De um olho só

Por Carlos Gaspar
Todos os anos procuro fazer uma revisão médica. É natural que assim proceda, pois a idade não perdoa ninguém e, por isso, nada como examinar de modo cuidadoso, periodicamente, o próprio organismo. Desta feita fui a São Paulo, aonde não ia há vários anos. Todos os médicos me deram nota dez, em face dos resultados dos exames solicitados, tanto os de laboratório quanto os de imagem. Nada a reparar ou a acrescentar.

Entretanto, como nem tudo é perfeito, do oftalmologista recebi severas recomendações quanto ao uso de determinado colírio E me ameaçou com a probabilidade de séria deficiência visual futura, em um dos meus olhos, caso não siga à risca sua prescrição. Fiquei bastante apreensivo, pensativo, preocupado até.

Mas, logo me recordei de um parente que tinha em Viana, há tempos distante da Terra e buscando o caminho do Céu. Como era ele um homem engraçado, risonho, de boa índole, acredito que tenha alcançado o Céu, para alegria dos anjos e santos que vivem nesse por nós suposto paraíso.

A propósito dessas minhas especulações, terminei por me situar em Viana, na lembrança dos meus tempos de criança e rapaz. É verdade, minha vida sempre foi de muito trabalho, mas em algum período de férias escolares, lá ia eu para Viana, ora para ficar no Sobrado Amarelo, com José Pinheiro, meu tio, irmão de minha mãe, ou então, com o meu avô Delfim, levado pela sua filha mais velha, irmã de minha mãe, nossa querida e inesquecível dindinha Rosica.

Interessante, adotava eu, nessas visitas que não passavam de duas a três semanas, comportamentos que variavam de acordo com o local em que estava hospedado.

Assim, no Sobrado Amarelo portava-me à moda do meu pai, isto é, imitando-o, ao passar a imagem de que, apesar de ainda bem novo, já conhecia parte dos negócios e com isso estaria apto a conversar com eventuais clientes que residiam em Viana.
Já na casa e na fazenda do meu avô Delfim, denominada São João, era eu apenas um rapazinho a descobrir e experimentar as coisas do campo, as árvores frutíferas próprias da região, montar nos animais, fossem burros ou cavalos, a passear pelos lagos em canoas movidas a remo e assim por diante. Tudo isso sem falar na “casa de engenho” onde a cana de açúcar era moída em uma manjarra puxada a bois, produzindo o que chamávamos garapa e aqui na cidade era denominado caldo de cana.

Pois bem, ali experimentei um período de vida bem diferente da minha rotina em São Luís. E, claro, sem o trabalho do comércio, sem as lições de estudo diário, que mais desejaria eu? Parecia que o sol nascia mais cedo naquelas terras, com os animais correndo e cantando pelo terreiro, como a festejar a chegada de um novo dia. Além de que, escutava histórias contadas, no escurecer da noite, mas sob as luzes da lua e das estrelas, pelos moradores que rodeavam a fazenda do meu avô.

Dormir na fazenda era algo excepcional, o vento batendo forte, levando, para dentro do quarto o cheiro gostoso, mistura do mato e da terra, que embalava as redes brancas em que eu e outras pessoas dormíamos. E o amanhecer, ao nascer do sol invadindo nossos quartos, o canto dos passarinhos nos acordava na suavidade dos seus gorjeios.

Ora, São João terminou sendo, para mim, um verdadeiro aprendizado. Ali pela primeira vez vi o carro-de-boi cheio de cana de açúcar, deslocando-se do canavial para a casa de engenho. O rangido de suas rodas. E nem sabia eu o que era um canavial, quantas e quais as pessoas para plantar e cortar a cana, escolhida em boas condições para ir para a moagem. Diria que foi uma excelente lição para poder ler e entender os livros de José Lins do Rego, que logo me chegaram às mãos.

Pelo que percebo, a esta altura do que escrevi, passou pelo meu esquecimento a história do meu parente de Viana, o Quincas, sempre engraçado e risonho, mas de um olho só, pois o outro, diziam todos, era um olho furado. Assim, foi me lembrando dele quando escutei a rigorosa recomendação do meu oftalmologista, acompanhada de severa ameaça. E não tive dúvidas em relatar ao médico o que ouvira do meu distante parente, ao mostrar a minha interrogação: Quincas, então, perdeste um olho? E ele respondeu, risonho como sempre: sim, é verdade, tenho somente um, mas enxergo tudo. E continuou: quem tem dois olhos está luxando.

Lógico que o oftalmo pode nem ter concordado com o meu parente, tanto que, no mesmo passo, refletindo sobre o momento que vivemos, deve ter concluído: a população brasileira tem um olho só, por maldade dos políticos, mas, ao contrário do seu Quincas, está morrendo de miséria.

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