O Brasil fica no rabo da fila. Até quando?

Por Raimundo Borges

Queira Deus que o réveillon da noite passada não traga para os brasileiros uma amarga ressaca de infectados pelo coronavírus, cuja vacinação em massa ainda prossegue sem data definitiva. Como se fosse o mau agouro, na passagem do ano, o mundo viu, apavorado, o recorde de mortes em um só dia: 15,5 mil pessoas. Espantados, o Reino Unido, União Europeia e Estados Unidos estão numa desesperada corrida por vacinal, como única “salvação” para os novos picos de contágio e morte que estão enfrentando.

Enquanto isso, laboratório detecta primeiros casos da nova variante do coronavírus em São Paulo. Vírus é da mesma ‘família’ que surgiu no Reino Unido. Dois pacientes tiveram a nova variante. Preocupação é que os testes atuais possam apresentar falsos negativos. A variante, chamada de B.1.1.7, já foi registrada em pelo menos outros 17 países. Ela tem mutações que afetam a maneira como o vírus se fixa nas células humanas e é 56% mais contagiosa.

Reprodução em 3D do modelo do novo coronavírus (Sars-CoV-2) criada pela Visual Science. — Foto: Reprodução/Visual Science

Mau exemplo

Essa informação não poderia ser pior para o mundo e o Brasil em particular, no momento em que não tem sido fácil convencer as pessoas a evitar aglomerações. Mas o réveillon parecia, em algumas cidades que a pandemia já acabou. Mesmo não havendo evidências de que a variante provoque casos mais graves ou com maior índice de mortes, mas por si só a cepa virou uma preocupação planetária. No Reino Unido, ela já representa mais de 50% dos novos casos diagnosticados, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Como já de costume, na quarta-feira passada, como se nada demais estivesse ocorrendo com a pandemia, o presidente Jair Bolsonaro foi à Praia Grande, no litoral de São Paulo, fazer política, exibindo-se sem máscara e fazendo aglomeração, como quem, de forma indireta, fizesse convite a quem quisesse descumprir o fechamento daqueles espaços de lazer pelo governo João Doria, hoje seu maior iniimigo político.

Bolsonaro parou na Praia do Forte, em Praia Grande, para cumprimentar população — Foto: Reprodução/Facebook

 

Na sexta-feira, o gráfico da Universidade John Hopkins, mostrava o maior número de mortes por Covid 19 desde que a pandemia se iniciou: 15.518 em um dia.

O Reino Unido bateu recorde de infecções diárias: 51 mil, quase um em cada mil britânicos adquirindo a doença em um dia. O NHS, maior sistema público de saúde do mundo, está entrando em colapso, com pacientes sendo atendido dentro de ambulâncias estacionadas diante de hospitais. Os alemães registraram o maior número de óbitos diários, 1.244, o que seria o mesmo que três mil num único dia, comparado à nossa população.

Tudo é correria

Porém, nada do que está ocorrendo no outro lado do Oceano Atlântico parece incomodar o presidente do Brasil, maior país da América Latina. É claro que a pressão por devorar toda a produção de vacinas vai se tornar irresistível. Será que alguém por aqui acha crível que a “vacina de Oxford”, na hora de destinar-se sua produção, vai dar prioridade ao Brasil com seus vizinhos de bolsos abertos, querendo arrematar o que estiver disponível numa disputa mundial, pagando até mais?

O caso é tão grave que a tal vacina da Oxford foi liberada ao toque de caixa e sem resultados completos para aplicação no Reino Unido, que já soma 88 mil mortes (equivalentes a umas 260 mil, aqui). E tudo às pressas, já está na terceira fase de imunização em massa. Se Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello acham que os f, pois as esperanças. A fila anda e estamos ficando cada vez mais no rabo dela.

Vade-retro

Pois é. Ufa! Acabou 2020. O ano que provocou o maior desordenamento da humanidade nos últimos séculos. Desde fevereiro, os líderes mundiais e cientistas de todas as gradações tentam buscar respostas e compreender no âmbito das ciências sociais, biologia, política, medicina, economia, matemática e tudo que disser respeito ao mundo moderno diante do impacto trazido pelo coronavírus. Chegou-se a dezembro com alguns países já aplicando as vacinas feitas às correrias como nunca se viu no passado. Pelo coronavírus nunca viu tanta exigência das ciências para tomar decisões definitivas em tão pouco tempo. A humanidade não teve nem como formar pactos históricos entre países nessa guerra sanitária.

Porque tudo é feito com urgência histórica. É cada nação tentando fazer o enfrentamento da melhor forma possível. Procura-se agir com rapidez, inclusive sobre as condições de miséria que se agravou em meio à pandemia. O verbo pensar foi substituído pelo verbo agir. Porém em meio à desordem sanitária, percebeu-se que o egoísmo dos ricos produziu momentos emocionante solidariedade nunca vista.

A ciência “bombou”

Os cientistas tiraram tudo o que foi possível de suas ferramentas de trabalho para combater o inimigo planetário e mortífero: a covid19. Todo o esforço para impedir que a desordem sanitária persista por mais tempo foi colocado em ações isoladas e compartilhadas. A humanidade teve que – quem diria – reaprender tudo que lhe permita ter vida melhor. Como por exemplo, o simples atos de lavar as mãos, ou se portar numa fila sem precisar se enroscar na pessoa da frente.

A solidariedade extrapolou fronteiras e condições sociais. Mesmo com tudo isso, 2020 foi um ano que não deixa saudade. Mas deixa lembranças profundas. Deixa também lições que permanecerão, em meio a tristeza, o luto e perda de vidas e materiais. Fica também a sensação de vitória e conquistas inapagáveis.

Vitória para quem sobreviveu e para quem aprendeu, como os cientistas e os médicos e enfermeiros da linha de frente nas UTIs. Foi vitória para quem perdeu a esperança e venceu. Vitória para os políticos que souberam lidar e liderar na crise sanitária para salvar muitas vidas. Vitória para os idosos, considerados grupos de risco, mas acabaram contando a história de seus temores. Vitória dos meios de comunicação que souberam cumprir o papel de bem informar com responsabilidade, cada etapa do avanço e apontar caminhos baseados no que a ciência prega com remédio.

Amortecedor da fome

O Brasil viveu, entre extremos: a pandemia do coronavírus prenunciava outro inimigo invisível – a fome em larga escala. A devastação das florestas e o desmantelo da economia dividiram as ações do mundo, além da dramática situação da pobreza em escala alarmante. O auxílio emergencial, inegavelmente, foi o amortecedor das tensões sociais, pondo comida na mesa dos desempregados, dos aflitos em geral.

A ajuda financeira, sem contrapartida alguma permitiu o lumiar para o sistema de produção econômica que, apesar da tragédia, sinaliza um ano de 2021 bem melhor que esse ano demolidor que se foi. É com o novo que o mundo vai adotar a mesma pressa para se reinventar na economia e no combate ao coronavírus, para também se erguer mais versátil, mais humanizado, mais solidário e tornar-se menos desigual entre a extrema-riqueza e a extrema-miséria.

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