“Cabra macho não faz serviço de mulher”: conheça a campanha que quer mudar essa cultura

Brasil de Fato – Acordar antes do sol nascer e trabalhar pesado o dia todo: a vida no campo não é moleza para ninguém. E menos ainda para as mulheres. É o que explica Domênica Rodrigues, do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia (GT de Mulheres da ANA).
Desde 2014, a campanha incentiva a participação dos homens do campo no cuidado com a casa e os filhos – Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico

“Ela vai cuidar do roçado, vai cuidar da hortinha que tem no quintal de casa, vai cuidar dos meninos. Então ela tem uma sobrecarga maior porque ela divide o trabalho no roçado, e dentro de casa ela faz sozinha, não tem divisão. Quando nasce uma menina, é como se fosse um alívio pra essa mulher, porque essa menina desde pequenininha —5, 6, no máximo 7 anos de idade — já vai estar com essa mãe dividindo o trabalho que essa mãe faz dentro de casa”, explica.

A sobrecarga de trabalho doméstico nas mãos de mulheres e meninas é um problema generalizado no Brasil. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), as mulheres se dedicam, em média, a 21 horas de trabalhos domésticos por semana. A média dos homens é de 11 horas por semana.

Embora não haja dados específicos sobre o meio rural, Domênica aponta que o machismo é ainda muito forte no campo, especialmente entre os homens mais velhos.

Para mudar essa realidade, nasceu a Campanha pela Divisão Justa do Trabalho Doméstico, que começou em 2014, reunindo várias organizações, como a ANA e a Casa da Mulher do Nordeste. Após um hiato de dois anos, a iniciativa voltou com força total no meio de 2020, durante a pandemia. O desafio é mudar hábitos culturais arraigados, como explica Domênica.

“O marido foi pra roça, foi pro roçado. Quando ele voltar, ele vai descansar porque tá cansado. E ela, nesse lugar de cuidado, ela garante que esse marido descanse a ponto dele nem precisar levantar da cadeira pra pegar um prato”, exemplifica.

A agricultora Maria Sueli da Silva diz que na época da mãe e da avó dela era bem assim: todo o trabalho doméstico ficava por conta das mulheres. Mas com ela, a história já é outra.

“Eu digo logo: ‘Hora de cuidar, vamos cuidar. Eu vou pra cozinha, você vai fazer isso, você vai fazer aquilo’. Divido as tarefas para todo mundo dentro de casa. Se todo mundo sentar no sofá e eu for cuidar, eu paro o que estou fazendo e vou para o sofá também”, afirma.

Mas a mudança não surgiu do nada. Desde 2015, ela e outras mulheres do município de São José do Egito, no sertão pernambucano, fazem parte da campanha. Por meio de peças de teatro de rua e de panfletagens nas feiras, elas conseguiram quebrar muitos tabus.

“Não é fácil você mudar a cabeça de um homem. Também do filho, porque tem aquele filho acomodado, que espera que a mãe faça tudo: cozinhar lavar, passar, arrumar menino, fazer a comida, ir pro campo, tudo mais. Foi complicado, muito complicado no início tentar mudar essas pessoas”, relata.

Antes da pandemia, agricultoras ligadas à campanha organizaram encontros, peças de teatro e panfletagens em feiras em São José do Egito (PE) / Acervo pessoal Maria Sueli da Silva

Para levar a transformação adiante, a campanha aposta nas redes sociais. Para isso, criaram até zapnovelas – que são como aquelas radionovelas antigas, só que compartilhadas pelo WhatsApp.

A mulherada chegou cedo à associação pra organizar a feira com produtos produzidos por elas. E olha que pra chegar cedo elas acordam antes do galo cantar. Fazem a comida, limpam a casa, cuidam dos filhos, trabalham no quintal e, aí sim, sem perder o ânimo, partem para a associação. E é isso que a gente vai contar

Domênica está satisfeita com os resultados que vem aparecendo, especialmente entre os homens.

“A gente tem um retorno do seu Francisco, que é do sertão da Bahia. Ele foi ouvir a zapnovela, e percebeu, com a história de Rosa, que ele fazia igualzinho ao marido de Rosa. E como isso deixou ele constrangido. Quando ele terminou de ouvir, ele levantou pra botar a água do café pra fazer, que era uma coisa que ele não fazia de jeito nenhum, imaginava que era algo só de mulher”, relata.

Maria Sueli afirma que a divisão das tarefas domésticas tem sido boa para todo mundo: melhora a vida conjugal do casal e deixa a relação familiar mais harmoniosa.

“Tá bem melhor. Quando a gente divide as tarefas, temos tempo para o lazer, pra sair domingo com a família. Temos tempo pra assistir um jornal, uma novela, um filme, uma série todo mundo junto”.

Quem quiser conhecer melhor a campanha e ouvir as zapnovelas, basta acessar o Instagram @divisaojustadotrabalho.

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