Jovem de 23 anos, ex-estudante de escola pública do Maranhão, é aprovada em doutorado na UFPE

 

Agência de Notícias – A trajetória educacional de Taluany Nascimento, ex-estudante do Centro de Ensino Graça Aranha – escola pública da rede estadual do Maranhão -, é digna de honraria. Com apenas 23 anos de idade, é mestre em Biodiversidade, Ecologia e Conservação pela Universidade Federal do Tocantins (UFT) e acaba de ser aprovada no doutorado do Programa de Pós-Graduação em Geociências, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Um currículo invejável conquistado por alguém tão jovem.  Para alcançar esse feito, Taluany percorreu um longo caminho.

Taluany Nascimento faz escavação em campo de Paleontologia no Estado de Minas Gerais

“Investir em educação é construir a base para o crescimento social, cultural e econômico de um país. O ensino público está presente em minha vida desde meus primeiros passos no ambiente escolar e, certamente, eu não estaria onde estou se não fosse o acesso ao ensino público”, disse Taluany.

Taluany Nascimento é de origem humilde e nasceu no município de Imperatriz, em outubro de 1997, sendo a primeira de três filhas do casal Teófilo Silva do Nascimento (46 anos) e Valdycleia Araújo Silva (44 anos). Quando completou um ano de idade, foi morar no Assentamento Alvorada II – Lagoa, uma associação na zona rural no município de Amarante do Maranhão. Na cidade, estudou na Escola Municipal Nova Esperança, onde foi alfabetizada e cursou até o 4º ano do ensino fundamental.

Em seguida, Taluany retornou para Imperatriz e foi morar com a sua tia Alzenir. A sua trajetória educacional continuou na Escola Municipal Santa Cruz (5º ano) e no Centro de Ensino Delahê Fiquene, do 6º ano 9º ano.  Durante esse período, foi muito incentivada a estudar e seguir para um curso de graduação, onde conseguiu acompanhar os esforços de seus primos, que já estavam ingressando no ensino superior.

Em 2011, foi morar com a mãe e uma irmã na cidade de Davinópolis, a 12km de Imperatriz, e ingressou no Centro de Ensino Graça Aranha, onde estudou até 2013. Nesse período, fez provas para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e vestibulares tradicionais da Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e UFT. No ano de 2014, foi aprovada no vestibular da UFT no Curso de Ciências Biológicas (Licenciatura) e passou a morar na cidade de Porto Nacional, no Tocantins. Formou-se em fevereiro de 2019 e em março ingressou no mestrado na área de Biodiversidade da mesma instituição.

“Durante a graduação e pós-graduação, meus trabalhos foram voltados para a Paleobotânica, área da ciência que estuda as plantas fósseis. Viajei para participar de eventos científicos e trabalhos de campo. Envolvi-me em diversos projetos de pesquisa nas áreas de educação ambiental e paleontologia. Participei de feiras científicas e eventos culturais da cidade, expondo meus trabalhos, e atuei em diversas escolas municipais e estaduais de Porto Nacional, por meio de estágios e projetos de extensão. Com esse contato, pude perceber o papel social da universidade e o quanto a ciência se faz necessária dentro dos espaços comunitários”, destacou Taluany.

A aprovação no curso de Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Geociências, da UFPE abre novos caminhos para a Taluany, que reconhece a importância dos estudos em sua vida. “Vou desenvolver a minha tese com base no estudo de folhas fósseis provenientes da Antártica, vinculada ao Projeto Florantar (OPERANTAR 38). A Universidade é um lugar de trocas, onde você vai conviver com pessoas de diferentes localidades, culturas e pensamentos. Esse contato é enriquecedor e promove uma nova forma de ver o mundo, e isso foi o que me motivou a continuar na carreira acadêmica”, expressou.

Durante os estudos acadêmicos, Taluany contou com a orientação de excelentes profissionais e não esquece os ensinamentos que recebeu no período em que esteve ao lado de professores e pesquisadores que a ajudaram na busca de novos conhecimentos, mesmo levando em conta um cenário desfavorável de incentivo à pesquisa enfrentado nos últimos anos. Lembrou ainda do apoio recebido da família até hoje.

“Sempre pude contar com pesquisadores e professores excelentes. Vi a força inspiradora de mulheres, mães e cientistas atuando de forma excepcional nos espaços acadêmicos. Mesmo com as atitudes de desmonte da pesquisa científica no Brasil, esses profissionais se mantêm firmes e levantam novos pesquisadores a cada dia. A minha permanência na graduação e pós-graduação deve-se também ao apoio e suporte familiar”, contou.

Taluany Nascimento foi bolsista na graduação (Capes e bolsa de projetos de extensão da UFT) e durante o mestrado (Bolsa Capes). Ela sabe como é difícil suprir as necessidades de moradia e alimentação apenas com o valor da bolsa. “O bolsista não pode ter vínculo empregatício, precisa dedicar-se integralmente às atividades ligadas à bolsa e comprovar todas essas atividades com relatórios e produção científica satisfatória; caso contrário, o valor recebido deve ser devolvido. Há casos de alunos que precisam e não recebem, pois a quantidade de bolsas disponíveis é desproporcional à demanda. Irei agora ingressar no doutorado sem perspectivas de receber bolsa”, ressaltou.

Em meio às dificuldades para manter os estudos, muitos precisam recorrer a atividades informais para a complementação da renda, passando por situações adversas, principalmente quem pertence à família de baixa renda, como Taluany. A estudante defendeu melhorias nas políticas de incentivo à Educação.

“É necessário que haja reajustes e melhorias nas políticas de acesso a auxílios e ações de assistência estudantil das universidades. O conhecimento científico é válido e necessário, podemos ver as universidades e instituições públicas de nosso país à frente de pesquisas acerca da Covid-19, e mesmo assim, em meio a toda essa situação, há uma onda de negacionismo científico no Brasil. As pesquisas estão sendo desvalorizadas e isso é grave”, exprimiu.

As dificuldades enfrentadas por Taluany Nascimento ao longo de sua vida não tiraram a esperança por dias melhores, e deixou um recado para as pessoas que lutam para a realização de seus sonhos.

“Mesmo com a crescente desvalorização dos programas de acesso ao ensino superior, quero dizer que não desistam. Como filha de uma professora do ensino básico e de um trabalhador rural sem escolaridade, digo também que o filho do porteiro, a filha da empregada doméstica, os jovens de baixa renda vão, sim, ingressar no ensino superior, ser mestres e doutores. Vamos resistir aos constantes ataques a universidades públicas, ter uma boa formação e fazer ciência de qualidade”, finalizou.

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