Eleições e suas contradições previsíveis e insanáveis no Maranhão e no Brasil

Por Raimundo Borges

As eleições de outubro serão diferentes em tudo. Não terão um petista competitivo na disputa presidencial, o que pode empurrar o PT para vice de uma chapa de centro-esquerda, com chance de ser a do pedetista Ciro Gomes. No Maranhão, depois de meses resistindo assumir a candidatura mais arriscada de sua trajetória, Roseana Sarney, finalmente impôs as condições para não desistir na tentativa de voltar pela quinta vez a ocupar o Palácio dos Leões. E, ao mesmo tempo, salvar a oligarquia que comanda junto com o pai. Ela quer o controle do MDB estadual, partido com maior fatia do bolo do Findo Eleitoral.

Roseana Sarney (MDB) assume candidatura ao governo do MA

Depois de uma reunião “preparatória” em seu apartamento, no fim da semana passada, a ex-governadora voltou à discussão da candidatura, junto com toda a cúpula do MDB maranhense. Por coincidência, no mesmo dia em que o presidente Michel Temer anunciou a desistência de concorrer à reeleição. Ela bateu o martelo e desanuviou o ambiente de dúvida sobre sua candidatura que assustava o grupo Sarney.

Até Ricardo Murad, supostamente pré-candidato a governador pelo PRP usou redes sociais para elogiar a decisão da cunhada, com a qual já teve brigas horripilantes como em 2006. Hoje, Murad é voz presente nas discussões internas do MDB, embora se anuncie como candidato a governador pelo PRP, para cuja legenda levou a filha, deputada Andrea Murad, candidata a federal, e o genro Sousa Neto, vai atrás da renovação do mandato na Alema.

Ricardo Murad, supostamente pré-candidato a governador pelo PRP

Salvar o Maranhão?

Nem precisa dizer que o ex-presidente José Sarney, embora ausente naquele encontro em sua residência no Calhau, porém, foi a voz determinante da decisão da filha, de assumir, de uma vez por toda, a disputa do governo. Segundo Edinho Lobão, ao discursar no encontro, “essa candidatura (de Roseana) é para salvar o Maranhão.  Em 2014, por falta de um candidato do grupo Sarney, com a desistência de Luiz Fernando Silva, Edinho Lobão, que nunca disputara antes uma eleição, foi lançado de surpresa e perdeu para Flávio Dino, que ganhou no primeiro turno.

Ex-presidente José Sarney

Dá até para se entender o dilema dos Sarney. Com 88 anos de idade, ele, no entanto, parece nem pensar em assistir, no fim da vida, a derrocada definitiva de sua oligarquia, que virou histórica, muito menos pelos feitos realizados no Maranhão do que pela longevidade. Afinal de contas o grupo Sarney tornou-se símbolo de poder político e patrimonial no estado, que permanece humilhantemente como a unidade federada detentora dos piores indicadores sociais e econômicos do Brasil.

Herança inapagável

Essa condição de pobreza não parece assustar a família Sarney. Mesmo sabendo que em 2018 será uma campanha diferente, complicada, controlada ao extremo por órgãos institucionais e eles fora do governo, o grupo não imagina perder o Palácio dos Leões. O período do governo Flávio Dino no governo, sem dúvida tem sido sofrido para quem até quando perdeu a eleição para Jackson Lago em 2006, sempre conseguiu manter o poder paralelo no âmbito estadual e federal. Jackson sempre reclamou de boicotes em Brasília a recursos para sua administração que, como é sabido, acabou nas mãos de Roseana, mediante a cassação dele pela Justiça Eleitoral.

Outro fato relevante nessa fase de pré-campanha no Maranhão são as candidaturas do senador Roberto Rocha (PSDB); da ex-prefeita de Lago da Pedra, Maura Jorge (Podemos); do deputado estadual Eduardo Braide (PMN), e do ex-deputado Ricardo Murad (PRP), cunhado de Roseana. Todos eles vão buscar voto no mesmo ambiente eleitoral que renega Flávio Dino por vários motivos. São, em síntese, admiradores do sarneísmo e demonizam o tal “comunismo”.

Navegando em mar aberto

Essas quatro candidaturas não agradam Roseana Sarney que vai tentar levar a disputa para o segundo turno entre ela de Dino. Seria, então, o momento de somar todos os candidatos simpatizantes em seu palanque. De qualquer jeito, é um projeto arriscado, mas possível. Na hipótese de Roseana Sarney perder, todo o grupo liderado por ela por sofrerá o desmantelo. Esse é um dos motivos que leva o deputado Eduardo Braide se manter indeciso, enquanto aguarda desdobramento e alterações dos cenários até o prazo das convenções (de 20 de julho a 05 de agosto). 

Deputado Estadual, Eduardo Braide (PMN)

Em tese, Braide seria um forte candidato a prefeito de São Luís em 2020, levando-se em conta a votação que obteve em 2016. Sua dificuldade será ela concorrer a eleição de governador, perder e ficar sem mandato nenhum por dois anos. Na hipótese de Flávio Dino ser reeleito, ele tentará eleger o sucessor de Edivaldo Júnior com um nome que pode nem ser de político profissional, como do secretário de Educação, Felipe Camrão, um técnico talentoso e admirado.  

A outra situação é a do senador Roberto Rocha, que tem como candidato a senador o ex-governador José Reinaldo, ex-aliado de Flávio Dino, que deve usar o rompimento como bandeira de traição, se colocando como vítima. Até agora, porém, Roberto Rocha não disse quem será o segundo nome de sua chapa para o Senado, nem o vice. Mas o ex-prefeito de Imperatriz, Sebastião Madeira pode ser candidato a deputado federal ou a senador.

Roberto Rocha (PSDB)

Palanques presidenciais

Depois da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Curitiba, Flávio Dino tem demonstrando não concordar com a candidatura dele preso, como defende a direção do PT. Seria uma situação inusitada, que a própria Justiça que o mandou prender para não ser candidato, obviamente que não permitirá que Lula disputa, aproveitando brechas na legislação.

Dino, intransigente apoiador de Lula, hoje defende a união das esquerdas numa frente única em prol da candidatura do pedetista Ciro Gomes – o que acarretaria numa eventual desistência de Manuela D’Ávila, do PCdoB, que já se lançou na corrida presidencial. Nas pesquisas, ela não aparece nem com 1% de intenções de voto, enquanto a extrema-direita hoje assusta com Jair Bolsonaro ocupando a liderança das intenções de voto, quando Lula não é colocado nas pesquisas.

Ciro Gomes, pré candidato à presidência da república

Ciro Gomes, porém, tem apresentado um discurso odiento em relação ao PT, embora não seja tão cáustico com Lula. Na outra ponta, está o centro-direita se mexendo para ocupar espaço na eleição presidencial. O tucano Geraldo Alckmin percorre o Brasil como pré-candidato, num cenário em que o MDB de Michel Temer acaba de indicar o estreante em eleição, Henrique Meirelles.

O peso do preso Lula

O ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles é um técnico milionário, mas sem traquejo para uma disputa presidencial nas circunstâncias atuais. Sua candidatura é um projeto a ser construído às pressas, até ganhar competitividade e ele conseguir o milagre de provar à população que a crise econômica e social foi dissipada por suas mãos. Henrique Meirelles é o candidato do MDB e do mesmo eleitorado que lastreia Geraldo Alckmin, o que pode até facilitar a vida de um representante do centro-esquerda, como Ciro Gomes.

No Maranhão a campanha presidencial vai chegar fazendo contorcionismo. Lula, preso ou solto, terá peso considerável na eleição. Não é à toa que seu nome continua liderando as pesquisas em cenários em que poderia até vencer no primeiro turno. Sua força não vai virar pó na eleição. Geraldo Alckmin é a fina flor do eleitorado elitizado de São Paulo, sudeste e sul. Ele terá no Maranhão, o ombro de Roberto Rocha. Enquanto Bolsonaro só Maura Jorge ao seu lado; e Henrique Meirelles, Roseana Sarney. Flávio Dino aguarda o que vai acontecer com Lula, mas garante palanque para Ciro Gomes.

Presidenciável Geraldo Alckmin, do PSDB

Desde a campanha sem dinheiro empresarial interferindo no jogo do voto, comprando antecipadamente mandatos, até a união desengonçada de legendas de ideologias opostas, a previsibilidade das urnas de outubro virou o puro exercício de imaginação e de especulação. A presidência da República conta com 10 pré-candidatos, o mesmo numero que se observa no Maranhão dos pretendentes à cadeira principal do Palácio dos Leões.

Como os partidos ainda buscam formar composições para eleger o governador, senadores e os 18deputados federais e 41 estaduais, nada do que está posto até agora será o projeto que chegará às eleições. Até durante às convenções partidárias a montagem das coligações e candidaturas pode ser alterada. E normalmente ocorre no apagar das luzes. Na primeira eleição de Roseana Sarney, José Reinaldo foi definido no fim da convenção, quando o candidato a vice era Francisco Coelho, de Balsas.

Cenário desarrumado

Por falar em Zé Reinaldo, em maior de 2017, o presidente da Federação dos Municípios, Tema Cunha preparou um encontro da “gratidão”, quando reuniu em Tuntum, dezenas de prefeitos e lideranças municipais para apoiar a candidatura do deputado, ainda no PSB, para senador na chapa de Flávio Dino. Hoje, Reinaldo é pré-candidato, mas pelo PSDB do senador Roberto Rocha.

José Reinaldo pré-candidato pelo PSDB, do senador Roberto Rocha

Em 2014, o candidato do grupo Sarney foi Lobão Filho, um “arranjo” de última hora, para tapar o vácuo deixado após a desistência de Luís Fernando Silva como candidato a governador do PMDB. Toda a montagem trabalhada por Roseana Sarney, no Palácio dos Leões, para tentar fazer o sucessor, foi desmoronada e o grupo ficou sem um nome forte. Lobão Filho nunca havia disputado nem eleição de vereador. Mas saiu com a força dos Leões da Avenida Pedro II, simbolicamente “guardiões” do poder.

Comunista por conveniência

No âmbito nacional, a situação não é nada diferente. Por exemplo, o comunista histórico, Aldo Rebelo, depois de 40 anos no PCdoB, resolveu desembarcar da ideologia e aventurar uma candidatura presidencial pelo PSB. Na legenda “socialista”, não passou mais de um mês e acabou se ‘encostando’ no Solidariedade, comandado pelo deputado Paulinho da Força, o mesmo que ajudou a construir o impeachment contra Dilma Rousseff. Ele declarou lealdade canina a Eduardo cunha, então presidente da Câmara, para o que “der e vier”.

Aldo Rebelo, ex PC do B, agora presidencial pelo PSB

Aldo Rebelo, 62, que foi deputado federal por 14 anos, alcançou a Presidência da Câmara e comandou quatro ministérios nos governos dos ex-presidentes Luiz e Dilma, agora diz que o governo petista pode ter sido tudo, “menos de esquerda”. É a constatação de que ele próprio, que tanto posou de “comunista” junto do PT, também era uma farsa, a julgar pela legenda que escolheu para disputar a Presidência da República.

Tais constatações são pertinentes em época de campanha, quando cada política precisa marcar posição, encontrar espaço eleitoral e fazer proselitismo no horário gratuito de TV e rádio. No Maranhão, o governador Flávio Dino, que é chamado de comunista a todo instante pelos adversários sarneístas e até “ateu”, conhece mais os cânones da Bíblia do que muitos católicos que andam longe do livro sagrado. Dino, Também, se for disputar uma eleição sustentando a bandeira do Partidão, não se elege nem a deputado estadual.

Não foi à toa que Roseana Sarney quebrou lanças para ter o PT em duas de suas eleições, mesmo sendo a legenda que historicamente a adversária ferrenha do grupo comandado por seu pai e por ela. Em 2018, Roseana fez a mesma coisa, mas Lula não está mais com o poder de impor a posição do PT no Maranhão, atendendo apelo de José Sarney. O partido está fechado com Flávio Dino.

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