Um jornalista em guerra com o seu tempo

Antonio Carlos Lua*

No dia 13 de março de 1888, a Princesa Isabel se preparava para assinar, em praça pública, a Lei Áurea, instituindo a Abolição da Escravatura. Entre as pessoas que acompanhavam o ato estava o menino negro Lima Barreto que, aniversariando naquela data, olhava uma multidão de escravos aguardando a liberdade. Anos depois, essas recordações marcaram a sua obra como jornalista e escritor, quando ele se contrapôs à versão da “história oficial”, afirmando que, mais uma vez, os negros foram objetos, e não sujeitos, de sua própria história, quando uma “bondosa” princesa os libertou da escravidão.

Como jornalista e escritor, Lima Barreto mostrou que a verdadeira história brasileira inclui séculos de lutas pela liberdade, com milhares de quilombos colocados em pé contra a tirania escravocrata. Na sua heroica e ininterrupta luta, deu uma contribuição fundamental à literatura e à imprensa. Denunciou as injustiças sociais e apontou as dificuldades das primeiras décadas da Primeira República.

Na sua militância na imprensa, dizia sempre que o jornalismo, pelas exigências do imediatismo, jamais poderia estar calcado na superficialidade. A notícia – afirmava ele – é um produto que, da mesma forma que o pão comprado diariamente na padaria, necessita estar com todo frescor que se exige ou que se espera, com o jornalista cartografando o dia a dia, destrinchando-o para o leitor sequioso da realidade.

Com relação à literatura, Lima Barreto falava que sua missão era fazer as almas se comunicarem umas com as outras, contribuindo para o perfeito entendimento entre elas, ligando-as mais fortemente, reforçando, assim, a solidariedade humana e ajudando as pessoas a se entenderem melhor no único intuito de sua felicidade. O ponto intermediário entre o escritor e o jornalista drenou e selecionou as marcas da trajetória de Lima Barreto, cuja obra é indispensável a quem se propõe estudar o jornalismo no Brasil na Primeira República.

Com as barreiras do preconceito racial e da falta de reconhecimento literário, Lima Barreto colocou em seus ombros o peso da humanidade, fardo que os jornalistas e escritores são obrigados a carregar diante dos incontáveis desafios. Como jornalista, Lima Barreto procurou sentir o que realmente se desenhava na alma brasileira, estendendo seu olhar perspicaz sobre tudo que afetava a sociedade.

O jornalismo e a literatura se entrelaçaram na vida de Lima Barreto. Ele percebeu que mesmo que o jornalismo e a literatura tivessem alguns pontos de bifurcação – criando afluentes que originam áreas que lhe são próprias – era impossível ignorar suas ligações.

Os livros do antigo subversor e outsider Lima Barreto são bastante procurados em livrarias e bibliotecas, principalmente “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, romance que transcende o âmbito estritamente literário, sendo uma obra indispensável para o Brasil compreender a si mesmo. A obra fez Lima Barreto ser bastante discutido e celebrado como “redescobridor” do país no ano 2000, por ocasião da comemoração dos 500 anos do “descobrimento” do Brasil pelo navegador português Pedro Álvares Cabral. O romance – publicado em série no folhetim do ‘Jornal do Commercio’ – mal foi levado em consideração pela crítica, recebendo, porém, aprovação unânime, em 1915, ao ser lançado como livro.

O primeiro livro de Lima Barreto – “Memórias do Escrivão Isaías Caminha” – também é uma obra marcante e traça uma radiografia da sociedade brasileira, com um detalhado quadro do jornalismo e de suas reverberações na vida das pessoas. O romance é uma passarela na qual desfilam os mais variados tipos envolvidos com a prática jornalística. “Memórias do Escrivão Isaías Caminha” mostra a rapidez de pensamento de Lima Barreto como escritor e como jornalista. Aliás, a palavra jornalista é a que define a sua profissão no registro de entrada no Hospício Nacional do Rio de Janeiro, em 1919, quando foi internado para tratamento em decorrência do alcoolismo.

Lima Barreto sempre criticou o racismo e as ideologias dominantes, como o positivismo de Augusto Comte, inspirador da República dos marechais e inscrito até hoje no lema “Ordem e Progresso” da bandeira brasileira. Se posicionou contra os valores da classe dominante e tinha o entendimento de que literatura devia ser sincera, dando destaque aos problemas humanos e sociais, trazendo ideias, concepções de mundo. No seu rico repertório de crônicas e artigos jornalísticos, nunca escondeu sua classe, sua cor, sua origem, enfrentando todas as adversidades colocadas em seu caminho.

Foi um jornalista em guerra com o seu tempo, enxergando melancolicamente longe. Com suas convicções e sentimentos atacava a corrupção, batia no conservadorismo dos jornais e clamava por uma literatura de combate que incomodasse os poderosos. Não se censurava e agia sempre pelo coração, por impulso, por emoção, por vocação, sendo sempre direto e implicante, não deixando escapar nenhuma oportunidade de denunciar os desmandos sociais.

*Jornalista

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