Unidade de Medida

Jean Nunes

Aristóteles dizia que o ser humano é um animal político. H. Arendt discordava. Para ela, o que nos define é o fato de que vivemos juntos. Aqui, no andar de baixo, e bem mais distante da filosofia, eu diria que a nossa natureza humana pode também ser definida pela insistente necessidade que sentimos de quantificar o que nos rodeia, de medir as experiências que o contato com o mundo nos proporciona. Sob outro aspecto: a forma como definimos nossas métricas e como lidamos com elas dizem muito sobre quem somos e o que nos move nesta vida.

A ciência até que tem se esforçado para evitar o caos. Metro, tonelada, litro e outras proporções são alguns dos exemplos desse seu louvável esforço de padronização, que tem lá sua utilidade, convenhamos. Mas a vida é mais complexa e nela, felizmente, não falta criatividade. Quer dizer, às vezes, falta. E como faz falta a falta de criatividade – a redundância está aqui para provar o que digo.

É o caso da Globo. Só um tratado filosófico pode explicar aquilo. Seus editores medem tudo em campos de futebol.  A área de desmatamento da Amazônia, a extensão das estradas, o tamanho de uma cratera, a quantidade da lava do vulcão que explode nas Ilhas Canárias… Não sobra nada. Até o índice pluviométrico que seca ou enche o Cantareira é medido pelo volume de água que “comporta” um campo de futebol. Mas eles não fazem por mal não, e nem pelo marketing. É que seu horizonte não vai muito além disso. Não há, para eles, outro esporte no mundo e eles creem, piamente, que o brasileiro só compreende as coisas se as medir num campo de futebol.

Não é o caso da Mariana, uma amiga de infância. Ela criou uma unidade própria e peculiar para avaliar os pretendentes que a enamoram: os “erros de português” que eles empregam. É o seu padrão de qualidade. Erros de regência até são relevados. Os de concordância desiludem, mas não incompatibilizam. O que ela não aceita mesmo é a variação dos advérbios. Não há intensidade afetiva que resista a um “menas” – diz ela, ao se lembrar da última decepção.

A métrica também pode indicar uma fase da vida. A fralda, por exemplo, é unidade de medida que indica a presença de um pai de primeira viagem; as “skins” de “Fortinite”, um adolescente pelas redondezas; e um parquinho, a esperança que meu pequeno deposita nos lugares que visitamos. Tem parquinho, pai? – pergunta ele ansioso. Já para o tio Pedro, o importante é que o lugar seja imune a quedas. Ele tem razão. Com seus oitenta anos, é melhor não pedir os estragos que uma fratura causa.

A métrica também espelha os valores que a pessoa considera importante. Assim é que um escravo da avareza capitalista não enxerga outra coisa senão o lucro, ou a ausência dele, no que o rodeia; o político, antes dos direitos, quantifica os votos e a influencer é seguida – e se guia – pela quantidade de likes ou de views.

Em outras realidades, a métrica assume dimensões bem mais profundas. A mulher e o homem do campo, mesmo quando não dispõem de uma trena, preparam suas linhas de roça, utilizando-se das braças que delimitam a quantidade de paneiros de farinha que a colheita do ano trará. A unidade de medida, a serviço de sua dignidade, possui uma precisão milimétrica e existencial.

Já eu acredito que cada coisa ou experiência merece uma régua própria. Um livro, compro pelo cheiro; um filme, qualifico pelo texto; uma comida, saboreio pelas emoções que me causa; um amigo, identifico pela quantidade de assuntos que temos para conversar; uma viagem me impressiona pelas memórias que guardo; uma música, pelo verso que recito; uma crônica, pela capacidade do autor de tornar relevante o trivial…

Se as unidades de medida não nos definem, ajudam a medir o que consideramos importante, o valor das experiências que o mundo nos oferece. E se, para nada disso servirem, ajudarão, ao menos, a entender porque a Mariana continua solteira e a provar que a vida é um pouco maior que um campo de futebol.

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