OS MILAGRES ‘EXTRA-OFICIAIS’ DE IRMÃ DULCE, A PRIMEIRA SANTA NASCIDA NO BRASIL

Há 12 anos, Milena Vasconcelos deu à luz seu primeiro e único filho, João Victor. Na sala de parto, a cesariana foi realizada sem contratempos e, ao fim da cirurgia, mãe e bebê estavam bem.

Então, já no quarto da maternidade, teve início a sequência de eventos que Milena até hoje conta com vívidos detalhes.

Por volta das 14h do dia 21 de setembro de 2007, uma súbita palidez denunciava que algo ia mal. Era uma hemorragia incontrolável, que levou a mãe à UTI. Dali em diante, os médicos fizeram todos os procedimentos possíveis para tentar frear o sangramento, mas parecia impossível.

Com a noite já posta, Eulália Garrido, mãe de Milena, recebeu a notícia que mais temia: no que rezava a medicina, nada mais poderia ser feito para evitar a morte da filha. Eulália, então, agarrou-se a outra reza. Agarrou-se a Irmã Dulce.

Pegou um postal da freira baiana que Milena carregara consigo durante toda a gestação e o escondeu sob o travesseiro. Em seguida, falou para que todos os presentes pudessem ouvir: “Agora, quem vai operar é você, Irmã Dulce!”.

“Eu lembro bem, era como se estivesse saindo de um túnel. Eu sentia uma mão enrugada me puxando e a luz voltando. Em 15 minutos, o sangramento parou, como se nada tivesse acontecido”, conta Milena, cake designer (confeiteira) que aos 43 anos hoje vive com boa saúde junto a João Victor em Irecê, região central da Bahia.

Milena (dir.) conta que sua mãe pediu à Irmã Dulce que salvasse a vida da filha

Oficialmente, este caso não é considerado um milagre, mas está entre os milhares de relatos de graças supostamente alcançadas com a intercessão da freira que, em breve, passará a se chamar Santa Dulce dos Pobres, tornando-se assim a primeira santa (ou santo) nascida no Brasil.

Conhecida nas ruas de Salvador como o Anjo Bom da Bahia, ela terá a santidade declarada pelo Papa Francisco no Vaticano, dia 13 de outubro, em uma cerimônia marcada para as 5h (horário de Brasília).

Apenas 27 anos após a sua morte, trata-se da terceira canonização mais rápida da história da Igreja Católica. Os santos mais “ágeis” são o Papa João Paulo 2º (canonizado nove anos após a morte) e Madre Teresa de Calcultá (19 anos).

O Memorial de Irmã Dulce guarda mais de 13 mil relatos de graças alcançadas

Graças espalhadas

Para que Irmã Dulce virasse santa (o que muitos devotos já consideram faz tempo), dois milagres atribuídos a ela precisaram ser oficializados pela Igreja Católica. O primeiro foi em 2011, a partir de um caso semelhante ao de Milena. Este ano veio a revelação do segundo milagre: um homem que voltou a enxergar após 14 anos de cegueira.

Antes de serem objeto do processo que oficializou os milagres, estes dois casos chegaram às Obras Sociais Irmã Dulce (Osid) como os de outras tantas pessoas que, mesmo sem o carimbo do Vaticano, consideram-se beneficiadas por milagres.

O Memorial de Irmã Dulce guarda mais de 13 mil relatos que começaram a chegar em 1992, ano da sua morte.

O Memorial de Irmã Dulce guarda mais de 13 mil relatos de graças alcançadas

Nos armários de aço que abrigam as histórias, há casos de todos os Estados brasileiros e diversos países, como Argentina, Uruguai, Espanha, Itália e Filipinas. São cartas, bilhetes deixados no Memorial por visitantes, registros em livros de depoimento também disponíveis no Memorial, recados transcritos das redes sociais e e-mails, incluindo aqui as mensagens enviadas através de um espaço no site das Osid criado exclusivamente para este fim.

Com uma trombose cerebral, um homem dado como morto de repente se recupera. A mulher desenganada, sem explicação médica, volta ao convívio da família. A infecção generalizada da criança, de uma hora pra outra, mostra-se curada. Os nódulos na tireóide, num lapso, somem.

Histórias como essas se sucedem pasta após pasta, somando-se a fotos, cópias de exames, prontuários médicos e manuscritos mais ou menos detalhados. É como percorrer um labirinto de segredos de vida, expostos pela certeza dos remetentes de que os desfechos ali descritos só foram possíveis graças à Irmã Dulce.

“Tem pessoas que vem aqui fazer seus relatos pessoalmente. Elas sentam-se nessa sala e contam o que tem de mais íntimo, se abrem totalmente, porque realmente acreditam que foram agraciadas por um milagre. Eu me emociono todas as vezes”, diz (já emocionada) Carla Silva, museóloga que gere o arquivo de relatos das Osid.

Ela lembra que há também fatos inusitados, como de pessoas que, ao longo dos anos, ficaram um tanto chateadas por seus casos não terem virado processos de comprovação de milagre. “Tem gente que fica zangada. Quer saber por que a graça do outro foi melhor que a graça dela!”

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