EUCLIDES DA CUNHA: COMO PENSAR UM BRASIL DESPIDO DE PRECONCEITOS

Antonio Carlos Lua

O jornalismo tem a capacidade de fazer a crítica social como nenhuma ciência humana, apresentando fatos, verdades políticas e potencialidades da sociedade, ajudando-nos a pensar o Brasil, um país que nunca amadureceu nem como Nação nem como democracia, sendo algo que nunca se realiza, nunca termina, nunca se concretiza, criando, com isso, um ambiente de tensão, pesadelo e violência. 

A crítica jornalística é importante para a compreensão política e social do Brasil, país racista que recalca continuamente o próprio racismo, com efeitos perversos, colocando-se na ponta de lança da vanguarda do retrocesso, diante dos paradigmas de violência sob o qual vive sua população.

Há séculos, o jornalismo relaciona – de forma híbrida e tensa – a política, a linguagem e a materialidade, para resgatar os fatos marcantes na história do país, a exemplo do livro-reportagem ‘Os Sertões’, do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que até hoje continua fazendo perguntas ao Brasil e ao mundo.

A interpretação jornalística que Euclides da Cunha faz da identidade brasileira tornou-se, verdadeiramente, um clássico e, como tal, sofreu e sofre múltiplas interpretações. Obviamente, a cada nova interpretação, novas características de sua obra são postas em evidência. 

No livro-reportagem ‘Os Sertões’, Euclides da Cunha estabelece uma compreensão da realidade brasileira a partir da oposição entre litoral e interior. 

Para ele, dois tipos de mestiços existiam no país: o do litoral – que vivia sob uma “civilização de empréstimo” – e o do interior, que mesmo se afastando dos parâmetros tomados como certos pelo eurocentrismo científico do final do Século XIX, apresentava o que mais faltava aos brasileiros do litoral: o vínculo à terra. 

O sertanejo torna-se, antes de tudo, um forte, por estar harmonizado com o sertão, por defendê-lo na luta e não abandoná-lo na seca. Deste modo, além da oposição entre litoral e o interior, Euclides da Cunha procura interpretar o Brasil profundo a partir das lentes etnocêntricas do cientificismo de sua época. 

Ele soube, com maestria, aglutinar esteticamente a contribuição de variados conhecimentos. É neste ponto que entra sua riqueza estilística e literária.‘Os Sertões’ – que tornou-se um livro-estuário – pode ser entendida como uma resposta à questão sobre quem é o brasileiro. 

Pela lógica de Euclides da Cunha, o sertão é o cerne do interior do Brasil e a essência da Nação. Quando ele fala do jagunço, está falando, de alguma forma, de todos os habitantes do interior, dos lugares mais recônditos e inóspitos. 

Euclides da Cunha foi um homem do seu tempo. Nesse sentido, deve ser entendida a famosa referência que ele fez sobre a força “motriz da história”. 

A ideia remete a uma percepção universalista, racionalista, teleológica e ontológica do tempo histórico. Remete também à tradição iluminista, à crença da época que dizia que a História tinha um “H” maiúsculo, tinha um rumo único, etapas de desenvolvimento bem estabelecidas e universais.

As dualidades tradição/modernidade e objetividade/subjetividade não estão dissociadas na obra de Euclides da Cunha acerca da nacionalidade brasileira. Elas aparecem em dois planos: o individual e o coletivo. Ou seja, o do intelectual, do autor, e o do discurso sobre a Identidade Nacional. 

No primeiro, o individual, é fundamental perceber que Euclides da Cunha muda seu posicionamento político em relação à Guerra de Canudos, conforme ele vai se aproximando do local da Batalha e conhecendo de perto o sertanejo e o sertão. 

Seu espanto pela força indômita do jagunço, pela beleza do sertão em época de chuvas, pela diferença radical entre aquelas paragens e o centro do país vai alterando gradualmente suas certezas. 

A subjetividade de Euclides da Cunha interfere, então, profundamente na certeza do intelectual que era. No meio do caminho entre Salvador e Monte Santo, ele se ajoelha e reza num povoado simples, ao lado dos sertanejos, prenhes daquela religiosidade simples e sincrética que lhe é própria. 

Euclides da Cunha desnudou os limites da objetividade universal, e, portanto, do próprio conteúdo emancipatório da ciência, Quando afirmou que a Guerra de Canudos foi um crime, ele apontou para um problema epistemológico sério que só depois da Segunda Guerra Mundial o Ocidente começou a encarar. 

Afinal, o genocídio de Canudos foi feito em nome do Progresso Nacional, contra rebeldes monárquicos inventados, onde os liderados por Antonio Conselheiro tiveram apenas o papel de “bucha de canhão”, pois foram construídos, na época, como os inimigos do país. 

Euclides da Cunha contribuiu para o debate sobre os principais dilemas que envolvem a formação histórica do Brasil e até hoje nos leva a questionar como pensar o Brasil despido de preconceitos. 

Este ainda é o nosso desafio e foi também o do jornalista e escritor Euclides da Cunha, que fez de ‘Os Sertões’ uma obra matricial para pensarmos a cultura brasileira, inaugurando a percepção desta tensão epistemológica e cultural.

Fonte: Justiça Global

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