Crendices da Sexta-feira Santa

Por Raimundo Borges

Domingo da Páscoa determina a Semana Santa, que começou no Domingo de Ramos. Hoje, sexta-feira Santa, nem consta como feriado nacional no calendário oficial. Mas depois do Natal, a Sexta-feira da Paixão tem significado muito mais profundo de pesar, de refletir e de derramar bondade entre católicos. No interior, o feriado de  hoje é de pura adoração e veneração ao Pai que nos conforta e nos guia para o bem.

As crendices de caráter religiosas atravessam séculos e não se perdem diante das evoluções sociais. A fé, que remove montanha, dura os 40 dias da quaresma e, depois, mais a Semana Santa, que termina domingo da Páscoa. Em meio a orações, rituais, teatros e outras inúmeras manifestações de adoração a Jesus Cristo, sobressaem a fé e sua força sobre nós. No interior do país cada região tem seu jeito de comemorar a Semana Santa.

Em Jaguarana (meu berço), 3º distrito de Caxias (MA), a Semana Santa era esperada com muita antecedência pelos lavradores. Sempre cheia de ritos, cantos de morte, de lágrimas e ladainhas. As superstições ainda permeiam no meio rural, o sofrimento e morte de Jesus Cristo. O Jejum da sexta-feira ainda se faz com devoção, sem café da manhã e sem merenda. Só se come no almoço e no jantar. Tudo regrado. Não falta porem, a tradicional torta de bacalhau – para quem pode. Ou de outros peixes baratos, ou até mesmo a torta de feijão amassado com abóbora e macarrão. Tudo regado ao azeite de babaçu. É recomendável que haja 13 à mesa – lembrando a última ceia de Jesus com os 12 apóstolos.

A única parte dolorosa nesse ritual é a superstição de que das 13 pessoas postadas à mesa, uma delas – a mais velha ou a mais nova – pode morrer dentro em breve. Daí vem outra lenda nada religiosa: o número 13 dá sorte para uns e azar para outros. Fora, isso, outra alusão recorrente no meio rural: na Sexta-feira Santa não se corta unha, porque “faz unheiro” ou “dá dor de dente”. Não se briga entre irmãos, porque nasce rabo. Não se toma banho porque fica cabeludo. Às crianças, nesse dia, “só a madrinha pode cortar as unhas”, para livrá-las de coisa ruim. Não se varre a casa — porque “faz mal”. É varrer os cabelos de Nosso Senhor. Não se corta nem se chupa cana — alusão talvez à cana que serviu de cetro a Cristo.

E tem mais crendices: Sexta-feira não se deve viajar — “faz mal”. É perigoso, pode ocorrer desastre. Também não se deve fazer a barba; não se deve dar sal; nem se olhar no espelho — é agouro. Quem ri na sexta-feira chora no domingo. Quem briga com irmão ou responde mal aos pais, está sujeito a “romper a aleluia” (sábado) debaixo de uma surra de cipó de tamarindo murcho. Hoje isso é crime. Tem mais: Na Sexta-Feira da Paixão — Marias não podem cortar o cabelo; não podem pentear-se, porque “Maria Santíssima não se penteou”. Foi Nossa Senhora quem disse: “Diabos carregue as Marias que pintiá os cabelo na Sexta-Feira da Paixão!”

Também na sexta-feira maior, o café será tomado amargo, porque os judeus deram a Jesus ‘fel amargurado’. Antigamente era costume na roça, trocar-se qualquer moeda por um vintém atirado ao esquife do Senhor na Sexta-Feira da Paixão. Esse vintém servia de “chamariz” à fortuna. A mesma crença continuou por muito tempo, trocando-se, porém, os vinténs nas bandejas de esmolas — expostas na igreja. Guardavam-se bem essas moedas de cobre e no ano seguinte davam-se aos [mendigos]. Era outro modo de atrair a sorte a si mesmo, porque “quem dá aos pobres, empresta a Deus”.

Portanto, hoje, se não tiver bacalhau, hoje produto exclusivo aos rico, os pobres devem substituir o pescado norueguês, pela velha “prata de casa” –, a saborosa jabiraca (traíra seca ao sal), fartamente comercializada nos mercados de São Luís. Afinal, a semana santa é tempo de refletir em Deus, na pobreza e não na ostentação gastronômica. Lembre-se que, ao escrever aos filipenses, São Paulo se refere àqueles cujo “deus é o ventre” (cf. Fl 3,19), isto é, o alimento. Se a Igreja nos aponta a gula como um vício capital é porque ela gera outros males: preguiça, comodismo, paixões, doenças, etc… comer e beber por puro prazer, desvirtua a alimentação.

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