O Brasil amanheceu com um general despachando na presidência da República

Por Raimundo Borges

Próximo a completar 34 em que o general João Batista Figueiredo deixou o Palácio do Planalto pela garagem (15 de março de 1985), para não passar a faixa ao sucessor Jose Sarney, o governo federal volta às mãos de um general. Na madrugada desta segunda-feira, o presidente Jair Bolsonaro passou o comando da nação ao vice, Hamilton Mourão, general aposentado do Exército.

Bolsonaro participa de Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, onde vai debater investimentos empresariais ao Brasil, sem deixar para trás a crise com o seu filho, Flávio Bolsonaro, senador eleito do Rio de Janeiro.  O caso virou um escândalo, sobre o qual aparece a disputa explícita das duas principais emissoras de canal aberto no Brasil – Redes Globo e Recorde – um fato raro, quase inédito.

A Globo partiu para o confronto público com a Rede Record do bispo Edir Macedo. Já o governo Bolsonaro está no centro da ofensiva da emissora dos Marinho contra a concorrente. Enquanto a Globo distancia-se cada vez mais do governo bolsonarista, a Record (ao lado do SBT) tornaram-se as emissoras extraoficiais do novo regime. Domingo à noite, a repórter e apresentadora Ana Paula Araújo, com evidente autorização da cúpula da emissora, questionou durante o Fantástico a ausência de perguntas-chave na entrevista feita pela Record com Flávio Record no Domingo Espetacular minutos antes.

Mourão assume interinamente a Presidência

A assessoria de Mourão informou que ele continuará a despachar do gabinete da Vice-Presidência, que fica em um dos anexos do Palácio do Planalto, sem ocupar o gabinete de Bolsonaro, como tradicionalmente ocorre com presidentes interinos.

Estreia de um latino-americano

No evento mundial em Davos, Bolsonaro terá a oportunidade de se tornar o primeiro presidente de um país da América Latina a discursar na abertura. Ele deve aproveitar a oportunidade para demonstrar preocupação com o agravamento da crise política, social, econômica e humanitária na Venezuela, apresentar seu ponto de vista sobre globalização, tecnologia e inovação, além de demonstrar que o governo federal está aberto aos investimentos de capital estrangeiro no País.

Paulo Guedes

A fala de Bolsonaro é aguardada com expectativa, já que o presidente brasileiro é o mais novo presidente a participar do Fórum e representa uma grande mudança em relação aos últimos presidentes brasileiros que participaram do evento em Davos, como fizeram Luís Inácio Lula da Silva (PT), Dilma Rousseff (PT) e Michel Temer (MDB).

Além de Bolsonaro, no entanto, Paulo Guedes também deverá ter participação importante no Fórum Econômico Mundial de Davos. Afinal, o ministro da Economia é a palavra-final do governo em assuntos econômicos e o próprio presidente Jair Bolsonaro já declarou que “não entende nada de economia” nas várias ocasiões em que classificou Paulo Guedes como “posto Ipiranga” em alusão ao comercial de TV popular.

Segundo a Agência Brasil, o ministro da Justiça, Sérgio Moro também deverá ter a oportunidade de participar de dois painéis no evento, nos quais usará o espaço para destacar a importância do combate à corrupção para estimular o ambiente de negócios no Brasil. O ministro da Justiça e da Segurança Pública será apresentado pelo presidente Bolsonaro como o auxiliar responsável por desenvolver políticas públicas para o combate à corrupção.

A ideia de Sérgio Moro é ressaltar a necessidade de respeito à legislação em vigor e destacar que uma economia com regras claras gera resultados lucrativos. “A corrupção mina não só a confiança nos governos, mas também no mercado”, diz o discurso preparado por Moro para o evento.

Há também a previsão de que Bolsonaro se reúna com os presidentes do Peru, Martín Vizcarra; do Equador, Lenín Moreno; da Colômbia, Iván Duque; e da Costa Rica, Carlos Alvarado Quesada. Com eles, devem ser tratadas as crises na Venezuela e na Nicarágua, além dos impactos na região, como a questão migratória.

Agenda de Mourão

Já aqui no Brasil, o presidente em exercício, Hamilton Mourão, deverá se reunir com o empresário Miguel Angelo da Gama Bentes, na manhã desta segunda-feira (21), para discutir projetos na área de mineração estratégica. À tarde, Mourão tem encontros com os embaixadores da Alemanha, Georg Witschel, e Tailândia, Susarak Suparat. Reuniões que fará sem o chanceler brasileiro que, como dito, também se encontra em viagem à Europa.

Por sua vez, o presidente interno afirmou que não há previsão de despacho de nenhuma medida administrativa, como decretos ou atos normativos. Na sexta-feira (18), ele se reuniu com Bolsonaro para se inteirar sobre os trâmites do trabalho do presidente.

Na terça-feira (21), Mourão viaja ao Rio de Janeiro para participar da cerimônia de passagem de comando do Segundo Regimento da Cavalaria de Guarda. No mesmo dia, ele retorna a Brasília.

O presidente titular deve retornar ao Brasil na madrugada de sexta-feira (25). Até lá, Mourão será o presidente em exercício. Ele também está “desfalcado” do ministro da Economia, Paulo Guedes, do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e do ministro da Justiça e da Segurança Pública, Sérgio Moro, que também viajaram para o Fórum Econônimo de Davos junto a Bolsonaro.

Dessa forma, um vice-presidente voltará a comandar o Brasil desde 21 de abril de 2016, quando Michel Temer (MDB) ainda se encontrava na condição de vice de Dilma e assumiu o governo na ausência da titular que viajou para Nova Iorque para assinar o Tratado de Paris sobre Mudanças do Clima. De lá para cá já se passaram dois anos e noves meses.

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