Uma utopia de arrepiar confronta o bolsonarismo com comunismo

Por Raimundo Borges

O Maranhão vive hoje um misto de utopia política, centrada nos ombros de uma pobreza extrema, remexida, em pleno século 21, em contraponto a maior desigualdade entre afortunados e miseráveis. Surge, então, o protagonismo de um governo de partido comunista diminuto sem ser comunista no sentido literal. Eleito por outras 16 legendas misturadas entre esquerdistas (PT e PSB) e o direitismo do PP, DEM e PTB, Flávio Dino lidera esse ajuntamento sem se perder no caminho.

Com todas essas contradições de caráter ideológicas dentro de seu governo, Dino conseguiu desestruturar a oligarquia Sarney, a mais longeva do Brasil pós-coronelismo e se eleger duas vezes sustentado no mesmo estamento que garantiu a construção política demolida. É taxado de ‘comunista’ por quem perdeu o poder e arrisca desacreditá-lo pelo partido em que foi eleito, por aqueles que não ganharam o espaço esperado no governo, ou os que rejeitam Flávio Dino por questão ideológica.

Ideias além-fronteiras

Flávio Dino aparece em pesquisas sobre a eleição presidencial, por conta do seu posicionamento de connfroto a Bolsonaro

No Estado que disputa com Alagoas a lanterna das carências sociais do país, Dino acabou tornando-se uma personagem da política nacional pelas ideias que defende no segmento de esquerda. Na posição de confronto direto com o governo Bolsonaro, Dino chega a entrar em pesquisas sobre a eleição presidencial, mesmo num partido sem estrutura para um projeto de tamanha envergadura. O PCdoB sozinho é apenas um grito sem eco.

Flávio Dino pode até ter aspirações de um dia desembarcar no Palácio do Planalto, como fez o oligarca José Sarney, que, porém, adotou outras práticas e astúcias inéditas no Brasil. O filho de Pinheiro conquistou, nas contradições históricas e circunstanciais um tremendo espaço na vida política do Brasil. Soube aproveitar-se do sistema político que forjou no Maranhão para se projetar nos momentos decisivos para mudar o Brasil de ditadura para a democracia. Até hoje, com mais de 90 anos, Sarney preserva resquícios de poder e de dizer.

Oposição esmigalhada

Ao contrário do sarneísmo, Flávio Dino nunca se iludiu em fundar no Maranhão um centro de radiação do “comunismo” que, de fato, não passa de uma estranha utopia, muito mal compreendida tanto pelos que lhe fazem oposição, quanto por parte do agrupamento que se move ao seu redor. A diferença marcante entre os dois, no âmbito estadual, é que Dino está no sétimo ano de governo, com uma oposição esfarelada e incapaz de se reconstruir depois da derrocada do sarneísmo, a partir de 2014.

Como a utopia política se impõe por método ou forma de se concretizar o ideal utópico, no Maranhão esse concepção é vislumbrada como uma visagem disforme. Ela, a utopia flavista, não descamba para se tornar real com força e violência revolucionárias, muito menos por meio do ativismo missionário. Seria mais o desencadeamento de uma ação pacífica, com o intuito de provocar mudanças por meio do convencimento e da persuasão.

Frente e costa

Nesse ambiente utopicamente disforme, Flávio Dino transita leve e solto. Ora confronta o direitismo extremo do presidente Jair Bolsonaro, ora tenta pactuar uma frente política indo da esquerda petista até às elites conservadoras, as mesmas que produziram Bolsonaro em 2018. Não seria para romper a ordem democrática, mas para derrotar o poder militarizado vigente, que flerta de verdade e sem constrangimento com o autoritarismo pleno.

Flávio Dino não é comunista no sentido clássico. Mas tem militância no ambiente da esquerda, onde ganhou notoriedade até fora do Brasil. Sabe, porém, que sozinho não arriscaria uma aventura de tentar o Palácio do Planalto em 2022. Sua visão alargada da realidade brasileira não é suficiente para liderar um choque político capaz de demolir o arcabouço conservador fincado do Planalto, sob o comando de Bolsonaro.

O Brasil vive um sistema desigualmente perverso, que massacra mais de 80% da população brasileira, mas mesmo assim, o presidente da República vai conseguindo manter-se com elevado grau de aprovação, sem um projeto definitivo de governo. Consegue levar sua legião de seguidores na base de um discurso em que a culpa pelos problemas sociais, econômicos e sanitários da pandemia nunca são de sua responsabilidade. Prefere transferi-los para os governos do PT, que o antecederam, ou para os governadores com os quais está há mais de dois anos trocando pontapés, batendo boca e dando cabeçadas.

Bolsonaro segue transferindo para os governos do PT ou para os governadores a culpa pelos problemas sociais, econômicos e sanitários

Inimigos ideológicos

Nesse ambiente hostil, no qual o governador Flávio Dino tornou-se inimigo o ideológico e ponto de ruptura, todos os demais chefes de estado são empurrados pelo Palácio do Planalto para o centro das mazelas dos 14 milhões de desempregados, da disparada do preço dos alimentos, dos combustíveis e do gás de cozinha, da mortandade da epidemia do coronavírus, da retração de investimentos estrangeiros no país. A gestão bolsonarista prefere o lado de quem pode: afrouxar a compra de armas, “passar a boiada na Amazônia” pela devastação ambiental e lutar para estar viva e forte em 2022.

Desprezando os 230 mil mortos da covid19, Bolsonaro segue levando o seu projeto de reeleição como a prioridade das prioridades. Maquiavel ensinou que os homens tendem sempre à divisão e à desunião. Deriva daí uma tensão social, marcada pelo conflito de desejos entre dois grupos sociais distintos: o povo, que deseja não ser oprimido pelos grandes, e os grandes que, inversamente, desejam oprimir e dominar o povo. “O principado provém do povo ou dos grandes, segundo a oportunidade que tiver uma ou outra dessas partes.”

Por essa política, os poderosos sempre ganham para manipular a pobreza nos mesmos moldes do coronelismo histórico, que deixou suas raízes vicejando até, no presente. Pela deseducação e pela ausência do Estado e pelos entrelaçamentos federal e estadual, que alimentam as oligarquias locais, historicamente, operando para não mudar nada.

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