José Sarney como Vitorino, Flávio Dino como Sarney

Por Raimundo Borges

Dez dias – apenas dez – separam os 7,2 milhões de maranhenses (4,5 milhões de eleitores) de sua eleição mais importante desde 1965, portanto há 53 anos. Aquela eleição também era considerada a mais importante do século 20 para o Maranhão. Com um projeto renovador e um discurso de demolidor do atraso, o jovem José Sarney, com 35 anos, abateu a oligarquia de 20 anos, comandada pelo então senador Vitorino Freire, um tenente pernambucano que apoiou o golpe getulista de 1930 e o militar de 1964.

Vitorino Freire nunca foi governador do Estado, mas de tão influente, tinha residência fixa num cômodo especial, localizado no mirante do Palácio dos Leões. De cima do gabinete palaciano, ele construiu um poderoso naco de poder e fama sobre a pobreza e o analfabetismo dos maranhenses, escorado no prestígio e na habilidade amealhada no meio militar no começo da era Vargas. Antes, Vitorino foi trazido ao Maranhão pelo interventor Martins de Almeida para ocupar a chefia de seu gabinete. Depois de uma fracassada tentativa de eleger parlamentares, no âmbito federal e estadual, Freire é chamado por Getúlio Vargas ao posto de ministro da Viação e Obras Públicas.

Pronto, era tudo que Vitorino Freire precisava. Sua influência e poder tornam-se ilimitados. Ele remete verbas ao Maranhão e nomeia aliados para cargos estratégicos. E também não estratégicos, como professor e delegado de polícia, que nem precisava ser bacharel. Vitorino Freire retorna ao estado na década de 40, a fim de articular a campanha do candidato a presidente, Eurico Gaspar Dutra, seu amigo pessoal. José Sarney era apenas um menino de calças curtas, estudante do Liceu Maranhense, depois do Colégio Maristas. E Vitorino rega seu domínio político com prurido das benesses que recebe do governo federal e mão de ferro nos cargos políticos.

Havia um vazio de liderança expressiva e ausência de um grupo político que a ele fizesse oposição. Bem articulado e estratégico dentro do principal partido nacional, o PSD, Vitorino Freire obteve, em 1945, uma consagradora vitória nas urnas fraudadas, elegendo os dois senadores e a quase totalidade da bancada federal. Com habilidade, ele controlava, inclusive, os poderes públicos e privados, como a justiça, a política, as repartições. Nomeava delegados de polícia, professores analfabetos, procuradores; elegia governadores, parlamentares e prefeitos. Exerceu tutela sobre políticos como Renato Archer, Saturnino Belo, Matos Carvalho e Eugênio de Barros. Dessa forma, exercia a “chefia” do Estado.

Figura central da política maranhense após o fim da Era Vargas, Vitorino Freire deu apoio ao Regime Militar de 1964 para conservar seu poderio. Porém, a ditadura, chamada de “Revolução Redentora” pelos militares, preferia vincular sua imagem a uma nova liderança, e o escolhido foi José Sarney, jornalista e escritor, até então filiado à UDN, deputado federal, no segundo mandato, eleito em 1962. Havia sido entre 1959 e 1960, vice-líder da UDN, identificado com a sua “ala renovadora”, posteriormente chamada de “Bossa Nova”, em

alusão ao estilo de música da mesma época. Essa ala era caracterizada por projetos políticos centristas, pautados pela doutrina católica de justiça social.

Por coincidência, a campanha de José Sarney em 1965 só era diferente nos cenários da busca de voto. O Maranhão era dominado pela “cangalha” como meio de transporte, o “voto de cabresto” de uma população majoritariamente analfabeta. Os rurais eram mimados com pares de tamanco de madeira, chamados também de chamató e recepcionados nas seções eleitorais com fartos banquetes de caldeirões de carne cozinha e a chapa da urna já devidamente marcada.

Se algum eleitor perguntasse, encabulado, por que a chapa já estava marcada com o nome dos candidatos que ele não conhecia, nem de ouvir falar, o cabo eleitoral tinha a resposta na ponta da língua: “Você não já ouviu dizer que o voto é secreto? Então, vá à urna e vote”.

Naquela eleição de 1965, o TSE fez uma “faxina” nos registros de eleitores no Maranhão: “Os resultados foram espantosos. O número total de eleitores maranhenses caiu de 192.129 para 59.975: para cada cinco eleitores verdadeiros, 11 falsos”, conta José Sarney, em artigo sobre sua vitória histórica. Também votava uma legião de defuntos, já de ossos brancos debaixo do chão.

Assim como aconteceu em 1963, com o clima tenso da eleição de José Sarney, agora também as forças federais já estão de prontidão para entrar em campo na segurança da eleição do próximo dia 7, entre Flávio Dino e Roseana Sarney. Será pura coincidência? Ou os cenários dos dois momentos históricos são idênticos até no ambiente de confronto fora da normalidade democrática? Como ocorreu 53 anos atrás, a eleição do próximo dia 7 será garantida pelas forças federais. É o clima de borrasca que prenuncia pânico até a hora do voto, entre o grupo Sarney e a coligação multipartidária de 16 legendas, liderada por Flávio Dino.

A disputa do governo do Maranhão, já dentro da ditadura de 64 – a última até a abertura “lenta e gradual” de 1982 –, Sarney enfrentou Renato Archer, da coligação PTB—PSD, depois de um longo desafio ao veto vitorinista, e Costa Rodrigues, prefeito de São Luís, candidato do governador Newton Bello. Agora, não tem mais eleitor de chamató, urna de saco, voto no “mapa da fraude”, defunto votando.

José Sarney, ex-presidente da República, ex-senador campeão na Presidência do Senado, está com 88 anos, sem mandato e sem voz altiva no Palácio dos Leões. O que está em jogo é o fim ou a sobrevivência do sarneísmo, com mais do dobro de tempo do vitorinismo.

A política chega às eleições de 2018 com personagens incrivelmente atuando em papéis trocados: José Sarney no papel de Vitorino Freire em 1965 e Flávio Dino no lugar de José Sarney. O último capítulo desse enredo emocionante só será mesmo conhecido no começo da noite do dia 7. Até lá, o Maranhão viverá um incrível ranger de dentes na disputa pelo mandato de governador, de dois senadores, 18 deputados federais e 42 deputados estaduais.

Se Dino ganhar, terá enterrado o sarneísmo e derrotado todo o seu aparato político que comanda, incluindo o de comunicação que atuou em prol da eleição de Roseana Sarney.

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