Como o incêndio no Museu Nacional foi explorado pelos dois lados do espectro político

Os bombeiros ainda não tinham conseguido controlar as chamas que atingiram o Museu Nacional na noite de domingo quando um outro tipo de incêndio começou nas redes sociais.

Poucos minutos depois das primeiras notícias sobre o fogo, que destruiu 90% dos 20 milhões de itens do museu, políticos e militantes da direita à esquerda já usavam o incidente como argumento para discussões partidárias.

A tragédia mobilizou mais de 1,6 milhão de postagens no Twitter entre as 19h de domingo e as 13h de segunda-feira, segundo dados da Sala de Democracia Digital, iniciativa da DAPP (Diretoria de Análise de Políticas Públicas) da FGV (Fundação Getúlio Vargas). Também houve uma grande atividade no Facebook, de acordo com informações do Monitor do Debate Político no Meio Digital, do professor da USP (Universidade de São Paulo) Pablo Ortellado.

A guerra de versões foi em torno da atribuição de responsabilidade pela tragédia, segundo análises das duas iniciativas de monitoramento de redes.

De um lado, pessoas criticavam o governo de Michel Temer e defensores de políticas de austeridade por reduções em verbas para cultura e educação. De outro, grupos acusavam os governos Lula e Dilma de priorizar pautas culturais que os críticos consideravam ser “ideológicas”.

Grafico
Direito de imagemFGV/DAPP Image captionAnálise da FGV registrou 1,6 milhões de posts sobre o incêndio

Segundo os analistas, a questão da preservação da cultura não era um assunto prioritário até agora nas discussões eleitorais na internet. E também não era fora dela: apenas 2 dos 13 programas dos presidenciáveis citam museus em suas propostas.

No entanto, a questão partidária começou a ser levantada pelos grupos mais polarizados logo após o incêndio, com militantes e políticos de diversos partidos criticando os adversários.

“Assim como em todos os debates, a polarização acontece quase imediatamente”, explica o linguista Lucas Calil, pesquisador da FGV DAPP e um dos que trabalharam no estudo.

Grande comoção

“O valor simbólico dessa perda é enorme, é muito traumático. É um equipamento tem uma relação direta com a história do Brasil”, diz Marco Ruediger, diretor de Análise de Políticas Públicas da DAPP-FGV. “O incêndio simbolizou para as pessoas uma falta de vontade de construir uma nação em que cultura e história são importantes.”

“As pessoas estão em choque, não apenas pelas perdas materiais da tragédia, mas porque isso é um símbolo da falência na tentativa de construir o país. A perda ali foi imensa. Os políticos vêm atrás só porque sabem que o assunto vai ter mobilização”, afirma Ruediger.

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