COPA DO MUNDO DE FUTEBOL FEMININO: A TRAJETÓRIA DE POBREZA, PRECONCEITO E DESCRENÇA ANTES DE FORMIGA E MARTA

 

Quando a seleção brasileira feminina de futebol estrear nos próximos dias pelo mundial da categoria, entrará em campo com ela a sombra das pioneiras do esporte no país, que enfrentaram pobreza, descrença, machismo, ofensas e altas doses de amadorismo para pavimentar a estrada que Formiga e Marta podem trilhar hoje em terras francesas.

Mulheres que foram tachadas de criminosas a atrações circenses exclusivamente pelo desejo de algo tão simples quanto jogar bola.

“Memória é o que você escolhe esquecer, não necessariamente o que você enaltece e quer guardar. Por isso, desde 2015, com a explosão do feminismo no mundo, a gente passou a olhar para essa história de outra forma”, diz Daniela Alfonsi, antropóloga e diretora do Museu do Futebol, em São Paulo, que inaugurou em maio a exposição CONTRA-ATAQUE! As Mulheres do Futebol, que reúne material precioso dos primeiros anos e da evolução do esporte no país.

Há registros da prática do esporte entre mulheres desde o começo do século passado, mas foi na década de 1940 que a prática começou a se popularizar entre elas. Tanto que começou a incomodar.

“E, neste crescendo, dentro de um ano é provável que em todo o Brasil estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja, 200 núcleos destroçadores de 2.200 futuras mães”, escreveu o senhor José Fuzeira em carta endereçada ao então presidente Getúlio Vargas e publicada no jornal Diário da Noite em 7 de maio de 1940.

Num tempo de eugenia e preconceito, ninguém estranhou, em abril do ano seguinte, o Artigo 54 do Decreto-Lei 3.199, que determinava que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Da mesma forma como também não pareceu estranho a ninguém o fato de ele nunca ter sido efetivamente cumprido.

As senhoras boleiras de Araguari

Parte fundamental dessa resistência teve como sede uma cidade mineira quase na fronteira com Goiás. Foi em Araguari que as mulheres futebolistas brilharam em 1958.

Com a intenção de ajudar financeiramente o Grupo Escolar Visconde de Ouro Preto, que passava por dificuldades, o fundador do Araguari Futebol Clube, Ney Montes, convocou pelo rádio meninas interessadas em montar um time de futebol local.

Exposição Contra-Ataque! As mulheres no futebol, do Museu do Futebol
O uniforme foi durante décadas o que sobrava do material masculino

Entre as aprovadas estava Nádima Nascimento, então com 18 anos. “A mulher era educada para ser dona de casa e criar filhos, não tinha outra opção”, lembra a hoje costureira, aos 78 anos.

O objetivo original de Ney Montes foi atingido logo no primeiro jogo.

“Já na estreia, a renda foi espetacular, encheu de gente para nos ver, e começaram a aparecer convites para jogar em cidades vizinhas”, lembra a capitã Zalfa Nader, hoje com 73 anos. Nádima nunca esqueceu dois momentos tensos da trajetória. “Em Goiânia, as pessoas ameaçaram invadir o campo e, em Varginha, o avião, daqueles pequenos, deu uma pane.”

Zalfa prefere lembrar do jogo em Belo Horizonte, quando as equipes se apresentaram com as camisas do Atlético e do América da capital. “Quando o Atlético fez gol, as pessoas jogaram chapéus e paletós no campo, de alegria.”

O grupo das subversivas senhoras boleiras de Araguari durou cerca de um ano: no fim de 1959, tiveram convite para exibir seus talentos no México mas, por pressões afins, a lei foi cumprida e os times, proibidos.

A proibição acabou oficialmente em 1979, mas a regulamentação do futebol feminino no Brasil só chegou em março de 1983. Entre as regras, jogos de 70 minutos, sem cobrança de ingressos e a inacreditável determinação de que as jogadoras não poderiam trocar de camisa com as adversárias depois da partida.

Essa regra nasceu no ano anterior, quando, em uma uma preliminar feminina no Morumbi antes de São Paulo e Corinthians, a atriz e produtora Ruth Escobar trocou de camisa com outra jogadora.

Também em 1982 entrou em campo o que seria o maior escrete da primeira fase da história do futebol feminino brasileiro. Das areias de Copacabana, a fundação do time do Esporte Clube Radar, fundado em 1981, trazia uma figura fundamental para a primeira década do esporte, o advogado Eurico Lyra Filho.

Apaixonado pelo futebol feminino, Lyra ajudou a regulamentá-lo e, ao mesmo tempo, formou um time imbatível.

O Radar ganhou todas as seis edições da Taça Brasil, primeiro campeonato nacional da categoria, e outros seis campeonatos cariocas.

Mas Eurico era um reflexo do amadorismo da época. Todos os feitos do Radar foram conquistados sem que o dinheiro dos patrocinadores chegasse às jogadoras. Ele tinha fama de dar assistência, se preocupar, ajudar as famílias. Dinheiro, que era bom, nada.

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