Machado de Assis: a crônica literária tecida pelo jornalismo

Antonio Carlos Lua
Até hoje, muitos escritores se perguntam se o jornalismo é um fator bom ou ruim para a literatura. O que se sabe é que – benéfica ou não – essa relação é, inegavelmente, estreita e vem movimentando algumas redações brasileiras, desde os Séculos XVIII e XIX, quando escritores de prestígio tomaram conta dos jornais e descobriram a força da imprensa como espaço público.
Na época, a união entre o jornalismo e a literatura proporcionava – como benefício aos donos de jornais – um significativo aumento na venda de periódicos, possibilitando uma diminuição dos preços, o que aumentava o número de leitores.

Em contrapartida, os escritores conquistavam notoriedade e elevavam seus nomes na medida em que os textos eram publicados com destaque na imprensa, com a união, em texto, de ferramentas literárias aliadas ao discurso jornalístico.

Machado de Assis, por exemplo, foi um dos escritores que, utilizando-se da imprensa, fez propagar suas ideias escrevendo para jornais, estreitando o foco da observação e análise crítica de seu tempo, conforme exigia a natureza das suas crônicas publicadas em jornais como o “Diário do Rio de Janeiro”, “Correio Mercantil”, “A Marmota”, “Gazeta de Holanda”, entre outros.
Unindo literatura e jornalismo em suas crônicas, ele fez algo que, para a imprensa, significou mais do que crítica ou resenha literária. Na verdade, ele guiou a literatura e elevou a qualidade da imprensa, fazendo do jornal um aparato máximo de uma revolução do conhecimento, o que ele definia como “democracia prática pela inteligência”.
O período de estabilidade, declínio e queda do Império brasileiro foi marcado pelo jornalismo literário crítico e sutil de Machado de Assis, que transformou um público de cultura de comunicação oral em leitores assíduos de jornais, abrindo uma oportunidade rara para jornalistas, num país – à época – com pouco leitores.
Embora tenha se consagrado apenas como romancista e contista, ilustrando a galeria dos grandes nomes da literatura brasileira, há de se reconhecer que Machado de Assis exerceu, também, grande influência na configuração e legitimação do jornalismo político e cultural no Brasil.
Homem de seu tempo, esteve vigorosamente envolvido com as questões que mobilizavam o jornalismo, levando o público oitocentista a se habituar a ler, pensar, refletir e agir. Fez do jornalismo sua prática de ação política. Ora se empolgava com a dialética do esclarecimento prometida pelo ideal de jornalismo, ora reprovava editoriais que enalteciam aspectos hegemônicos de uma sociedade escravocrata.
Convicto entusiasta do jornalismo, Machado de Assis acreditava no poder revolucionário da imprensa num país marcado pela escravidão. O papel social do jornalista e os seus limites éticos, que buscam o equilíbrio entre a liberdade de informar e a responsabilidade no exercício profissional, apareciam com bastante frequência em suas crônicas.
No jornal “Gazeta de Holanda”, em 1887 – época em que o escravo só era citado nos anúncios publicitários para venda ou como recompensa para quem o entregasse ao senhor – Machado de Assis teve a coragem de dar voz, em uma de suas crônicas, a um escravo de ganho, Pai Silvério, principal alvo nos debates que antecederam a Abolição da Escravatura.
Nas crônicas intituladas “O jornal e o Livro”, “O Folhetinista” e “A Reforma de Jornal” – publicadas em 1859 – ele mostrou que como afrodescendente não foi indiferente ao drama dos seus semelhantes, acreditando no poder revolucionário da imprensa contra a escravidão, o analfabetismo e a rede nefasta de privilégios provenientes de uma sociedade com estrutura no sistema feudal, onde a posição do indivíduo no meio social dependia de sua origem familiar, ou seja, quem nascia servo, morria servo.
Machado de Assis realizou, à sua maneira, um fazer jornalístico marcado pela reflexão crítica acerca da profissão, práticas que o tornaram – além de excepcional romancista e cronista – uma referência na imprensa brasileira do Século XIX.
Atento na execução dos registros jornalísticos dos fatos, Machado de Assis definia os jornais como a “república do pensamento”, revelando a figura do jornalista destemido, que não mede esforços para trazer a verdade dos fatos à tona, tornando explícitas as suas marcas interpretativas ao olhar atento da sociedade.

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