Centrão se une a Bolsonaro e deixa esquerda no vácuo

Por Raimundo Borges

Tudo ou quase tudo na política tem duas lógicas: uma de passar à população o que está à vista nas decisões e atos, a outra é deixar o público sem nada entender o que os líderes tramam, ou articulam entre quatro paredes. O furacão da eleição do Congresso que elegeu dois legítimos representantes do Centrão – Artur Lira na Câmara e Rodrigo Pacheco no Senado – jogou Jair Bolsonaro num colchão de plumas no qual ele, previsivelmente, não terá dor de cabeça na disputa presidencial de 2022. Com a jogada do Congresso, ele deixou os opositores atordoados e sem um líder nacional comandando a tropa.

Na política é assim. Ou se joga para ganhar ou se vai pro banco de reserva. Apenas raras exceções confirmam a regra da lógica que determina o comportamento simbiótico entre as administrações públicas e seus comandantes. É uma coisa interagindo com a outra. Como quem está no comando são os políticos, a lógica das gestões é, por extensão, determinada pela lógica da política. Não se trata de uma jabuticaba. É assim que funciona no Centrão, nos dois principais partidos americanos e em todo o mundo.

Bolsonaro com os presidentes da câmara e senado, Artur Lira e Rodrigo Pacheco

Aperreados, os partidos de esquerda no Brasil já procuram de adaptar à nova realidade em que o centro e a direita se entendem e se juntam para governar. Enquanto isso, Bolsonaro deita e rola. Falando para sua fiel claque o que lhe vem no coco, obrigando a grande mídia – querendo ou não – a também ouvi-lo e se transformar em porta-voz de seus recados, principalmente em que esbordoou a própria imprensa.

Oposição não aprende

O curioso é que a oposição, que tenta cavar um precipício em volta de Bolsonaro, desta vez apoiado pela velha mídia conservadora descontente com o Planalto, não consegue sair da superfície do chão fofo. Faz-se desentendida que o buraco é mais embaixo. Sem conseguir ao menos imitar o que faz o Centrão em décadas seguidas, a esquerda briga mais entre si do que no flanco inimigo.

Enquanto isso, os partidos conservadores de direita e centro-direita sob o guarda-chuva do Planalto dão a receita de como se adaptar a cada situação adversa e vencer eleição no Brasil. Incrivelmente, a oposição não aprende. Assim, o fosso que a esquerda que tenta abrir para jogar Bolsonaro, pode acabar servindo para enterrá-la, diante das ambições pessoais de cada partido. Não sem motivo, os partidos de esquerda veem sofrendo uma corrosão perigosa, enquanto os que eram nanicos estão avançando nos plenários do Congresso, nos governos estaduais, nas assembleias legislativas, prefeituras e câmaras municipais.

O tempo e o vento

O Congresso hoje é resultado da estratégia bem construída pelos partidos agregados ao Centrão. Eles vicejam vigorosos a cada eleição e deixam as esquerdas catando farelo no mesmo terreiro eleitoral. Flávio Dino gastou em 2020 um tempão e muita saliva, falando para plateias de todos os matizes ideológicos, tentando fincar a construção de uma frente política pactuada com o objetivo de contrapor ao bolsonarismo.

Em sua cruzada, Dino fez reuniões com os ex-presidentes da República (FHC, José Sarney, Lula, Dilma), com Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, então comandantes do Congresso; lideranças partidárias, governadores e empresários, mas o que colheu politicamente não agregou nem a esquerda, nem animou os centristas em torno da proposta de uma candidatura capaz de enfrentar Bolsonaro em 2022. Qualquer nome que tenha força para um embate que já se prenuncia ser nada fácil.

Pernóstico

Como Dino é governador do Maranhão, estado sem expressão nacional, filiado ao PCdoB, partido estigmatizado pela direita e as elites que colocaram Bolsonaro no poder. Ele vê agora o PT igual ao que nele militou antes de ser juiz federal. Os partidos de esquerda só pensam desde uma simples eleição municipal até a geral com o Planalto no jogo. E ponto final. O PT, que passou 14 anos na Presidência da República, jamais abandona a ideia de voltar para a cadeira da qual o Centrão derrubou Dilma Rousseff em 2016. E sempre seu plano A chama-se Luiz Inácio Lula da Silva. E o plano B é Fernando Haddad.

Para as eleições de 2022, no PT, o plano A chama-se Luiz Inácio Lula da Silva e o plano B é Fernando Haddad

Os petistas nem se dispõem a debater um plano alternativo com as esquerdas, por entender, na sua arrogância nativa, que a esquerda é o PT, o resto é farelo. Tenta derrubar a na justiça a inelegibilidade de Lula, esquecendo-se de que foi no mesmo Judiciário que ele foi cassado da eleição de 2018. Já o PDT, por sua vez, fica na lógica de que, caso Lula continue bloqueado de urna em 2022, Ciro Gomes ocupará o espaço. Mas Ciro tem marca da desagregação, é personalista, valentão e língua descontrolada.

Por essa e outras é que Flávio Dino vai percebendo que seu projeto de união nacional para enfrentar Bolsonaro fica cada dia mais longe de se tornar realidade. Agora, com o Centrão alinhado com o Planalto e seus penduricalhos, Bolsonaro vai se impor, sem medo de revidar ataques de esquerdistas que o chamam de “facínora”, com o “gentil” convite para “um encontro de em 2022”.

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