na sessão da Câmara dos Deputados do dia 25 de abril de 1984, Cafeteira votou a favor da emenda, que por falta de 22 votos não alcançou o quorum necessário à sua aprovação e que permitiria seu envio para apreciação do Senado.

Com esse resultado, ficou definido que a sucessão do então presidente João Figueiredo (1979-1985) seria mesmo decidida via eleição indireta. Para concorrer com os candidatos governistas Paulo Maluf e Flávio Marcílio, os partidos de oposição — exceto o Partido dos Trabalhadores (PT) — liderados pelo PMDB e a Frente Liberal, dissidência do Partido Democrático Social (PDS), formaram a Aliança Democrática e lançaram a candidatura do então governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, sendo vice o então senador José Sarney. No dia da convenção nacional do PMDB, em agosto de 1984, para definir a chapa Tancredo-Sarney, Cafeteira tomou conhecimento antecipado de um forte movimento parlamentar dentro do partido destinado a tumultuar a reunião. 

Primeira conversa com Sarney

O movimento era liderado pelos deputados do grupo “Só Diretas”, que eram contra a ida do PMDB ao Colégio Eleitoral e não aceitavam a chapa com a participação de Sarney, por ter sido ele ex-presidente nacional do PDS, governista. Na ocasião, Cafeteira, mesmo sendo seu desafeto, defendeu a participação de Sarney, destacando que ali não estavam em jogo “as divergências de ordem política da província, mas sim a derrubada definitiva da ditadura”. Passada a convenção, Sarney disse a Tancredo que gostaria de ter um encontro com Cafeteira, pois até então não se falavam. Cafeteira concordou com o reatamento político, mas na condição de que fosse público e com a presença da imprensa, o que acabou ocorrendo em seu gabinete dois dias após a convenção.

Na reunião do Colégio Eleitoral no dia 15 de janeiro de 1985, votou em Tancredo Neves, que derrotou o governista Paulo Maluf. No mês seguinte foi eleito terceiro-secretário da Câmara, função que desempenharia por dois anos. Doente, Tancredo foi internado na véspera de sua posse, fazendo com que Sarney assumisse o governo no dia 15 de março, interinamente, e depois da morte de Tancredo de forma definitiva, em 22 de abril.

Findo o período de governos militares, foram restabelecidas eleições diretas para as capitais e os municípios considerados áreas de segurança nacional. Diante de divergências com o PMDB em torno da escolha do candidato às eleições municipais de novembro de 1985 (o então presidente do Diretório Municipal do PMDB, Carlos Guterres, candidato que tinha o apoio de Cafeteira, fora derrotado na convenção pelo deputado Haroldo Sabóia, apoiado pelo deputado Cid Carvalho). Em julho seguinte deixou o partido e passou a apoiar o médico Jackson Lago. Lago fora seu secretário de Saúde quando prefeito de São Luís e concorria pelo PDT à prefeitura da capital de São Luís. Cafeteira filiou-se PDT, levando consigo o seu grupo político.

Volta ao PMDB

Passado o pleito de 1985, vencido por Gardênia Gonçalves, do PDS, e mulher de João Castelo, adversário de José Sarney, iniciaram-se as articulações em torno da candidatura de Cafeteira ao governo do estado. Vários peemedebistas, entre os quais oito deputados estaduais, já se movimentavam no sentido de promover seu retorno ao partido. Para facilitar os entendimentos, o novo diretório regional do PMDB, através de seu presidente Renato Archer, então ministro da Ciência e Tecnologia, mostrou-se disposto a renunciar em bloco. Cafeteira retornou ao PMDB em abril, tendo sua ficha abonada pelo presidente José Sarney. A partir de então, deu-se início à costura de uma coligação que reeditasse a Aliança Democrática no estado. Foi formada a chapa Cafeteira/João Alberto, este do Partido da Frente Liberal (PFL), com o apoio do PTB, PCB, PCdoB e PDT, entre outros. Uma coligação por demais heterogênea, mas que reunia todos os partidos contrários ao candidato do PDS, João Castelo.

De acordo com reportagem publicada pelo Jornal do Brasil em 9 de outubro de 1986, foi Sarney Filho quem convenceu o presidente José Sarney a patrocinar a formação da Aliança Democrática em torno da candidatura de Epitácio Cafeteira. Segundo o jornal, Sarney Filho teria ameaçado trocar o PFL pelo PMDB para ficar ao lado de Cafeteira. Para João Castelo e seus correligionários, este empenho pela candidatura de Cafeteira era atribuído ao interesse de Sarney Filho em governar o estado a partir de 1991.

Episódio incrível: a faixa sumiu do palácio

Nas eleições de novembro de 1986, Epitácio Cafeteira foi eleito governador do Maranhão, obtendo os 1,040 milhão de votos que lhe permitiram ostentar o maior índice proporcional (81%) de aceitação do país, contra 212, 1 mil (16,5%) de João Castelo, candidato da coligação do PDS, PL e PMB. Assumindo sua cadeira no Executivo estadual no dia 15 de março de 1987, recusou-se a receber o cargo do governador Luís Rocha porque a faixa original tinha sumido do palácio dos Leões, sede do governo, e a que receberia seria nova, confeccionada às pressas.

A transmissão do cargo só foi feita no fim da tarde, pelo então presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ricardo Murad, cunhado de Roseana Sarney, já com a faixa original, que Cafeteira havia pedido emprestado do cerimonial do Palácio para tirar um foto e distribuir no dia da posse, e resolveu escondê-la em casa. Luiz Rocha passou o governo ao sargento da PM. Que comandava a guarda do Palácio naquela manhã.

Como governador, Cafeteira nunca teve pedido de liberação de verbas negado pelo presidente José Sarney, sob intermediação de Sarney Filho. Sempre a fundo perdido, como ocorreu com o famoso Aterro do Bacanga. Também, ele fez aprovar pela Unesco a cidade de São Luís como Patrimônio cultural da Humanidade. Em 1989, diante das dificuldades enfrentadas pelo PMDB, Cafeteira demandou para PDC, por onde apoiou a candidatura de Fernando Collor, do PRN, que derrotou Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno. Folclórico, ele chegou a guarda em sua gaveta no Palácio, uma caixa de foguetes, para “soltá-los” toda vez que aparecesse alguém em seu gabinete que não levasse nenhum pedido ao governo.  

Cafeteira permaneceu à frente do governo maranhense até abril de 1990, quando se desincompatibilizou do cargo para concorrer a uma vaga no Senado, sendo eleito. O governo estadual foi ocupado pelo vice-governador João Alberto de Sousa, por força de decisão judicial, uma vez que sua posse fora questionada em função de ele ter sido eleito prefeito do município de Bacabal, em novembro de 1988, quando já era vice-governador do Maranhão. Em 1992, votou a favor do impeachment de Collor.

Novos partidos

Em 1995, Cafeteira foi para o Partido Progressista Brasileiro (PPB), resultado da fusão do PPR com o PP. Em novembro de 1995, Epitácio Cafeteira tornou-se líder do PPB no Senado. Em outubro desse ano, voltou a se candidatar ao governo do Maranhão, numa coligação comandada pelo PPB e integrada PSDB, PDT, PSB, concorrendo contra a reeleição da governadora Roseana Sarney, da coligação comandada pelo PFL. Foi derrotado por larga margem: obteve 401.439 votos (26,35% dos votos válidos), contra mais de um milhão da adversária.

Em 2006 cogitou disputar uma vaga na Câmara dos Deputados e de lançar a candidatura da filha, Janaína Cafeteira a deputada estadual. Esses seus anseios iniciais acabaram sofrendo transformações após se filiar ao PTB e decidir aliar-se à família Sarney. Em agosto de 2006, portanto, dois meses antes das disputas eleitorais, Janaina desistiu do projeto político, Cafeteira resolveu disputar o Senado, eleito com mais de um milhão de votos, na chapa de Roseana Sarney, que perdeu para Jackson Lago e depois o cassou no TSE.

Dias depois, Epitácio Cafeteira, alegando problemas de saúde, pediu afastamento da relatoria do caso Renan Calheiros. No início foi tratar uma gastroenterocolite (infecção no estômago e intestino). Logo em seguida, descobriu um higroma (acúmulo de líquido no cérebro). Por este motivo, ficou internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde passou por um procedimento cirúrgico. Recuperado e de volta às suas atividades no Senado, deixou em novembro a liderança do partido e declarou no mês seguinte que votaria a favor da prorrogação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), já que este tributo ajudava a financiar a saúde pública no Brasil. Foi o começo de sua cruzada que o afastou definitivamente da política, até a morte, no dia 13, consagrado às mães e ao fim da escravatura no Brasil.

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