O marxismo independente do jornalista e escritor Graciliano Ramos

Antonio Carlos Lua
O relógio marcava 19h, quando, no dia 3 de março de 1936, durante a ditadura de Getúlio Vargas, um jovem tenente do Exército Brasileiro, sob as ordens do general Newton Cavalcanti, chega à casa do jornalista e escritor Graciliano Ramos, em Maceió (Alagoas), para prendê-lo, sob a acusação de suposta participação na Intentona Comunista.
De Maceió, Graciliano Ramos foi levado no porão de um navio para a temida Colônia Correcional da Ilha Grande, no interior do Estado do Rio de Janeiro, onde ficou encarcerado com outros 115 presos sofrendo humilhações até 1937, sem qualquer interrogatório no período.
Da experiência na prisão escreveu o livro “Memórias do Cárcere”, publicado, postumamente, sem o último capítulo, em 1953, relatando as situações sórdidas vividas em porões imundos, sofrendo privações provocadas por um regime ditatorial chamado de Estado Novo, período em que os jornalistas foram vítimas dos mandos e desmandos ditatoriais que assolavam o país.
Em um trecho do livro “Memórias do Cárcere”, Graciliano Ramos diz: “o mundo se tornou fascista. Num mundo assim, que futuro nos reserva? Provavelmente não há lugar para nós, somos fantasmas, rolaremos de cárcere em cárcere, findando num campo de concentração”.
Na verdade, ele ficou sem entender porque tinha sido preso como transgressor e no próprio livro “Memórias do Cárcere” pergunta a si mesmo: “Havia qualquer suspeita contra nós? Não havia. Tínhamos entrado em desordem? Não tínhamos. Éramos inimigos de barulhos? E então? Porque estávamos ali? Hem? E porque essa história de colônia correcional?” 
O mesmo questionamento ele fez ao advogado e ferrenho defensor dos direitos humanos, Sobral Pinto, que lhe respondeu que “nos seus livros – com concepção marxista, revelando críticas à mentalidade reacionária – havia razão suficiente para qualquer fascismo razoável o encarcerar”.
Suspeito ou não, o fato é que Graciliano Ramos só se livrou da prisão devido à pressão política exercida por outros escritores como José Lins do Rego, Jorge Amado e Raquel de Queiroz, e também por causa do “Prêmio Lima Barreto” que o jornalista alagoano recebeu da conceituada ‘Revista Acadêmica’, que lhe dedicou uma edição especial com treze artigos e retratos de Portinari e Adami.
O verdadeiro motivo da prisão de Graciliano Ramos foi a sua manifestação contra o absoluto domínio exercido pela classe latifundiária, relatada no livro “São Bernardo”, cujo cenário de fundo era o problema da reforma agrária, com a visão socialista do escritor emergindo das contradições como saída para os conflitos sociais e humanos retratados.
O livro revela, de forma rigorosa e direta, os conflitos entre o campo e a cidade sem se deter em nenhum deles, já que o estabelecimento de uma estrutura nova – a da cidade – não implicou na derrocada da antiga – o campo – mas antes colocou-a em situação de desequilíbrio.
O quadro brasileiro denunciado que se delineia na obra é o final do regime monárquico português e o início da República brasileira. Com a liquidação do regime monárquico por falta de apoio dos proprietários de terra com o fim da escravidão, os fundadores da República formaram um novo esquema de composição de poderes, por meio do qual aparecem os primeiros grupos empresariais capitalistas que desequilibram o reinado vigente da classe fundiária.
No entanto, fortificados pela cultura do café – a maior riqueza do país – a aristocracia volta a afirmar-se em torno da “política dos governadores”, mantendo uma estrutura colonial, apesar das concentrações urbanas, do aparecimento da classe operária e da evolução da classe média emergente.
O início da primeira guerra mundial, a importância adquirida pela indústria na economia nacional, a transformação dos quadros sociais, a politização efetiva do operariado e a quebra da bolsa de Nova York, em 1929, serviram de cenários interdependentes para o movimento tenentista que, embora com um perfil conservador, combatia a corrupção, a ação política do Governo e dos representantes das oligarquias cafeeiras (coronelismo), pedindo também reformas políticas e a moralidade no país.
Graciliano utiliza esses elementos para destacar a ascensão e o declínio de Paulo Honório, um famoso proprietário de terras que vivia de desmandos e impunidade. Ao focalizar o “coronel” sem tradição, o autor desmonta completamente a estrutura fundiária imperante no sertão nordestino, desagradando o poder político da época.
Embora ele não colocasse nenhuma bandeira política nos seus personagens, não inserindo questões normativas características do comunismo na construção de suas obras, a percepção de mundo de Graciliano Ramos se alicerçava no marxismo, embora de forma independente, como disse, em certa ocasião, o ensaísta e historiador austríaco, Otto Maria Carpeaux.
Graciliano Ramos só se tornou comunista em 1945, após a fase áurea do PCB de Luis Carlos Prestes, que vai do movimento tenentista até ao início do Estado Novo, sob a ditadura cinzenta de Getúlio Vargas. Em 1952, ele viajou para os países socialistas do Leste Europeu e registrou a experiência no livro “Viagem”.
Nunca faltou a Graciliano Ramos coragem intelectual para falar de si com segurança e desprezar aparências e ilusões literárias. Sempre colocou limites nítidos entre as coisas do mundo. Como jornalista foi sempre um apreciador da exatidão, precisão e clareza.
Meticuloso, eliminava tudo o que não era essencial no texto. Era capaz de eliminar páginas inteiras, sendo um implacável inimigo do vago e do impreciso. Odiava gorduras desnecessárias e derramamentos insuportáveis em textos jornalísticos.
Do ponto de vista formal, Graciliano Ramos – que tem o livro “Vidas Secas” como obra mais famosa – talvez seja o escritor brasileiro de linguagem mais sintética. Em seus textos enxutos, a concisão atinge seu clímax. Não há uma palavra a mais ou a menos. Trabalha a narração com a mesma mestria, tanto em primeira como em terceira pessoa.
Vítima de câncer no pulmão, Graciliano Ramos faleceu no dia 29 de março de 1953. Seu grande amigo, o escritor paraibano José Lins do Rego, o apontou como sendo o maior romancista brasileiro dizendo ser o jornalista alagoano “um escritor de vida eterna”

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