CRÍTICA | TOY STORY 4: “OS SEUS PROBLEMAS SÃO MEUS TAMBÉM”

“Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso.” – Fernando Pessoa

Há algumas marcas em animações que são difíceis de esquecer e, ao mesmo tempo, podem ser duras de lembrar. Geralmente, esses carimbos emocionais são associados à morte: a mãe de Bambi (em Bambi, de 1942), Mufasa (em O Rei Leão, de 1994), Tadashi (em Operação Big Hero, de 2014) e, inclusive, naquela que é considerada por muitos a animação mais triste da história, O Túmulo dos Vagalumes (de 1988). A força que tem a ideia de não mais existir ou de ver alguém que se ama partindo rumo ao desconhecido para sempre é o que sedimenta a memória nesses casos.

Toy Story, desde 1995 (quando foi lançado o primeiro), nunca trouxe essa relação de vida e morte para um mundo concreto. Cervos e leões (falantes ou não), pessoas adultas ou crianças não correm perigo direto aqui. A criação de um universo onde é possível se importar com a vida de brinquedos, onde a identificação do espectador nasce das atitudes, ações e pensamentos de seres normalmente inanimados, é o que de mais genuíno o cinema pode oferecer. É a representação do impossível. É a visualização real de uma situação de sonho.

Cuidado! Daqui em diante esta crítica pode conter spoilers!

Um grito de socorro

Toy Story 4 parece compreender muito além de tudo o que já era explorado nos anteriores. Há uma maturidade temática e emocional que cria uma relação de proximidade justamente com a morte e, muito mais profundo: com a morte em vida. Se no anterior as cenas finais concentram o que de mais dolorido poderia surgir da relação entre os brinquedos e Andy – o fim da infância e a libertação simbólica dela para a continuidade de um ciclo –, nesse existe uma competente dispersão de situações e valores durante todo o filme.

Se a persistência de Woody por jamais deixar um brinquedo para trás é levada ao extremo, ela (a persistência) encontra uma função carregada de significados. Garfinho, nesse sentido, não é somente um talher descartável remexido e reelaborado por uma criança. Ele é, em um primeiro olhar, a materialização de uma criação; é a primeira ideia de Bonnie sobre o que é ter algo estritamente seu, saído de si; é a representação da primeira arte esboçada por uma artista; é, também, a materialização de uma resistência e da solidão – visto o grau de distanciamento em que a pequena é relegada em seu primeiro dia na escola.

Garfinho torna-se, dessa forma, o personagem mais complexo dos quatro filmes (e isso é assustador dado a existência dos demais), fato que é ajudado pelo tempo dedicado à sua história. E é interessante como a direção do estreante em longas-metragens Josh Cooley consegue dar leveza e positivamente mascarar toda a dor do roteiro de Andrew Stanton (que participou de quase tudo o que foi lançado de Toy Story) e Stephany Folsom (em sua estreia). Garfinho é a personificação do sentimento de impertencimento. Ele é, de fato, um brinquedo a partir do momento em que Bonnie o cria e o vê assim, mas é algo que foge das razões funcionais para as quais ele nasceu.

Não é a questão clichê da força de vontade ou de acreditar no que dizem, é a forma com a qual o mundo enxerga. Quando Garfinho diz que é lixo, que é descartável, que nasceu assim e que, por isso, precisa ser essa noção solidificada e embrutecida de si, ele está dando um grito de socorro. Woody enxerga pelos olhos de Bonnie: é a arte através dos olhos da artista.

Mas vai muito além. Ao passo que Woody e companhia em momento algum permitem que Garfinho pense que é um lixo – com Buzz insistindo para o ajudar nessa luta –, tudo é tratado com uma leveza fascinante por Cooley. Nada respinga no público (especialmente nas crianças) de forma direta. Há um grau claramente proposital na solidificação das várias camadas que faz de Toy Story 4 tanto uma comédia e uma aventura quanto um drama existencial.

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