DAMARES ALVES: ‘TEM MULHER MAIS EMPODERADA NO BRASIL DO QUE EU?’

Damares Alves está à frente de um ministério cujo eixo principal, os direitos humanos, já foi descrito pelo presidente da República e seus filhos como “esterco da vagabundagem”.

Figura mais popular do governo entre a fatia mais pobre da população, segundo o Datafolha, a Ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos contradiz um dos principais mantras de Jair Bolsonaro e de boa parte de seu eleitorado — “direitos humanos são para humanos direitos” — ao afirmar que eles são “para todos”.

“Eles devem ter exagerado no discurso”, defende a ministra.

Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil, a ministra mostra posições mais contundentes do que a imagem às vezes caricata com que é descrita. Entre uma série de compromissos que incluíram uma audiência com o papa Francisco, em Roma, Damares diz que as travestis (usando sempre o feminino) são o público mais vulnerável entre os LGBTs e têm violência e desemprego como principais ameaças.

Damares Alves
ELISA KRIEZIS/BBC | ‘O homem que me estuprou interrompeu meu sonho de morar no céu’, diz Damares Alves à BBC News Brasil

Também diz se dedicar à segurança da população LGBT em geral, com foco especial nos grupos que estão fora dos grandes centros — ribeirinhos, indígenas e quilombolas. O discurso coaduna com a pauta do movimento LGBT, forte opositor do governo, e contradiz falas do próprio presidente, que já declarou que “gays não são semideuses” e a “maioria é fruto do consumo de drogas”.

Damares chega a fazer coro com feministas ao afirmar que mulheres são chamadas de “histéricas” quando defendem seus pontos de vista e são frequentemente interrompidas por homens ao tentar completar seus raciocínios. A desigualdade de gênero na política preocupa Damares, também pastora, pedagoga e advogada: “Nós ainda temos mais de 2 mil municípios sem uma mulher sequer na Câmara de Vereadores”.

A ênfase arrefece, no entanto, quando Damares é questionada sobre o gabinete de Bolsonaro, que tem apenas duas ministras em meio a 22 ministérios (e órgãos com status de ministério). “Ele escolheu pelo perfil técnico e o trouxe pessoas que ele conhecia”, desconversa. “Mas, no segundo escalão, ele pode escolher com mais calma.”

Damares chora mais de uma vez ao narrar, em detalhes, a série de estupros que sofreu entre os 6 e 8 anos de idade. “O homem que me estuprou interrompeu meu sonho de morar no céu”, diz, alertando que crianças alvo de abusos devem pedir ajuda e não podem se sentir culpadas.

“Tem abuso que é prazeroso para a criança, porque o pedófilo sabe como tocar, onde tocar”, diz. “Eu encontro adultos, especialmente mulheres, que se sentem culpadas por isso. Eu digo que não se sintam culpadas, eram crianças e não tinham controle sobre seus corpos.”

Todo tempo, ela reforça um compromisso pessoal com áreas remotas do país. “Eu vou para a região ribeirinha e lá a gente encontra a lenda do boto. Mas o boto que engravidava a menina era o pai, que botava a culpa no boto. O incesto é de verdade no Brasil e vamos enfrentar isso.”

As frases polêmicas que costumam gerar manchetes são abundantes. “Tem criança que conversa com duende. Tem crianças que falam com fadas. Tem crianças que falam com pôneis. Eu não posso falar com Jesus?”, diz.

Também afirma que é “a ministra mais bonita do Brasil”.

“E já estou concorrendo também a mais bonita do Mercosul, e mais bonita do Brics (grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul).”

Oscilando entre discurso hiper-religioso e posições que poderiam se associadas a vozes progressistas, Damares provoca a esquerda: “Você não pode usar certas palavras como empoderamento, porque é da esquerda. Espera aí. Tem mulher mais empoderada no Brasil do que eu? Uma menina que vem lá de baixo, que não tem sapato para estudar, vai a uma escola, sofre violência, é discriminada e chega a ser ministra? Isso é empoderamento da mulher.”

Leia os principais trechos da entrevista:

Damares Alves
ELISA KRIESIS/BBC | ‘Sou a (ministra) mais bonita do Brasil, tá? E já estou concorrendo também a mais bonita do Mercosul, a mais bonita do Brics’

BBC News Brasil – O que explica sua boa avaliação entre os pobres?

Damares Alves – A pauta. A nossa pauta é extraordinária. O ministério tem oito secretarias e todas falam diretamente com o povo. O ministério que fala diretamente com a população é o nosso. E nós estamos cuidando de crianças — todo mundo quer ver crianças bem cuidadas. Estamos enfrentando a violência contra a mulher — todo mundo quer a erradicação dela. Acredito que a popularidade é por conta da pauta e fico muito feliz com isso. Está todo mundo falando em direitos humanos no Brasil.

BBC News Brasil – Esse anúncio gera curiosidade sobre seu futuro político. Como se vê depois dessa gestão? Pensa em se candidatar a cargos públicos?

Damares Alves – Pelo amor de Deus, não. É muito trabalho. Quando acabar o meu período, tudo o que quero é uma rede na praia deitada apenas lendo as boas notícias do Brasil. Com certeza, nenhuma pretensão política. Não dá nem para pensar nisso agora. Não tenho nenhum interesse político, nenhum interesse em cargo eletivo.

BBC News Brasil – Dá para dizer que nunca vai se candidatar?

Damares Alves – Hoje eu digo nunca. Nunca, nunca, nunca, nunca. Não quero passar pela urna. Falo inclusive que a urna é muito cruel. Eu quero morrer feliz acreditando que as pessoas gostam de mim. Já pensou se você vai para a urna e descobre que as pessoas não acreditam e gostam de você? Então deixa eu morrer acreditando. Urna, jamais. Cargo eletivo, jamais.

Entrevista completa em BBC News

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