O aforismo e a tolice

 

Por Raimundo Borges

Na presidência da República brasileira há apenas dois anos e meio, Jair Bolsonaro já coleciona um acervo de frases infelizes mal ditas que espantam políticos, a população em geral, pesquisadores, mas que calham como um sedativo aos ouvidos de sua legião de seguidores. Mas Bolsonaro não está só nesse ramo de divertir aliados, tentando chacoalhar a crise com piadas nem sempre ao gosto do consumo geral da nação.

O presidente da Argentina, Alberto Fernández, mesmo sendo oponente ideológico pela esquerda, de Bolsonaro, conseguiu esta semana irritar toda a América Latina com uma frase mal dita – daquelas que todos preferem esquecer.

Na tarde de quarta-feira (9/6), Fernández surpreendeu a plateia durante coletiva com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, na Casa Rosada. No discurso, ele afirmou que “os mexicanos saíram dos índios, os brasileiros saíram da selva, “mas nós, os argentinos, chegamos de barcos, e eram barcos que vinham da Europa”. Assim construímos nossa sociedade”.

Uma declaração tão infeliz, inoportuna, desastrada e sem nenhum sentido histórico, saiu da boca de um chefe de Estado que ofendeu, de uma vez só, os dois principais países da América Latina – Brasil e México.

O tal desatino verbal sequer mereceu resposta a altura do colega brasileiro, Jair Bolsonaro que, preferiu uma ironia também sem sentido. Colocou em sua rede social uma foto dele, usando cocar, no meio de uma maloca de índios da Amazônia, com a lacônica legenda “Selva”.

Apesar de Fernández ter se desculpado de forma enviesada “se ofendeu alguém”, ainda caiu num segundo erro. Disse que a frase teria sido dita pelo mexicano Octavio Paz, vencedor de um Prêmio Nobel de Literatura. Mas, na verdade, ela é parte da canção ‘Llegamos de Los Barcos’, lançada em 1982 pelo músico Litto Nebbia, de quem Fernández já se declarou fã, em outra ocasião.

Seja como for a explicação, tais declarações infelizes de políticos, ou de políticos infelizes, em nada constroem para o engrandecimento pessoal de qualquer chefe de Estado que sonha em ser estadista.

Não precisa ser cientista político para saber que “declarações infelizes” de integrantes do atual presidente da República e de integrantes de seu governo tornaram-se o principal empecilho a uma boa relação institucional com os demais poderes. E acabam prejudicando o país e a população.

Já os aforismos ditos por estadistas, entraram para a história mundial como ensinamento, regra ou princípio. Já as inconsequências das malditas frases mal ditas por chefes de estados tupiniquins são elas acabarem como simples lorotas para fazer os tolos rirem.

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