BASTIDORES | O LATIFÚNDIO E O CORDÃO UMBILICAL

 

Por Raimundo Borges*

Em meio a um verdadeiro furacão político e ambiental de dimensão planetária, a Amazônia está em todos os noticiários e pode continuar ainda por um bom tempo. Pelo menos até quando as chuvas, as Forças Armadas e os voluntários cuidarão de apagar o fogaréu das florestas. O governo Bolsonaro se viu metido na pior crise desde a posse, cujo rescaldo tem potencial para continuar fazendo estragos até fora do ambiente ecológico. O assunto Amazônia ficou tão quente que o jornalista Juan Arias, do El País contou ontem, na edição brasileira, a história de uma reportagem por ele feita, há 20 anos, como correspondente do diário espanhol.

A matéria tratava da compra ilegal pelo bilionário brasileiro Cecílio do Rego Almeida (hoje falecido) de sete milhões de hectares em Altamira, no Pará, o terceiro maior município do mundo com 159,5 mil km². Era 1989 (governo FHC) o auge da grilagem desenfreada das terras amazônicas, iniciada a partir da década de 80. Arias contou ao jornal que se tratava da aquisição de um território do tamanho da Holanda e da Bélgica juntas. Uma verdadeira loucura que transformou o empreiteiro brasileiro no maior latifundiário do planeta. 

Dentro do território transformado propriedade particular corriam nada menos que 28 rios, havia várias reservas indígenas e aldeia inteiras, “tudo adquirido por uma ninharia”, relatou o jornalista. Eram terras do Estado que nunca poderiam ter sido vendidas. “Foi preciso a intervenção do então ministro da Justiça, Renan Calheiros, do Governo de Fernando Henrique Cardoso”. O dono da imensidão andava com 14 homens armados, e o juiz do caso, era escoltado dia e noite por dois policiais.

Sendo Cecílio Rego originário de família pobre, “tornou-se bilionário fazendo obras públicas no Estado”. Nunca se soube como ele adquiriu tanta terra, na época um enorme tesouro natural, como minas de diamantes, de ouro e a maior reserva de mogno do planeta, então em sete bilhões de dólares. Depois, em contato por telefone, o latifundiário respondeu a duas perguntas chaves do jornalista: Por que comprar tenta terra? “Eu nasci lá e minha mãe enterrou o cordão umbilical naquela terra”. – E era necessário um território como a Bélgica e a Holanda juntas? “Já que decidi comprar, comprei tudo”, respondeu, candidamente. 

*Diretor de Redação de O Imparcial

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