MULAMBOS E CALABARES

Fernando Rosa & Felipe Camarão – O candidato a vice do capitão Bolsonaro, o general Mourão, em sua mais recente aparição pública mostrou definitivamente ao que veio na campanha eleitoral. Segundo noticiou a mídia em geral, o general Mourão chamou os países emergentes de “mulambada”, em especial os africanos, asiáticos e latinos, e disse que sua “chapa” é contrária a política Sul-Sul de Lula. As esclarecedoras palavras evidenciam preconceito e ignorância geopolítica, confirmando um indisfarçável alinhamento aos interesses norte-americanos.

O que disse o general Mourão, segundo a mídia:

– “Partimos para aquela diplomacia que foi chamada de Sul-Sul, e aí nos ligamos com toda a mulambada, me perdoe o termo, existente do outro lado do oceano e do lado de cá que não resultaram em nada, só em dívidas, e estamos tomando calote”, afirmou, referindo-se à política externa dos governos petistas, que priorizou países africanos, asiáticos e sul-americanos”.

Um dos grandes acertos da política internacional do governo Lula foi, em boa hora, aprofundar relações multilaterais no âmbito Sul-Sul, ou seja, com países da África, China e Índia, além dos países da América do Sul, Central e Caribe. O Brasil é um dos principais protagonistas da criação de uma das grandes obras da moderna geopolítica mundial, o BRICS (Brasil – Rússia – Índia – China – África do Sul). Um articulação política, econômica e de mercados para além da submissão ao imperialismo norte-americano, o que incomoda o general Mourão e seus partidários, desde os tempos do governo Geisel.

Também correta e positiva para o Brasil foi a politica de integração regional construída por Lula, revertendo um clássico distanciamento do país com os vizinhos latino-americanos. Um conjunto de iniciativas que, seguindo a orientação do general Mourão, seriam revistas, colocando os países na mira do intervencionismo dos Estados Unidos, a exemplo da ameaça contra a Venezuela. A traição aos valores nacionais e das próprias FFAA de solidariedade internacional já chegou ao ponto de trazer o exército inimigo para dentro da Amazônia, com objetivo de agredir um país fronteiriço.

Vejamos, mais uma vez, o que pensava o general Ernesto Geisel, então presidente, das teses sobre a “mulambada”, na época esposadas pela turma do general Silvio Frota, que hoje tentam ressuscitar nas palavras do general Mourão:

– “O mesmo problema surgiu quando reatei as relações com Angola. A mesma história: “É um país comunista, os Estados Unidos estão subsidiando a revolução contra o governo de Angola, e nós somos solidários com os Estados Unidos!”. Respondi: “Não, neste ponto eu não sou solidário. Acho que os Estados Unidos não têm o direito de fomentar a revolução em outro país. Não concordo com este posicionamento. E tem mais: Angola é fronteira marítima com o Brasil. Nossa fronteira oriental é toda a costa oeste da África. Então, não vamos ter relações com um país fronteiriço!. Além disso, Angola é descendente de Portugal, fala como nós, a mesma língua. E há outro interesse: as perspectivas são de que o litoral angolano tenha petróleo, e nós poderemos obter suprimento em Angola”. Respondiam: “Mas o governo é comunista!”. E eu: “É, é subsidiado pela Rússia, mas a revolução que existe em Angola é subsidiada pelo americano. O americano está financiando uma revolução lá dentro!”. A Unita, até hoje, ainda é subsidiada pelo americano em armamento, em munição e dinheiro e tudo mais. “Que direito têm os Estados Unidos de intervir no país e lá provocar uma revolução?. Não temos nada com isso, não temos nada com a Unita. No passado, sempre transacionávamos com Angola, e agora temos interesse em trazer petróleo de lá”. Foi outra discussão. Eu dizia: “Vocês têm de abrir os olhos, o mundo é outro!. Vocês não podem ficar nesse círculo estreito!”. Eles engoliram a solução, mas evidentemente, resmungando.

* Ernesto Geisel, na sua biografia organizada por Maria Celina D’Araújo e Celso Castro, editada pela Fundação Getúlio Vargas.

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