A HISTÓRIA DO GAROTO QUE VENDIA AMENDOIM NO SEMÁFORO E SE TORNOU DOUTOR E CIENTISTA

 

De bebê com alto grau de subnutrição e menino vendedor de amendoim e catador de ferro velho nas ruas, que quase morreu de tuberculose, a pesquisador e professor universitário com mestrado, doutorado e pós-doutorado, este feito na Universidade de Salamanca, na Espanha.

Este é um resumo da trajetória do geógrafo José Gilberto de Souza, professor associado do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Geografia do Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), do campus de Rio Claro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), e professor do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Territorial da América Latina e Caribe, do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais, da mesma universidade, em São Paulo.

Mas, é claro, a síntese não dá conta de mostrar toda a trajetória de vida e profissional deste “sobrevivente”, como ele se define. Filho de um sapateiro e de uma empregada doméstica, Souza nasceu em Presidente Prudente, em 1964. “Minha mãe havia se desquitado do primeiro marido em 1960, com quem teve três filhos, e depois se casou com meu pai, um ‘mulato’, nascido no Crato, no Ceará”, conta.

“Com ele, teve dois filhos, eu e uma irmã. Eu nasci com um elevado grau de subnutrição, porque minha mãe havia passado fome durante a gravidez. Fui desenganado e com a possibilidade de apresentar deficiências cognitivas. Mais tarde, aos sete anos, quase morri de tuberculose.”

O segundo casamento de sua mãe também não deu certo, pois seu pai era alcoólatra.

Gilberto e suas filhas Vitória Mayumi, Raquel Tiemi e Giulia Akemi
Gilberto e suas filhas Vitória Mayumi, Raquel Tiemi e Giulia Akemi

Em 1967, a mãe de Souza se mudou com ele e duas filhas, uma do primeiro casamento, para São Vicente, com o apoio de um irmão dela. “Ela não conseguia emprego no interior, pois o conceito de desquitada era muito pesado para os anos 1960”, lembra Souza. “Na cidade do litoral, ela continuou trabalhando como empregada doméstica para criar sozinha 3 de seus 5 filhos (os menores ficaram com o pai, em Presidente Prudente). Para São Vicente, fomos minhas irmãs Marilda e Maria e eu.”

‘Você não foi feito para isso’

Lá, a família desmembrada foi morar no bairro pobre de Cidade Náutica, que tinha um dos maiores índices de criminalidade de São Vicente. “Na época, entre 1972 e 1973, com oito, nove anos, para sobreviver e ajudar minha mãe, eu fui vender amendoim aos motoristas que paravam no sinal da Ponte Pênsil, entre São Vicente e Praia Grande, e juntava ferro velho nas ruas”, recorda Souza.

Nessa época, aconteceu um episódio marcante em sua trajetória. “Muitos dos meus amigos de infância se perderam pelo caminho, ou deixaram que se perdessem. Lembro de uma vez que um deles, o Bira, chegou em casa com um monte de dinheiro. Vivíamos o início dos anos 1970, 1972, por aí, o Brasil em pleno emprego. Ninguém pedia dinheiro nas ruas. Era pouco comum. Um menino pedir era algo muito estranho e deveria ser por uma extrema necessidade.”

Diante do sucesso de Bira, no outro dia Souza combinou com ele de ir às praias de Biquinha e Gonzaguinha, marcos da fundação da primeira cidade do Brasil, São Vicente, para pedir dinheiro aos passantes. “Quando cheguei lá à tarde, por volta das 14h, senti algo estranho”, lembra.

“Era como se eu me olhasse de cima. Ainda hoje tenho essa imagem eu me vendo de cima e dizendo a mim mesmo: você não foi feito para isso. Era algo como perder a dignidade. O Bira ficou, ganhou mais dinheiro. Eu não sei o que ganhei. Tenho a impressão que adquiri consciência de minha trajetória. Mas como saber, se tinha apenas oito anos? O fato é que esta é a visão que tenho de mim mesmo, olhando do alto para mim e dizendo: não faça isso (pedir dinheiro).”

Matéria especial completa em BBC News

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