BOLSONARO QUERIA PESCAR COM QUEIROZ E TEME ‘BOMBA’ EM FLÁVIO, DIZ JOICE

Chamada de traidora por grande parte do eleitorado que a elegeu, a nova deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), agora lida com contradições e ressentimentos em torno do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e sua família.

A ex-aliada do governo, que se considerava uma filha do presidente, ganhou língua afiada para criticar o grupo. Ao mesmo tempo, evita dizer que rompeu definitivamente com o governo, à sombra da perda de mais de 730 mil seguidores nas redes, desde que brigou com a família.

Em entrevista ao UOL e à Folha, em Brasília, Joice é dura ao comentar o caso do senador Flávio Bolsonaro, seu ex-assessor Fabrício Queiroz e suas movimentações financeiras atípicas — apesar de a investigação ter sido divulgada há cerca de um ano, quando a deputada ainda era ligada à família do presidente.

Joice diz saber que Bolsonaro teme que estoure essa “bomba” no colo do Flávio, o que para ela é uma “questão de tempo”. Também afirma não colocar “um dedo mindinho no fogo” pelo senador. “Não sou hipócrita, não vou passar a mão em cabeça de corrupto”, diz.

Sobre o presidente, a deputada afirma ter ouvido de um palaciano que o que Bolsonaro mais queria, neste final de semana, era pescar com Queiroz.

Era a diversão dele no final de semana, sair para pescar com Queiroz, aquela coisa todaJoice Hasselmann, deputada federal (PSL-SP)

A relação do presidente com o Congresso também é criticada por Joice. Nesta entrevista, realizada na quarta-feira (18), a deputada diz que Bolsonaro agiu como “lobista” ao tentar indicar o filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada americana.

“Quando vi que o presidente saiu da sua estatura presidencial para lobista de um deputado, achei que era apequenado demais”, diz.

Para a congressista, Bolsonaro caminha para ser a “Dilma com o sinal trocado”, em razão do jeito agressivo de tratar ministros em reuniões oficiais, fazendo o uso de palavrões.

Em sua disputa com Eduardo pela liderança do partido na Câmara, que entrou no campo da Justiça, Joice afirma ser a verdadeira ocupante do cargo e chama o filho do presidente de “liderança zumbi”. Para ela, o perfil de Eduardo é de ativista, o que não condiz com o papel conciliador de uma liderança de partido.

Joice também revelou que prestou em depoimento ao ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes no inquérito sobre fake news. Segundo a deputada, ela foi indagada sobre acusações que fez na CPMI que trata do mesmo assunto, no Congresso, principalmente sobre o que ela chamou de “gabinete do ódio” bolsonarista.

A congressista também afirmou que é “candidatíssima” à Prefeitura de São Paulo pelo PSL em 2020 e que procura vices “outsiders” do meio político. “Vou ser a mulher da direita de fato em São Paulo”, diz a deputada, que foi a mais votada no estado, com 1 milhão de votos.

A briga com a família Bolsonaro

UOL/Folha – A senhora chegou a ser bem próxima do presidente. O que preocupa Bolsonaro nas investigações sobre o filho dele, Flávio, e o que a sra. sabe sobre o caso Queiroz?

Joice Hasselmann – O que se comenta no Palácio do Planalto, e também se falava antes na campanha para eleição, era da proximidade extrema do Queiroz com o presidente. Eles eram amigos de longa data. Inclusive um dos atuais ministros, que eu vou reservar o nome, sempre dizia para mim “pô, tudo que o presidente queria neste final de semana era pescar com Queiroz”, que era a diversão dele no final de semana. Sair para pescar com Queiroz, aquela coisa toda.

O presidente teme claramente que estoure essa bomba no colo do Flávio Bolsonaro, o que para mim é uma questão de tempo, porque me parece óbvio o que está acontecendo

A sra. acha que o presidente sabia da questão da rachadinha?

Não posso afirmar que estava acontecendo. O que estou dizendo é que as investigações apontam que sim, que tem cara, cheiro e jeito. Quanto mais o Ministério Público se aprofunda nisso, ou a polícia, mais indícios de que realmente aconteceu aparecem.

Cheguei a defender uma época, dentro do Palácio, que o Flávio Bolsonaro se afastasse e pudesse trabalhar na comprovação de sua inocência. Como é que um assessor consegue isso, movimentar tanto dinheiro?

Eu não coloco um dedo mindinho no fogo pelo Flávio, nesse caso. Não sou hipócrita, não vou passar a mão em cabeça de corrupto. Não tenho bandido de estimação

A sra. se arrepende de algo na briga com a família?

Não me arrependo porque eu não traí as minhas bandeiras e o que prometi ao povo brasileiro. Não fui eu quem abandonou o presidente Bolsonaro. Foi ele que abandonou muitos que lutaram fielmente por ele para que nós pudéssemos fazer um país melhor.

Posso dar uma lista infinita de pessoas, [Carlos Alberto] Santos Cruz, general [Luiz Eduardo] Ramos, [Hamilton] Mourão, [Gustavo] Bebianno. Pessoas que foram fiéis, usadas e descartadas. Eu me mantive fiel o tempo todo. Nunca prejudiquei o presidente.

A maioria das crises que aconteceram entre os Poderes, e mesmo dentro do Palácio, foi criada por um dos filhos. Ou filho da rachadinha, ou filho do Twitter, que ficava xingando todo mundo, Rodrigo Maia [DEM-RJ, presidente da Câmara], Davi Alcolumbre [DEM-AP, presidente do Senado].

Qual foi o ponto da sua ruptura com os filhos do presidente?

Quando a coisa começou a ir para um tráfico de influência do próprio presidente para fazer o filho líder do partido, uma coisa tão pequenininha. Ele mesmo ligando, colocando os ministros para ligar, para dizer que vai cortar os cargos de quem não assinar a lista, ou espaços dentro do governo.

Quando vi que o presidente saiu da sua estatura presidencial para lobista de um deputado, achei que era apequenado demais. Não ia participar desta ação. A instituição Presidência da República tem que ser preservada, apesar de quem está lá.

Decepção com Bolsonaro

A sra. diria que se decepcionou com o presidente?

Sim. Um pouco do caráter, do não cumprimento de palavra e do desejo de sufocar qualquer um que tenha brilho próprio. Sei que ele é muito influenciado por aquele gabinete do ódio, pelos filhos, mas ele também é responsável.

A sensação que dá é que, quando o presidente começou, ele se sentia menor que a cadeira. O tempo foi passando, e ele está se achando maior. Isso é uma coisa muito ruim e até perigosa, a ponto de eu ver em reuniões ele bater na mesa, falar palavrões. Alguns ministros ficaram constrangidos. Lamentavelmente, me lembra um pouco o comportamento da Dilma.

A sra. diria que o Bolsonaro é a Dilma com o sinal trocado?

Infelizmente, sim. Ele está caminhando para isso e eu espero que ele conserte, acho que dá para consertar. Se ele ouvir, se ele apreciar de fato a democracia, se ele entender que divergir, que aconselhar, não é declarar guerra.

O presidente tem algum acesso ao chamado “gabinete do ódio”?

Tem, mas não sei se ele tem a noção de todo o mal que eles causam. Vou dar um exemplo claro do posicionamento do presidente. Não é uma questão de rede social. Na posse, por exemplo, fui a favor, e o ministro Bebianno também, de convidarmos todos os chefes de Estado, ainda que eles não viessem.

Essa turma mais ideológica, que estimula o ódio disse “não, ninguém que é de uma linha ideológica muito diferente da gente vai ser convidado”. Isso é um absurdo, é o presidente do país, não é o homem Jair Bolsonaro. Então, eu fui contra alguns discursos agressivos e que essa turma ficava estimulando, sabe quando você pega um pitbull bravo e fica assim “pega, pega, pega”, é assim que eles fazem.

E ele pega?

Pega. Isso é inadmissível. É uma desgraça para o país esse gabinete do ódio, tem que desmontar esse negócio, começar tudo de novo. O presidente tem a chance de, na virada de ano, dar um chacoalhão. Limpa o Palácio das figuras que estimulam o ódio, que estimulam ele a ser cada vez mais grosseiro, truculento, agredir pessoas como [Michelle] Bachelet.

Isso não faz parte da essência dele?

Faz. Mas qual é o papel do bom assessor? Vem cá, presidente, não fala isso porque vai dar problema. Era o que eu fazia. Não fala isso que você me prejudica nas articulações no Congresso. Não deixa os filhos baterem no Rodrigo Maia.

Como vê as críticas de que a senhora só começou a agir quando doeu na própria pele?

Ficou meio assim estupefata. É tão maluca essa crítica. É óbvio que eu, e qualquer criatura nesse mundo, faria a mesma coisa. Sou deputada, não sou polícia, nem Ministério Público. Eu iria largar o meu mandato, a Previdência, para sair investigando uma coisa que falavam que existia, mas eu não tinha tido acesso? Isso é hipócrita.

Mas não é investigar. É ir contra os ataques.

Eu sempre fui contra os ataques. Quem fala ou é mal informado ou é hipócrita. Basta um Google no meu nome à época que esses ministros foram fritos e todos vão ver que eu saí em defesa deles. Briguei com o presidente da República por causa de Santos Cruz, disse o quanto estava errando. É óbvio que, se me jogam na jaula dos leões, tenho que me defender.

“Gabiente do ódio”

A sra. entregou provas a alguma outra autoridade além da CPMI?

Entreguei para o Supremo, na semana que passou. Fui ouvida por um grupo que está acompanhando o processo, as investigações de fake news e de ameaças contra o ministro do Supremo. Pelo que eu saiba, vão investigar.

Meu depoimento foi sigiloso, então não posso entrar no mérito. Eles se interessaram por todo o processo de como cheguei até o gabinete do ódio e como era o trâmite e como consegui chegar naqueles dados todos.

Mais em Uol

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.