A pandemia aumenta o choro do Pierrot

Renato Dionísio*

Com certeza você conhece “moro num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, mas que beleza, em fevereiro, tem carnaval”, lançada por Jorge Ben Jor em 1969, e companheira inseparável do imaginário poético de nosso povo. O poeta, dentre tantos, faz referência a uma manifestação de múltiplas origens e datas, apenas é consensual, o fato dela surgir na idade média, em terras europeias.

Em nosso país, com certeza, acompanhando a corte imperial com seus artistas, bobos e bufões, chega o carnaval, claro, que não na forma que o conhecemos, fruto da influência e imaginação criativa de nossa gente. A contribuição que vai do intelectual ao popular do divino ao profano, transformou esta na maior manifestação cultural de nosso País e produziu o maior espetáculo de rua da terra, capaz inclusive, de influenciar seus criadores de além-mar, com nosso jeito e forma de expressá-lo.

Esta expressão toma novos vultos, sobretudo a partir da década de 70, com a criação das Super Escolas de Samba & S.A, Joaozinho Trinta, à frente, e deixam de ser uma despesa para ser um investimento que produziria, segundo estimativas, a vultosa soma de 8,1 bilhão de reais em arrecadação ao país. Geraria 25.000 empregos diretos. Atrairia aproximadamente 4 milhões de turistas e levaria a uma ocupação quase total da rede hoteleira.

Se posso precisar que o Maranhão foi fundado em 1612, o mesmo dado não me é permitido em relação ao carnaval, entretanto a historiografia, fartamente nos informa que esta manifestação já foi considerada a terceira mais importante entre suas congêneres brasileiras. Tendo alcançado seu pleno desenvolvimento no século XX, com a criação dos bailes populares, dos bailes de máscara e a fundação dos clubes sociais. A estes, posteriormente se juntariam em importância o desfile das escolas de samba, o carnaval da Madre Deus e mais recentemente o carnaval da Beira Mar.

É inédito o fato de que não teremos a festa neste ano. Jamais em tempo algum fato semelhante se registra. Desta forma sou forçado a cantar “este ano não vai ser igual àquele que passou” e o que nem começou, jamais pode acabar na quarta-feira. Não tendo começado, mesmo assim, seus amantes, receberão em plena quaresma os dons do mistério de nascer, morrer para renascer no ano de vinte e dois, com o humor, riso, alegria e comicidade de seus foliões, bobos e bufões, ainda mais fortes e mais alegres do que nunca.

Meu coração em choro tenta acalmar a minha alma foliã, depois de quase 60 anos cantarei “eu não brinquei você também não brincou” sentirei falta do desfile de minha querida Favela do Samba. Não estarei, juro por vontade alheia, nas bandas e fanfarras que povoam as ruas e ladeiras desta mágica cidade. Minha Clarinha com Mateus, meus netos, ficarão privados de jogar maizena, até que meus cabelos já embranquecidos atinjam a cor da neve. Chorarei a dor da perda, na alegria de que, ao menos neste caso, “o mal vem para o bem”.

A decisão cientificamente provada e justa, prolatada pelos poderes constituídos, se embasa num descomunal sofrimento que arrasta nosso País a longos e dolorosos meses. A doença Conhecida pelo o nome de COVID19, embora de origem desconhecida, mas com a capacidade de se reinventar em novas cepas, fato gerador de inseguranças, foi capaz de produzir uma pandemia que vitimou dezenas de milhões, mundo afora e entre nós, ceifou a vida de mais de 230 mil nacionais. Situação que obrigou quem de direito, independente de seus gostos ou desejos, decidir pelo adiamento da festa.

Por ironia do destino, faço o registro de um utensílio que serve de elo entre a proibição e a folia. Refiro-me a máscara, corria o ano de 1965 e jocosamente se cantava nas ruas de São Luís “cafeteira não quer máscara neste carnaval e aí tem muita gente que vai ficar se dando mal”, marcha de autoria do maestro João Carlos, pai de nossa Alcione. Se naqueles idos o problema era tirar a máscara, hoje é usá-la, o que causa tanta ou mais polêmica que outrora.

Vindos da comédia Italiana e se incorporando, como uma luva, em nosso carnaval, a tríade Colombina, Pierrot e Arlequim, incorporam o sentido da brincadeira de nossos dias, onde todos se misturam sem as barreiras sociais, transformando a festa na celebração de nossas vidas e de nossos anseios, onde é proibido proibir e, pode-se reclamar do custo de vida, da exploração do trabalho alheio e até da postura abusiva da igreja, sem que este fazer possa merecer punição. Se na fábula, o Pierrot aparece sempre chorando, por conta do chifre que Colombina lhe aplicou com o Arlequim, aqui, pelo menos para nós, se chorar, o fará tão somente pela ausência da alegria.

É relativamente grande o número dos que se combatem em função do momento, alguns por estarem proibidos de trabalhar, outros por ficarem impedidos de brincar e se divertir, do outro lado, os que entendem que o contágio é um perigo real e iminente e que a saúde pública está acima da vontade de todos e de cada um. O fato recomenda bastante cumplicidade; pensar a partir do outro, com respeito a dor ou a sentida alegria. “Somente assim, nosso cordão estará cantando ano que vem,” quando a máquina passar e a galera mandar um beijo”. Sem máscaras e sem amarras, vou te abraçar, eu te conheço carnaval.

*Poeta, Compositor e Produtor Cultural.

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